Em meio à abertura política e importantes mudanças no Brasil em 1986, as edições regionais de O Pasquim em São Paulo e Rio Grande do Sul foram lançadas. Agora, 114 exemplares desses periódicos históricos foram digitalizados pela Biblioteca Nacional Digital, expandindo o acesso ao público e preservando um marco do jornalismo.
O cenário de 1986 era efervescente, marcado pela transição democrática, o lançamento do Plano Cruzado, o fim da fabricação do Fusca e até o acidente radioativo em Chernobyl. Foi nesse contexto de intensas transformações que O Pasquim, já consagrado no Rio de Janeiro por sua linha editorial ousada e frequentemente censurada durante a Ditadura Militar, buscou se regionalizar.
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As edições de São Paulo e Rio Grande do Sul mantiveram, por um breve período, o tom irreverente e crítico que caracterizava o tabloide carioca. Essa iniciativa, que agora completa quatro décadas, teve suas 114 edições regionais cuidadosamente digitalizadas. Elas estão disponíveis para consulta na Biblioteca Nacional Digital, somando-se às 1.072 edições cariocas já presentes no acervo.
A digitalização representa um esforço crucial para a preservação da memória do jornalismo brasileiro. Permite que novas gerações de pesquisadores e curiosos tenham acesso a um material que documenta não apenas a política, mas também os costumes e a contracultura da época. A iniciativa da Biblioteca Nacional assegura que esse legado não se perca.
Os Pioneiros das Edições Regionais e o Conteúdo Irreverente
Quando a ideia de expandir O Pasquim para outros estados surgiu, o periódico já não detinha a mesma força e influência que teve nas décadas de 1960 e 1970. No entanto, a admiração pela marca e seu impacto no jornalismo nacional motivou dois jornalistas a liderar o projeto de regionalização.
Em São Paulo, o jovem Paulo Markun abraçou o desafio, contando com o apoio de Manoel Canabarro e Dante Matiussi. No Rio Grande do Sul, Flávio Braga viajou ao Rio de Janeiro para convencer o cartunista Jaguar, então diretor do jornal, a autorizar a sucursal gaúcha. A paixão por O Pasquim era o motor desses empreendimentos, movendo-os a levar a voz do jornal para outras praças.
Flávio Braga destaca a importância de revisitar esse período e seu conteúdo. Ele acredita que, embora muitos reconheçam o valor histórico de O Pasquim, poucos compreendem a real dimensão de seu significado para uma geração inteira. O jornal se tornou um símbolo de resistência e liberdade de expressão em tempos sombrios.
O papel transgressor de O Pasquim era evidente em cada página. Seus artigos e entrevistas eram assinados por nomes como Millôr Fernandes, Tarso de Castro, Sergio Cabral, Ruy Castro e Paulo Francis. Além disso, as charges e caricaturas de artistas como Jaguar, Henfil e Ziraldo complementavam o conteúdo. A publicação era marcada por palavrões, sátiras políticas e uma forte pegada contracultural, tudo isso em plena Ditadura Militar.
A Contracultura e a Pauta Local
As edições regionais de O Pasquim se destacaram por uma particularidade fundamental: a pauta local. Embora ocasionalmente utilizassem entrevistas e reportagens da matriz carioca, o foco era nos assuntos que reverberavam em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Essa abordagem permitiu uma conexão mais profunda com os leitores dessas regiões.
No Sul, o jornal manteve seu tom satírico para abordar temas específicos, como a figura do “macho sulino”. Essa postura provocou debates e até confrontos, conforme recorda Flávio Braga. A irreverência do tabloide gaúcho desafiava normas sociais e culturais da época, gerando discussões relevantes.
Já em São Paulo, a publicação refletiu a “efervescência política” daquele período. A cidade vivenciava intensamente o pós-ditadura, com a redemocratização ainda em processo de consolidação. Paulo Markun aponta que essa atmosfera influenciou diretamente o conteúdo das edições paulistas, que se tornaram um espelho do momento.
As edições regionais também expuseram aspectos comportamentais típicos da contracultura. Temas como liberdade sexual e o uso recreativo de drogas, mais visíveis no Rio de Janeiro, encontraram espaço e debate nas páginas do tabloide. O Pasquim era um espelho das transformações sociais em curso no país.
As sátiras políticas eram um dos pilares do sucesso de O Pasquim. Em São Paulo, políticos como Paulo Maluf tornaram-se alvos preferenciais. Maluf, que foi governador e duas vezes prefeito da capital paulista, não contava com o apoio de nenhum dos colaboradores da regional, o que se refletia na cobertura.
Paulo Markun revela a unanimidade na oposição a Maluf entre a equipe. “Todos eram contra o Maluf”, afirma. Entre os apoiadores de outros candidatos estavam defensores de Eduardo Suplicy, do PT, de Orestes Quércia, do PMDB, e até de Antônio Ermínio de Moraes, então no PTB e candidato empresarial. Essa diversidade de pensamentos políticos unia-os na crítica a Maluf.
Outro diferencial das edições regionais foi a valorização de cartunistas e jornalistas locais. Em São Paulo, Markun cita nomes como Marangoni, Régis, Laerte, Jau (o próprio Jaguar), Jô Soares, Augusto Nunes, Gabriel Priolli, Alberto Dines e Fernando Morais.
Uma curiosidade marcante foi a “briga pública” entre Alberto Dines e Fernando Morais no Pasquim São Paulo. O embate ocorreu devido à defesa fervorosa de seus respectivos candidatos a governador, evidenciando a paixão política que permeava a redação do jornal.
No Rio Grande do Sul, Flávio Braga recorda talentos como Edgard Vasquez, Santiago, Bier (Augusto Franke Bier), Canini (Renato Vinícius Canini) e o jornalista Reverbel. Braga enfatiza: “O jornal não existiria sem eles”, ressaltando a importância do talento local para a identidade do periódico.
Desafios Financeiros e o Legado Digital
A sobrevivência financeira sempre foi um fator crítico para qualquer publicação, e O Pasquim não foi exceção. A questão econômica foi determinante para que as edições regionais tivessem uma duração limitada, pouco mais de um ano, tanto em São Paulo quanto no Rio Grande do Sul.
No Sul, a redação de Porto Alegre conseguiu se manter através de parcerias estratégicas e anunciantes de peso. Empresas como a extinta companhia aérea Varig apoiaram o tabloide gaúcho, reconhecendo talvez a relevância de sua audiência, mesmo que nichada e com um perfil irreverente.
Em São Paulo, a situação era mais desafiadora, conforme relata Paulo Markun. O número de anunciantes era reduzido, e a venda avulsa, embora razoável, não alcançava o patamar necessário para a sustentabilidade do jornal. A resistência de algumas empresas em associar suas marcas ao passado “irreverente” de O Pasquim era um obstáculo considerável.
Markun compara os cenários de diferentes épocas para o jornal: “No tempo da ditadura, o Pasquim foi um tal êxito de vendas que não foram os anúncios que deram dinheiro, foi a venda avulsa.” Ele lembra que o jornal chegava a vender 200 mil exemplares, um número impressionante para a época. Esse sucesso de vendas na ditadura contrastava com a dificuldade de atrair publicidade na fase pós-abertura, quando o jornalismo alternativo competia com uma imprensa mais livre e diversificada.
Apesar dos desafios financeiros e da curta duração das edições regionais, o legado de O Pasquim permanece inegável. Sua digitalização pela Biblioteca Nacional não apenas resgata um pedaço fundamental da história do jornalismo brasileiro, mas também oferece um valioso recurso para entender o período de transição democrática no país. A irreverência, a crítica e a coragem de seus colaboradores continuam a inspirar o debate e a reflexão sobre a imprensa e a sociedade.
– O impacto de O Pasquim durante a ditadura militar foi imenso.
– Suas edições regionais em São Paulo e Rio Grande do Sul buscaram adaptar a irreverência a pautas locais.
– A digitalização pela Biblioteca Nacional Digital garante a preservação e o acesso a esse acervo histórico.
– Nomes como Jaguar, Millôr Fernandes e Ziraldo foram essenciais para a identidade do periódico.
– Os desafios financeiros foram cruciais para a curta duração das edições regionais.
Perguntas Frequentes
Quais edições de O Pasquim foram digitalizadas?
Foram digitalizadas as **114 edições
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