Registros financeiros revelam poupança de escravizados para alforria
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Registros financeiros revelam poupança de escravizados para alforria

Redação 7 min de leitura Ultimas Noticias

O Ministério Público Federal (MPF) e pesquisadores desvendam registros financeiros do século 19 no acervo da Caixa Econômica Federal, indicando poupanças de pessoas escravizadas para comprar sua alforria. A investigação busca quantificar, atualizar e restituir esses valores a descendentes, marcando um passo crucial na reparação histórica brasileira.

Desvendando o Passado: A Busca por Justiça e Reparação

Um capítulo fundamental da história do Brasil, muitas vezes ignorado, começa a ser revelado por meio de pesquisas detalhadas. Os registros financeiros agora descobertos pertencem a pessoas escravizadas que, no século 19, depositavam valores em contas da Caixa Econômica Federal com a esperança de conquistar sua liberdade. A alforria, ou manumissão, representava o ápice do desejo de autonomia para milhões de indivíduos submetidos à escravidão, um sistema que perdurou no Brasil por mais de 350 anos e só foi abolido em 1888.

Naquele período, o Brasil contabilizava 723.419 pessoas escravizadas, segundo dados da Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, o que seria o equivalente ao Ministério da Agricultura da época. A descoberta de cadernetas de poupança abertas por esses indivíduos oferece uma perspectiva inédita sobre a agência e a resiliência de quem lutava por sua emancipação. O dinheiro poupado, muitas vezes fruto de trabalhos extras ou bicos, era a única ponte para a liberdade para muitos.

Até o momento, o Ministério Público Federal já identificou 158 dessas cadernetas de poupança no acervo histórico do banco. Esse achado inicial impulsionou uma determinação do MPF à Caixa para que forneça informações detalhadas sobre todos os registros financeiros relacionados a pessoas escravizadas. A iniciativa visa não apenas a identificação, mas também a possibilidade de restituição desses valores, atualizados, aos descendentes dos poupadores originais.

O Papel da Caixa Econômica Federal e o Legado da Escravidão

A Caixa Econômica Federal, um banco público com uma longa história no Brasil, é agora o epicentro dessa investigação. Fundada em 1861 por Dom Pedro II, a instituição tinha como um de seus objetivos estimular a poupança popular e conceder empréstimos sob penhor, atendendo a uma parcela mais ampla da população. A existência de contas de pessoas escravizadas em seu acervo sublinha a complexa intersecção entre as instituições financeiras e o sistema escravista da época.

O MPF tem feito exigências específicas à Caixa para garantir a transparência e a profundidade da apuração. As informações solicitadas incluem:

– Qual equipe será envolvida pela Caixa na apuração dos registros.
– Que metodologia será adotada para identificar e analisar os documentos.
– Qual a quantidade disponível dos chamados “livros de conta corrente” com anotações de depósitos e saques dos ex-escravizados.

Esses livros de conta corrente são particularmente importantes, pois ainda contêm a remuneração dos juros, que era de 6% a cada seis meses. Em nota, a Caixa informou que tem colaborado ativamente com o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro, fornecendo todas as informações solicitadas dentro do prazo. O banco público enfatizou que a guarda, conservação e pesquisa de seu acervo histórico são processos contínuos e permanentes, realizados por equipes multidisciplinares no âmbito da Caixa Cultural, respeitando os limites e as condições materiais do acervo.

A Caixa também reforçou seu “papel histórico na promoção da igualdade racial no país” e mencionou a existência de “políticas estruturantes de combate ao racismo e a promoção da igualdade na sociedade brasileira”. Essa posição se alinha a um movimento crescente de instituições brasileiras que buscam reconhecer e reparar seu papel durante o período escravista, como visto nas notícias relacionadas que mencionam o MPF cobrando do Banco do Brasil reparação por apoio à escravidão e o pedido de perdão do Banco do Brasil ao povo negro.

Desafios e Importância da Recuperação dos Registros Históricos

A tarefa de desvendar esses registros é monumental, não se restringindo apenas ao século 19, mas abrangendo toda a história do banco. A historiadora Keila Grinberg, professora da Universidade de Pittsburgh e diretora do Center for Latin American Studies, estima que, se dispostos lado a lado, os documentos para triagem se estenderiam por 15 quilômetros. Essa extensão é 3,6 vezes maior que o icônico calçadão da Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, ilustrando a vastidão do material a ser analisado.

O processo exige um trabalho meticuloso de “separar o joio do trigo”, verificar as condições de conservação do material, catalogar, analisar e, finalmente, tornar o acervo disponível para a sociedade. A professora Grinberg enfatiza a necessidade de organizar apropriadamente, digitalizar e criar instrumentos de busca eficazes para que pesquisadores e a população em geral possam consultar esses documentos. Atualmente, não há estimativas precisas de quantas cadernetas de poupança foram abertas na Caixa antes da abolição, nem onde os possíveis valores remanescentes possam ter ido parar. A ação do MPF é, portanto, essencial para impulsionar a Caixa a organizar e disponibilizar essa documentação, permitindo o avanço das pesquisas sobre o tema.

O Racismo Estrutural e o Silenciamento da História Negra

Para estudiosos da escravidão e movimentos sociais negros, o avanço dessas pesquisas representa uma oportunidade de romper com sigilos históricos e confrontar o senso comum que disfarça, oculta ou nega a segregação racial no Brasil. O historiador Itan Cruz Ramos, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), observa que a estrutura das relações raciais no país e o racismo seguem uma lógica do silêncio e da dissimulação. Essa lógica permite a perpetuação da ideia de que o racismo é sempre “no outro”, esquivando a responsabilidade coletiva.

No plano institucional, essa negação da realidade se manifesta no apagamento do passado. As dificuldades em localizar registros e recuperar a história não são acidentais. A perda e a degradação dos arquivos, segundo Cruz Ramos, são reflexos de um país que evita lidar com o trauma e o incômodo da escravidão, bem como com a luta por direitos do povo negro brasileiro. O Brasil, de fato, nunca deu a devida importância ao seu passado escravista a partir da perspectiva das pessoas negras, muitas vezes tratando a escravidão como um evento horrível que deve ser esquecido.

Cruz Ramos é autor de um artigo publicado em 2024 na Revista de História da Universidade de São Paulo (USP), que aborda um exemplo contundente desse apagamento. Ele detalha como o fundo nacional de emancipação, que tinha a finalidade inicial de auxiliar pessoas escravizadas na conquista de sua liberdade, acabou sendo apropriado por fazendeiros. Esse dinheiro foi desviado para pagar a importação de mão de obra europeia, especialmente trabalhadores italianos, para as lavouras, evidenciando uma política de Estado que priorizava a branquitude em detrimento da reparação aos libertos. As atuais investigações sobre as poupanças para alforria na Caixa representam um esforço vital para reescrever essa história e fazer justiça.

Perguntas Frequentes

O que são as cadernetas de poupança de escravizados?
São registros financeiros do século 19 encontrados no acervo da Caixa Econômica Federal, que indicam depósitos feitos por pessoas escravizadas. A hipótese é que esses valores eram poupados com o objetivo de comprar a própria alforria, ou seja, a liberdade.

Qual o objetivo do Ministério Público Federal ao investigar esses registros?
O MPF busca desvendar esses registros para quantificar e atualizar os valores depositados, com o objetivo final de restituí-los aos descendentes das pessoas escravizadas. A ação faz parte de um esforço maior de reparação histórica e reconhecimento do papel das instituições financeiras no período escravista.

Por que é tão difícil localizar e organizar esses documentos históricos?
A dificuldade reside na vasta quantidade de documentos – estimados em 15 quilômetros de extensão – e na necessidade de um trabalho meticuloso de triagem, catalogação e digitalização. Além disso, o historiador Itan Cruz Ramos aponta que a dificuldade reflete um “projeto de país” que historicamente negligenciou seu passado escravista e os arquivos relacionados.


17 de maio de 2026|Fonte: Agência Brasil|Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil|Redação: Redação|Fonte da Informação ↗

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