Um grupo de cientistas globais de diversas áreas – incluindo clima, economia e tecnologia – lançou o Painel Científico para a Transição Energética Global (SPGET) em Santa Marta, Colômbia. O objetivo é assessorar governos com recomendações baseadas em evidências para acelerar a descarbonização e orientar políticas públicas eficazes. O anúncio ocorreu neste sábado (25), durante a Primeira Conferência Internacional sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis.
A iniciativa surge como uma resposta direta à crescente urgência de reduzir as emissões de gases de efeito estufa e combater as mudanças climáticas. A comunidade científica busca preencher uma lacuna na articulação entre conhecimento técnico e tomada de decisões políticas em nível global.
Um Novo Marco para a Ciência Climática
A criação do Painel Científico para a Transição Energética Global (SPGET) representa um esforço coordenado para centralizar e difundir o conhecimento necessário à superação dos combustíveis fósseis. Este novo organismo visa oferecer um suporte robusto e contínuo para as nações que buscam se afastar da dependência de fontes de energia poluentes.
O painel foi concebido para reunir, ao longo dos próximos cinco anos, as evidências científicas que permitirão que cidades, regiões, países e coalizões deem o grande salto rumo à descarbonização. Essa abordagem integrada é crucial para lidar com a complexidade da transição, que engloba aspectos econômicos, ambientais e de justiça social.
A Urgência da Descarbonização e o Contexto Global
A conferência em Santa Marta, Colômbia, que reúne 57 países e cerca de 4.200 organizações, destaca a crescente preocupação internacional com a dependência de combustíveis fósseis. A urgência em encontrar alternativas energéticas ganhou ainda mais destaque com eventos geopolíticos recentes, que expuseram a vulnerabilidade energética de diversas nações. A transição energética, portanto, não é apenas uma questão ambiental, mas também de segurança e soberania.
A iniciativa liderada por cientistas busca resgatar a primazia da ciência como orientadora de decisões políticas. Segundo Claudio Angelo, coordenador do Observatório do Clima, essa primazia tem sido um tanto esquecida no âmbito da Convenção do Clima. Ele relembrou que, antigamente, grandes encontros como a Eco-92 eram precedidos por relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), algo que deixou de acontecer nos últimos anos, culminando com um relatório do IPCC sendo “relegado a uma nota de rodapé” na COP24, em 2018.
Objetivos e Desafios do Painel SPGET
O SPGET pretende fortalecer a articulação entre a academia e os governos, contribuindo para a construção de estratégias coordenadas para a redução das emissões. A proposta é ambiciosa e multifacetada, englobando diversas frentes de atuação.
Entre os principais objetivos do painel estão:
* Elaboração de Recomendações Técnicas: Fornecer diretrizes claras e baseadas em dados para políticas públicas.
* Acompanhamento de Políticas: Monitorar a implementação e a eficácia das ações de transição energética em diferentes países.
* Integração com Processos Internacionais: Alinhar-se com eventos cruciais como a COP30, que será presidida pelo Brasil.
* Atuar como Ponte: Conectar países com diferentes níveis de avanço na transição, facilitando a troca de conhecimento e tecnologia.
Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático, enfatizou que a ciência pode atuar como uma ponte entre nações. Ele destacou que a transição é “complexa e envolve economia, meio ambiente e justiça social”, e que o painel é uma forma de integrar todos os envolvidos gradualmente.
Conferência de Santa Marta: Um Chamado à Ação
A Primeira Conferência Internacional sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis focou em medidas concretas para reduzir a dependência dessas fontes. Os trabalhos foram divididos em três eixos principais:
* Transformação Econômica: Buscando modelos de desenvolvimento que integrem a sustentabilidade.
* Mudança na Oferta e Demanda de Energia: Explorando novas fontes e promovendo a eficiência energética.
* Cooperação Internacional: Fortalecendo parcerias para soluções globais.
A ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres, defendeu a iniciativa do painel, afirmando que ela “não só repara uma dívida ao criar, pela primeira vez, um organismo dedicado à superação dos combustíveis fósseis, como também discute outros desafios sociais e econômicos dessa transformação”. A presença de nomes como os brasileiros Carlos Nobre, referência em estudos amazônicos, e Gilberto Jannuzzi, da Unicamp, ao lado de Rockström, demonstra a relevância do corpo científico envolvido.
A ministra do Clima e do Crescimento Verde dos Países Baixos, Van Veldhoven, que lidera a iniciativa ao lado da Colômbia, ressaltou o potencial de transformação do grupo. “Com mais de 50% do PIB global representado nesta Conferência, este grupo tem a capacidade coletiva de transformar essas cinco palavras em ações concretas”, disse ela. Veldhoven também apontou que a crescente volatilidade no mercado de combustíveis fósseis cria o momento ideal para a transição, visando reduzir o impacto climático, reforçar a independência energética e impulsionar o crescimento econômico verde.
O ativista socioambiental sul-africano Kumi Naidoo, que lidera a Iniciativa do Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis, vê a conferência como uma oportunidade para estabelecer medidas concretas que as COPs muitas vezes não conseguem realizar. Ele defende a criação de “mecanismos e caminhos juridicamente vinculativos”, como um tratado sobre combustíveis fósseis, para garantir que as decisões políticas acompanhem o rigor do trabalho científico.
—
Perguntas Frequentes
O que é o Painel Científico para a Transição Energética Global (SPGET)?
É um grupo de cientistas de diversas áreas criado para assessorar governos com recomendações baseadas em evidências para a transição energética global e a descarbonização.
Qual o principal objetivo do SPGET?
Seu principal objetivo é fornecer diretrizes científicas para políticas públicas e ações concretas, fortalecendo a articulação entre academia e governos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
Quem são os principais nomes envolvidos na criação do painel?
Entre os nomes de destaque estão os cientistas brasileiros Carlos Nobre e Gilberto Jannuzzi, o sueco Johan Rockström, e a ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres.