Câmara adia análise de PEC sobre maioridade penal

A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados adiou, nesta terça-feira (19),...
Por Redação
20/05/2026 às 00h27 Atualizado há 2 horas
Bruno Spada/Câmara dos Deputados

A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados adiou, nesta terça-feira (19), a análise da admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos. O adiamento ocorreu devido ao início da Ordem do Dia do Plenário, que interrompe as votações nas comissões da Casa, postergando a decisão sobre a tramitação do texto.

Avanço e adiamento da PEC 32/15 na Câmara

A PEC 32/15, de autoria do deputado Coronel Assis (PL-MT), propõe que jovens a partir dos 16 anos passem a responder criminalmente por seus atos como adultos, cumprindo pena em presídios. Atualmente, a legislação brasileira, por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), estabelece que jovens que cometem infrações graves devem cumprir medidas socioeducativas, com um limite máximo de três anos de internação. A proposta do Coronel Assis, no entanto, vai além da punição criminal, sugerindo que jovens de 16 anos também teriam a prerrogativa de se casar, celebrar contratos, obter carteira de habilitação e votar obrigatoriamente, equiparando-os a adultos em diversos aspectos civis.

Antes da interrupção da sessão, o relator da matéria, deputado Coronel Assis, apresentou seu parecer favorável à admissibilidade da proposta. Contudo, ele defendeu que a emenda constitucional se concentre exclusivamente na questão da punição criminal, sem abordar os direitos civis. Segundo o parlamentar, essa separação seria crucial para evitar o que ele chamou de “confusão jurídica”, indicando a complexidade de harmonizar diferentes esferas legais em uma única alteração constitucional.

O debate sobre a maioridade penal: argumentos e dados

A discussão sobre a redução da maioridade penal é um tema recorrente e controverso no Brasil, dividindo opiniões dentro da própria Comissão de Constituição e Justiça e na sociedade em geral. Os defensores da redução argumentam que a medida é uma resposta à crescente criminalidade juvenil e à percepção de impunidade. O autor da PEC, Coronel Assis, cita uma pesquisa recente, afirmando que 90% da população brasileira seria a favor da redução da maioridade penal, o que, para ele, reflete um clamor social por mais rigor na punição de jovens infratores.

Por outro lado, parlamentares e especialistas contrários à proposta levantam preocupações significativas sobre os impactos de tal mudança. A deputada Talíria Petrone (Psol-RJ) argumenta que apenas uma pequena parcela dos atos cometidos por jovens são considerados graves, estimando que esses casos representam cerca de 8% do total. Além disso, ela expressa o receio de que a inserção de adolescentes no sistema prisional adulto, já superlotado e com graves problemas estruturais, possa expô-los ao aliciamento pelo crime organizado, agravando a situação em vez de resolvê-la.

Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) revelam que o país registra aproximadamente 12 mil adolescentes em unidades de internação ou em privação de liberdade. Embora este número seja significativo, ele representa menos de 1% dos 28 milhões de jovens na faixa etária entre 12 e 18 anos no Brasil, de acordo com informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esses dados são frequentemente utilizados para argumentar que a questão da criminalidade juvenil é um problema sério, mas que não se traduz em uma maioria esmagadora de jovens envolvidos em crimes graves, e que as soluções devem ser mais complexas do que a simples redução da idade penal.

Implicações da proposta e o sistema socioeducativo atual

A proposta de reduzir a maioridade penal levanta questões fundamentais sobre a finalidade da justiça juvenil. O sistema atual, embasado no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), busca um caráter mais pedagógico e ressocializador para os jovens em conflito com a lei. As medidas socioeducativas, que incluem desde a advertência e a obrigação de reparar o dano até a internação em instituições específicas, são projetadas para promover a educação, a saúde e a reintegração social do adolescente, considerando sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento.

A mudança proposta pela PEC 32/15 alteraria drasticamente essa abordagem, tratando jovens de 16 e 17 anos como adultos perante a lei penal. Isso significaria que eles seriam submetidos ao mesmo regime de prisão, sem as garantias e o tratamento diferenciado previstos pelo ECA. Críticos apontam que o sistema prisional adulto brasileiro não está preparado para lidar com as especificidades da adolescência, carecendo de infraestrutura e programas de ressocialização adequados para essa faixa etária. A preocupação é que, em vez de reabilitar, a medida poderia impulsionar a reincidência e aprofundar a marginalização desses jovens.

Os principais pontos de debate em torno da PEC 32/15 incluem:

Redução da Idade Penal: A alteração da maioridade penal de 18 para 16 anos para fins de responsabilização criminal.
Regime de Cumprimento de Pena: Jovens passariam a cumprir pena em presídios adultos, em contraste com as medidas socioeducativas do ECA.
Direitos Civis Concomitantes: A proposta inicial previa que jovens de 16 anos também teriam direitos civis ampliados (casar, contratar, votar), ponto que o relator sugeriu retirar para evitar “confusão jurídica”.
Eficácia da Medida: O questionamento se a redução da idade penal de fato combateria a criminalidade ou apenas agravaria o problema da superlotação carcerária e do aliciamento.

Próximos passos e o futuro da discussão

O adiamento da análise da PEC 32/15 na CCJ significa que o debate será retomado em uma sessão futura da comissão. A fase de admissibilidade é crucial, pois é nela que se verifica se a proposta está em conformidade com a Constituição Federal e se possui os requisitos formais para prosseguir. Mesmo com o parecer favorável do relator, a falta de consenso dentro da comissão indica que a tramitação da PEC será marcada por intensos debates e resistências.

A decisão final sobre a maioridade penal tem o potencial de impactar milhões de jovens e o futuro do sistema de justiça criminal no Brasil. A discussão envolve não apenas aspectos jurídicos, mas também sociais, éticos e humanitários, exigindo uma análise aprofundada das consequências a longo prazo. O caminho legislativo para a PEC ainda é longo e incerto, com a necessidade de aprovação em diversas instâncias da Câmara e, posteriormente, do Senado, caso seja considerada admissível.

Perguntas Frequentes

O que é a PEC 32/15 sobre maioridade penal?
A PEC 32/15 é uma Proposta de Emenda à Constituição que busca reduzir a maioridade penal no Brasil de 18 para 16 anos. Se aprovada, jovens com 16 anos passariam a responder criminalmente por seus atos como adultos, cumprindo pena em presídios.

Por que a análise da PEC foi adiada na Câmara?
A análise da PEC 32/15 foi adiada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados devido ao início da Ordem do Dia do Plenário. Quando o Plenário começa suas votações, as atividades nas comissões são geralmente interrompidas.

Quais são os principais argumentos contra a redução da maioridade penal?
Os principais argumentos contrários incluem a alegação de que apenas uma pequena parcela de jovens comete atos graves, o risco de aliciamento pelo crime organizado em presídios adultos e a crença de que o sistema socioeducativo do ECA é mais adequado para a ressocialização de adolescentes.


20 de maio de 2026|Fonte: Agência Brasil|Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados|Redação: Redação|Fonte da Informação ↗