Lavagem do Bixiga reafirma legado negro e resistência em SP
Ultimas Noticias

Lavagem do Bixiga reafirma legado negro e resistência em SP

Redação 8 min de leitura Ultimas Noticias

Liderado pelo bloco afro Ilú Obá de Min, um cortejo de mulheres negras tomou as ruas do Bixiga, no centro de São Paulo, na noite de 13 de maio. O ato simbólico, com água de cheiro e tambores, é um manifesto contra a falsa abolição da escravatura, reafirmando a presença e a história negra na capital paulista. A celebração, que ocorre anualmente, busca iluminar narrativas e recontar a trajetória do povo negro.

A Lavagem do Bixiga como ato de memória e resistência

O ato político, cultural e simbólico ocorre desde 2006 na Rua 13 de Maio e na Escadaria do Bixiga, no centro da capital paulista. Ele é realizado sempre no dia em que se celebra a Abolição da Escravatura, instituída pela Lei Áurea em 1888 e assinada pela Princesa Isabel. No entanto, o evento é um manifesto contra o que os organizadores chamam de falsa liberdade e falsa abolição.

Para Beth Beli, presidenta, diretora artística e regente do bloco Ilú Obá de Min, a lavagem do Bixiga pretende “iluminar nossas narrativas e recontar a história”. A lavagem das ruas com água de cheiro é um gesto poderoso que representa a limpeza das mazelas deixadas pela escravidão. Esse ritual é considerado um “feitiço” para purificar e lembrar as verdadeiras origens e a força do povo preto.

O movimento entende que a escravidão deixou uma herança cruel, e a lavagem serve para lembrar de onde realmente se vem. A tradição foi iniciada pelo coletivo Ori Axé e agora é realizada pelo Ilú Obá de Min como uma forma de legado e de resistência. É uma maneira de reafirmar que a presença negra naquele território não pode ser apagada.

O Bixiga: Um território negro de importância histórica em São Paulo

A escolha do Bixiga para a realização do ato não é circunstancial, como destacou Beth Beli. Embora a região seja amplamente conhecida por suas cantinas italianas e pela forte influência da imigração, ela foi, na realidade, um importante território negro na cidade de São Paulo. A história do bairro revela uma profunda conexão com a população afro-brasileira.

No Bixiga, por exemplo, existiu o Quilombo Saracura, um espaço de refúgio e resistência para pessoas escravizadas em busca de liberdade. A área também é marcada pelo surgimento do samba paulistano, um ritmo musical de raízes africanas que floresceu nas comunidades negras da capital. No início do século 20, a região era carinhosamente conhecida como Pequena África, um nome que evidencia a densidade e efervescência cultural negra ali presente.

Beth Beli reforça a importância de desmistificar a narrativa predominante sobre o bairro. “Esse bairro nunca foi italiano, ele sempre foi dos povos africanos. E aí, se vai se chegando à colônia, que foi um projeto de branquear o Brasil”, afirma. Essa perspectiva histórica é crucial para entender como a identidade negra do Bixiga foi, ao longo do tempo, ofuscada por outras narrativas, um reflexo do projeto de branqueamento cultural e social do país.

O bairro do Bixiga possui uma rica história que o conecta profundamente à população negra de São Paulo, marcada por elementos como:
Importante território negro: Antes da intensa imigração italiana, a região era predominantemente ocupada por negros libertos e escravizados.
Quilombo Saracura: A existência desse quilombo urbano demonstra a resistência e a organização da população negra em busca de liberdade.
Pequena África: No início do século 20, a área era conhecida por esse nome, evidenciando a forte presença e efervescência cultural afro-brasileira.
Berço do samba paulistano: O Bixiga foi palco do surgimento e desenvolvimento do samba na capital, ritmo de profunda raiz africana.

A força do Ilú Obá de Min e a voz das mulheres negras

O bloco afro Ilú Obá de Min é a força motriz por trás da Lavagem da Escadaria do Bixiga. Fundado pelas percussionistas Beth Beli, Adriana Aragão e Girlei Miranda, o coletivo reúne 420 integrantes em sua bateria e corpo de dança. Em 2024, o bloco completou 20 anos de existência, consolidando-se como um dos mais importantes movimentos culturais de São Paulo. Desde sua criação, o Ilú Obá de Min abre as celebrações do carnaval de rua na capital paulista, marcando sua presença de forma vibrante e significativa.

A utilização dos tambores no cortejo é um elemento central e carregado de simbolismo. Beth Beli explica que os tambores são um instrumento milenar, amplamente utilizado para a comunicação e que, nesse contexto, amplificam a voz das mulheres negras. “Se a gente tem alguma arma, a arma é o nosso tambor”, declarou, destacando o poder da percussão como ferramenta de expressão e resistência.

Em um manifesto lido e distribuído à população, o bloco ressaltou a luta histórica das mulheres negras. “Mulheres negras sempre estiveram na linha de frente das rebeliões e lutas do nosso povo”, diz o texto. Essas batalhas atravessam séculos e são exemplo de uma incansável busca pela liberdade. O manifesto é um grito que pode ser ouvido ainda hoje na coletividade feminina, que se organiza para combater diversas opressões sociais.

A luta se estende contra:
Capitalismo: Sistema que pode gerar desigualdades e exploração.
Racismo: Preconceito e discriminação baseados na raça.
Machismo: Discriminação e preconceito contra mulheres.
Capacitismo: Discriminação contra pessoas com deficiência.
Misoginia: Ódio, desprezo ou preconceito contra mulheres.
Lgbtqiap+fobia: Preconceito e discriminação contra pessoas LGBTQIAP+.

O documento ainda rejeita “o legado cruel do colonialismo e da dominação branca para construirmos nossos próprios valores, padrões e perspectivas de vida com a base sólida na cooperação mútua”. Esta mensagem ressoa a urgência de construir uma sociedade mais justa e equitativa, baseada em princípios de solidariedade e respeito mútuo.

Recontando a história: Da falsa abolição à verdadeira liberdade

A lavagem da rua é descrita pelo movimento como um gesto para dizer que a presença negra nesse território não pode ser apagada. Essa é a “lavagem da rua da mentira”, pois a percepção é que a abolição foi uma falsa abolição. A manifestação busca recontar uma história de 500 anos, mas com uma perspectiva que raramente é ouvida nos livros didáticos. “Só que a narrativa aqui é contada pela voz das mulheres negras”, enfatiza o movimento.

O ato de lavar as ruas, de espalhar a água de cheiro e de fazer ecoar os tambores e as vozes, é uma forma de reescrever a história. É um convite à reflexão sobre o 13 de maio não apenas como data de celebração, mas como um dia para pensar em como reparar os danos da escravidão. A luta por equidade racial e justiça social, como a que o STJ promove com cursos sobre o tema, reflete a necessidade de se buscar uma verdadeira liberdade, que vai além da formalidade legal.

A Lavagem da Escadaria do Bixiga, portanto, transcende a simples celebração. É um rito de cura, de memória e de afirmação de identidade. É um lembrete vívido de que a história é multifacetada e que as narrativas silenciadas precisam ser ouvidas e valorizadas. O evento se consagra como um símbolo poderoso da resistência negra e da incessante busca por uma liberdade plena e autêntica no Brasil.


Perguntas Frequentes

O que é a Lavagem da Escadaria do Bixiga?
É um ato político, cultural e simbólico que ocorre anualmente em 13 de maio no centro de São Paulo, liderado pelo bloco afro Ilú Obá de Min. O evento consiste em um cortejo que lava as ruas com água de cheiro, utilizando tambores e vozes para manifestar-se contra a falsa abolição da escravatura e reafirmar a presença negra.

Por que o Bixiga é escolhido para este ato?
O Bixiga foi um importante território negro em São Paulo, onde existiu o Quilombo Saracura e que foi conhecido como “Pequena África” no início do século 20. Apesar de sua associação com a cultura italiana, a escolha do bairro é estratégica para resgatar e reafirmar a história e a presença afro-brasileira na região.

Qual o papel do bloco Ilú Obá de Min na Lavagem?
O bloco Ilú Obá de Min é o principal organizador e condutor da Lavagem da Escadaria do Bixiga, dando continuidade a uma tradição iniciada por outro coletivo. Fundado por mulheres percussionistas, o bloco utiliza a música, a dança e o manifesto para amplificar as vozes das mulheres negras e promover a reflexão sobre a história e a luta pela liberdade.


14 de maio de 2026|Fonte: Agência Brasil|Foto: Elaine Patricia Cruz/Agência Brasil|Redação: Redação|Fonte da Informação ↗

Leia também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *