Gestantes da Terra Indígena Munduruku, localizada na região do Médio Tapajós, no Pará, estão expostas a níveis de mercúrio que ultrapassam em 450% o limite seguro estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A pesquisa, parte do Estudo Longitudinal de Gestantes e Recém-Nascidos Indígenas Expostos ao Mercúrio na Amazônia, aponta que a média encontrada nas mulheres é de 9,1 microgramas de mercúrio por grama de cabelo (µg/g), enquanto o limite aceito é de apenas 2 µg/g.
Os dados alarmantes foram apresentados pelo coordenador do estudo, Paulo Basta, durante a Rio Nature & Climate Week. Das 195 gestantes monitoradas, impressionantes 97% apresentaram níveis de mercúrio acima do considerado seguro. Em um caso extremo, uma mulher chegou a ter 39,9 µg/g, o que representa 20 vezes o limite tolerável. Além disso, 134 das mulheres estudadas já haviam dado à luz e os pesquisadores também monitoram os recém-nascidos, com cerca de 90% deles já apresentando contaminação por mercúrio, que é transferido da mãe para a criança pela placenta.
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As concentrações de mercúrio nos bebês também são preocupantes, com uma média de 5,8 µg/g, sendo que, em um caso, um recém-nascido chegou a apresentar 30,8 µg/g, 15 vezes acima do limite seguro. O pesquisador destaca que essa exposição pré-natal pode ter consequências sérias, como atrasos no desenvolvimento neurológico das crianças. “Uma lesão no sistema nervoso central é irreversível e pode impactar a vida toda”, alerta Paulo Basta.
Além do impacto direto na saúde, a pesquisa aponta para um aumento no número de casos de doenças neurológicas raras, síndromes, anomalias congênitas e outras condições médicas sem diagnóstico definitivo, que podem estar associadas à contaminação por mercúrio. O distrito sanitário especial indígena Rio Tapajós registrou um aumento significativo na demanda por cadeiras de rodas, evidenciando as consequências físicas da contaminação.
A liderança indígena Alessandra Korap Munduruku expressou a revolta e a dor da comunidade ao saber dos resultados da pesquisa, que começaram a ser divulgados em 2022. “Estávamos doentes, mas sem exames, não sabíamos o que estava acontecendo. A raiva surgiu quando descobrimos a contaminação”, relatou Alessandra. A Terra Indígena Munduruku é constantemente ameaçada pelo garimpo ilegal de ouro, onde o mercúrio é utilizado para separar o metal precioso da terra, contaminando rios e peixes.
“Para nós, o peixe é nossa principal fonte de alimento e não há como evitar o consumo”, lamenta Alessandra, enfatizando a dificuldade de acesso a outras fontes de proteína. A sua indignação se estende à exploração de seu território por empresas e projetos que ignoram os direitos e a saúde da população indígena, questionando: “Que progresso é esse que destrói rios, florestas e expulsa os povos?”
Por fim, Paulo Basta ressalta que, apesar da gravidade dos dados coletados, ainda faltam registros oficiais sobre a contaminação por mercúrio no Brasil. Atualmente, são 751 casos identificados com confirmação laboratorial, sendo 318 no Pará e 378 em Roraima, relacionados ao povo Yanomami. “É crucial que esses dados sejam reconhecidos e integrados no sistema de saúde”, conclui o pesquisador.
A luta pela preservação da saúde e dos direitos dos povos indígenas é uma batalha que se torna cada vez mais urgente, diante das consequências devastadoras da exploração descontrolada dos recursos naturais.
Perguntas Frequentes
Quais os riscos da contaminação por mercúrio para gestantes?
A contaminação por mercúrio pode causar sérios danos ao desenvolvimento fetal, incluindo atrasos no crescimento e problemas neurológicos irreversíveis.
Como o mercúrio entra no corpo humano?
O mercúrio entra no organismo principalmente pelo consumo de peixes contaminados, que são a principal fonte de alimento para muitas comunidades, especialmente em áreas ribeirinhas.
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