A Casa com a Música, na Lapa, coração do Rio de Janeiro, recebe neste domingo (12) uma homenagem à icônica cantora argentina Mercedes Sosa, a “Voz da América Latina”. O evento, que inicia às 12h, celebra seu imenso legado artístico e marca o aniversário de dois anos do coletivo Argentines Organizades, com foco na cultura e resistência.
Nascida em 9 de julho de 1935, em Tucumán, cidade histórica onde foi assinada a Declaração da Independência da Argentina, Mercedes Sosa emergiu como uma das figuras mais emblemáticas do continente. Sua ascendência mestiça, que combinava raízes europeias e indígenas Diaguitas, lhe rendeu o carinhoso apelido de “La Negra”. Ao longo de sua carreira, ela dedicou sua poderosa voz e arte à defesa intransigente dos direitos humanos e das causas progressistas, tornando-se um símbolo de resistência e esperança em tempos turbulentos na América Latina. Ela foi uma das principais expoentes do movimento “Nueva Canción Latinoamericana”, que usava a música como ferramenta de expressão social e política.
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Legado de Resistência e Arte
A trajetória de Mercedes Sosa foi marcada não apenas por sua inegável capacidade vocal, mas também pelo seu engajamento político. Sua música, profunda e carregada de significado, ecoava as aspirações e dores dos povos latinos. Ela se tornou uma ponte entre a cultura folclórica tradicional e as mensagens de justiça social, cantando canções que se transformaram em hinos de uma geração. Seu repertório incluía clássicos como “Gracias a la Vida”, de Violeta Parra, e “Alfonsina y el Mar”, que transcendiam fronteiras e idiomas. A profundidade de sua interpretação e a força de sua presença no palco cativavam públicos em todo o mundo.
A vida de Sosa sofreu uma drástica mudança após o golpe militar na Argentina em 1976, que depôs a presidente Isabelita Perón e instaurou a ditadura militar liderada por Jorge Videla. Esse período, conhecido como “Guerra Suja”, foi brutal, com perseguição política, censura e violações generalizadas dos direitos humanos. Muitos artistas e intelectuais foram silenciados, presos ou forçados ao exílio. Em 1979, durante um show em La Plata, a cantora foi detida no palco, um ato que chocou a comunidade internacional. Posteriormente, ela foi compelida ao exílio, morando em cidades como Paris e Madri, antes de poder retornar à sua pátria. Seu retorno à Argentina em 1982, com uma série de shows históricos, foi um marco simbólico para a redemocratização do país. Mercedes Sosa faleceu em 4 de outubro de 2009, em Buenos Aires, deixando um vazio imenso no cenário musical, mas um legado perene de arte e compromisso social.
Homenagens Globais e a Força da Memória
O reconhecimento da artista transcende as fronteiras argentinas e latino-americanas. Araceli Matus, neta de Mercedes Sosa e presidente da Fundación Mercedes Sosa, ressalta à Agência Brasil a amplitude dessas celebrações. “Mesmo em meu país, onde tudo está difícil, há muitas homenagens em várias províncias, a maioria espontâneas”, afirmou. Ela destacou ainda a realização de eventos em diversos países, como Espanha e Alemanha, evidenciando o caráter universal da obra de sua avó. Para Araceli, que veio ao Rio de Janeiro especialmente para a celebração, o legado da avó permanece vivo e profundamente pessoal. “Ela é muito importante para mim. Quando nasci, meus avôs já haviam falecido, então ela foi a única avó que tive. São meus maiores amores”, compartilhou a neta, que também é cantora e compositora, seguindo os passos artísticos da família. A Fundação Mercedes Sosa, presidida por Araceli, tem como missão preservar e difundir o vasto acervo artístico e humanitário da cantora, garantindo que sua voz continue inspirando novas gerações.
Intercâmbio Cultural na Lapa
O evento no Rio de Janeiro é uma iniciativa conjunta de várias entidades, incluindo o coletivo Argentines Organizades, que agrupa mais de 100 migrantes argentinos residentes na capital fluminense, o Folclore Argentino no Rio e a Fundación Mercedes Sosa. Natalia Mercado, uma das organizadoras e representante do coletivo, explica que a homenagem é mais do que uma celebração; é uma resposta cultural ao cenário político atual na Argentina e no mundo. “Em meio às dificuldades que estão acontecendo no mundo e às políticas anti-direitos, celebrar é uma forma também de resistir”, pontuou, sublinhando o poder da arte como ferramenta de expressão e união.
A celebração visa promover um rico intercâmbio cultural entre Brasil e Argentina, destacando a vibrante comunidade migrante e apresentando a riqueza do folclore argentino para além do tradicional tango. A ideia é mostrar a diversidade cultural do país vizinho, explorando ritmos e expressões menos conhecidos, mas igualmente autênticos e significativos. Este tipo de evento fortalece os laços entre as duas nações e celebra a diversidade cultural que enriquece a identidade latino-americana.
Programação Detalhada e Serviço:
A homenagem acontece no Centro de Convivência Milton Nascimento, um espaço acolhedor dentro da Casa com a Música, gerido pelo Sindicato Nacional dos Compositores Musicais. O diretor da entidade, Tuninho Villas, enfatiza a relevância do intercâmbio com a fundação argentina. “É um evento aberto a todas as pessoas que conhecem, admiram e pretendem conhecer um pouco mais sobre Mercedes Sosa”, afirmou Villas. O sindicato, fundado em 1952 e que representa cerca de 20 mil compositores no Brasil, reforça seu compromisso sociocultural ao apoiar esta iniciativa, que valoriza a música e a memória de grandes artistas.
A programação promete uma imersão na cultura argentina, com diversas atrações:
– Música folclórica ao vivo
– Apresentações do Coral BATUCAVIDI
– Performance do grupo Cantar la Ronda
– Aula aberta de chacarera, um ritmo tradicional e vibrante do noroeste argentino, que convida todos a dançar
– Gastronomia típica argentina, oferecendo uma experiência completa aos participantes
A Casa com a Música está localizada na Rua Joaquim Silva, 67, Lapa, na região central do Rio de Janeiro. Com capacidade para 70 pessoas, o local oferece um ambiente íntimo para a celebração. A entrada tem um preço acessível, a partir de R$ 10, garantindo que o evento seja inclusivo e acessível a um público amplo interessado em conhecer ou reviver o legado de Mercedes Sosa. Este encontro cultural promete ser um momento de celebração, memória e resistência, reafirmando a força da música e da arte como pilares da identidade latino-americana.
Perguntas Frequentes
Qual o significado do apelido “La Negra” para Mercedes Sosa?
O apelido “La Negra” era uma referência carinhosa e popular a Mercedes Sosa, tanto pela sua aparência física, que incluía traços de sua ascendência indígena Diaguita, quanto pela sua forte identidade e voz marcante. Era um termo de afeto e reconhecimento do povo argentino e latino-americano à sua artista.
Por que Mercedes Sosa foi forçada ao exílio?
Mercedes Sosa foi forçada ao exílio após o golpe militar de 1976 na Argentina. Ela foi perseguida pelo regime de Jorge Videla devido ao seu engajamento com os direitos humanos e suas canções de protesto. Em 1979, chegou a ser presa durante um show, sendo posteriormente compelida a deixar o país para viver em Paris e Madri, retornando somente em 1982.
O que é o movimento “Nueva Canción Latinoamericana”?
O movimento “Nueva Canción Latinoamericana” foi um gênero musical e social que surgiu na América Latina a partir dos anos 1960. Caracterizado por letras que abordavam temas de justiça social, direitos humanos, identidade cultural e resistência política, utilizava a música folclórica como veículo para mensagens de conscientização e mudança. Mercedes Sosa foi uma de suas vozes mais proeminentes.
Como posso participar da homenagem a Mercedes Sosa no Rio de Janeiro?
A homenagem à Mercedes Sosa acontece neste domingo (12), a partir das 12h, na Casa com a Música, localizada na Rua Joaquim Silva, 67, Lapa, região central do Rio de Janeiro. Os ingressos estão disponíveis a partir de R$ 10. A programação inclui música ao vivo, apresentações de corais e grupos folclóricos, além de aula de chacarera e gastronomia típica argentina.
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