Pesquisadores e ativistas propõem uma revolução no urbanismo, defendendo a integração de florestas nas cidades para combater a crise climática e melhorar a qualidade de vida. A discussão ocorreu no Seminário Internacional Transmutar, realizado no Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), no último fim de semana.
Essa visão, que resgata princípios de civilizações antigas que habitavam a Amazônia, busca repensar a relação entre o ser humano e a natureza no contexto urbano. O conceito central é transformar as cidades em organismos vivos e resilientes.
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Fitópolis: Cidades Inteligentes e Verdes
O escritor e pesquisador italiano Stefano Mancuso, uma referência internacional nos estudos sobre a inteligência das plantas, foi um dos palestrantes. Ele apresentou o conceito das fitópolis, propondo uma transformação radical na concepção das cidades. A ideia é que as metrópoles operem como sistemas inteligentes e adaptáveis, inspirados na organização das plantas.
Para Mancuso, a verdadeira evolução urbana não reside apenas em soluções arquitetônicas focadas no bem-estar humano. É crucial que haja uma interação mais fluida e orgânica com o meio ambiente. Essa abordagem reconhece o ser humano como parte integrante de um ecossistema muito mais amplo e complexo.
O neurobiólogo italiano enfatiza que as plantas são sistemas altamente sofisticados. Ele argumenta que, embora não sejam seres superiores, a percepção humana sobre elas tem evoluído, reconhecendo sua importância vital. A crise climática e o aquecimento global, que afetam diretamente os 70% da população mundial que vive em áreas urbanas, tornam as fitópolis uma solução urgente.
Mancuso sugere medidas concretas para essa transformação. Uma delas seria a redução de 20% do asfalto, substituindo-o por áreas arborizadas. Essa mudança já traria um impacto significativo na qualidade de vida dos habitantes. Além disso, ele defende que as plantas devem ser incorporadas também dentro dos edifícios.
O fundador do Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal da Universidade de Florença projeta que uma fitópolis ideal teria uma cobertura vegetal de pelo menos 60%. Tal cidade também deveria contar com uma rede de transporte público altamente eficiente e ser livre de veículos movidos à combustão.
A Inteligência dos Seres Não-Humanos
O ecólogo e curador do Museu do Amanhã, Fabio Scarano, reforçou a perspectiva de Mancuso. Ele destacou que toda forma de vida possui inteligência, não sendo uma característica exclusiva dos seres humanos. Scarano aponta que o trabalho do professor Mancuso tem um profundo efeito político.
Ao reconhecer a inteligência de seres não-humanos, há uma chance de mudar atitudes e percebê-los como “irmãos”, uma visão defendida por São Francisco de Assis. Scarano critica a visão de que a natureza é apenas uma paisagem ou um recurso a ser consumido. Ele lembra que 90% do planeta é composto por cobertura vegetal, essencial para a produção de oxigênio e alimentos. O trabalho de Mancuso, segundo Scarano, “populariza um conhecimento científico que é pouco discutido nas escolas”.
O Legado do Urbanismo Amazônico Ancestral
O arqueólogo e antropólogo Eduardo Góes Neves, professor titular da Universidade de São Paulo (USP), trouxe uma perspectiva histórica fundamental. Ele apresentou evidências de urbanismo indígena na Amazônia que remontam a 2,5 mil anos atrás, no Acre. Posteriormente, entre 1,5 mil e 1 mil anos atrás, essa urbanização se espalhou por diversas regiões amazônicas.
A principal lição desse urbanismo antigo, segundo Neves, é que ele não excluía a natureza. Em contraste, ele aponta para cidades modernas como São Paulo, onde rios foram “mortos” e transformados em depósitos de lixo. “A gente excluiu muito a natureza”, critica o professor.
Neves também ressaltou a desigualdade social intrínseca ao urbanismo atual. Ele observou que os bairros mais arborizados tendem a ser os mais ricos, enquanto as populações desassistidas muitas vezes vivem em áreas com pouca ou nenhuma vegetação. A proposta é resgatar o conceito de “cidades jardins“, como eram as antigas cidades amazônicas, que se entrelaçavam com as áreas de bosque. “A gente tem que trazer a floresta de volta”, concluiu Neves.
Transfluências: O Pensamento Circular de Nêgo Bispo
O tema deste ano do seminário foi “Transfluências“, uma homenagem ao pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo. Nêgo Bispo, falecido em 2023 aos 63 anos, inspirou a programação que celebrou a 22ª Semana do Meio Ambiente no Inhotim, o maior museu a céu aberto de arte contemporânea da América Latina.
A diretora de Natureza, Operações e Infraestrutura do museu, Alitah Mariah, explicou os conceitos de confluência e transfluência de Nêgo Bispo. Segundo ela, a transfluência se alinha perfeitamente com a proposta do seminário. Esse conceito sugere que todo pensamento e ação, tanto humanos quanto não-humanos, são circulares.
Mariah afirmou que a transfluência representa a ideia de que “para tudo que vai, alguma coisa fica”. Essa busca por entender o que se pode alimentar, trocar e transformar, e o que permanece desse processo, é o cerne do que os pensadores exploraram no seminário. A interconexão entre diferentes formas de vida e saberes, característica do pensamento de Nêgo Bispo, ressoa com a urgência de incorporar a natureza ao centro das cidades e da vida humana.
Benefícios das Cidades Verdes
A integração de florestas e áreas verdes nas cidades oferece uma série de benefícios cruciais para a saúde urbana e ambiental:
– Melhora da qualidade do ar: Árvores absorvem poluentes e liberam oxigênio, combatendo o efeito estufa.
– Redução da ilha de calor urbana: A vegetação diminui a temperatura ambiente, mitigando o calor excessivo do asfalto e concreto.
– Aumento da biodiversidade: Cidades mais verdes atraem fauna local, como aves e insetos polinizadores, enriquecendo o ecossistema.
– Gestão da água da chuva: Áreas verdes absorvem a água, reduzindo inundações e recarregando aquíferos.
– Melhora da saúde mental: O contato com a natureza comprovadamente reduz o estresse, a ansiedade e melhora o bem-estar.
A visão de uma cidade mais conectada à natureza representa um caminho promissor para enfrentar os desafios do século XXI. A redefinição do urbanismo passa por reconhecer a inteligência e a importância de todos os seres vivos, promovendo um futuro mais equilibrado e sustentável para as futuras gerações.
Perguntas Frequentes
O que são fitópolis e qual seu objetivo principal?
Fitópolis são cidades concebidas como organismos urbanos inteligentes, resilientes e adaptáveis, inspiradas na organização das plantas. O objetivo principal é combater a crise climática, reduzir a desconexão entre humanos e natureza, e melhorar a qualidade de vida nas áreas urbanas.
Quais as propostas de Stefano Mancuso para as cidades do futuro?
Stefano Mancuso sugere que uma fitópolis ideal tenha pelo menos 60% de cobertura vegetal, uma redução de 20% do asfalto em favor de áreas arborizadas, e que as plantas sejam incorporadas também dentro dos edifícios. Além disso, ele defende um sistema de transporte público eficiente e a ausência de veículos movidos à combustão.
Como o urbanismo indígena amazônico se relaciona com a ideia de cidades verdes?
O urbanismo indígena amazônico, que data de milhares de anos, é um exemplo histórico de cidades que não excluíam a natureza, mas a integravam em seu desenho. Essa abordagem de “cidades jardins”, onde áreas urbanas se entrelaçavam com florestas, serve de inspiração para o conceito moderno de trazer a floresta de volta para dentro das metrópoles.
Por que o reconhecimento da inteligência das plantas é importante para o urbanismo sustentável?
O reconhecimento da inteligência das plantas, como defendido por pesquisadores como Stefano Mancuso e Fabio Scarano, é crucial porque muda a percepção humana sobre a natureza. Ao ver as plantas não apenas como recursos, mas como seres complexos e inteligentes, é possível desenvolver uma atitude de respeito e colaboração, fundamental para a criação de cidades verdadeiramente sustentáveis e integradas ao meio ambiente.
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