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Engrenagem da Misoginia: Como o Ódio Online Recruta Jovens Vulneráveis

Por Bruno Sampaio | Atualizado em 22/03/2026 às 11:25
Gisele Alves Santana/Instagram
Leitura: 7 Min
Última Atualização: 22 de março de 2026, às 11:49

A engrenagem da misoginia, um complexo sistema que conecta frustrações individuais a projetos políticos globais, tem se manifestado de forma alarmante nas últimas semanas, revelando a profundidade do ódio contra mulheres no Brasil. Especialistas apontam que a série de casos de violência e discursos de ódio não deve ser vista como isolada.

Pelo contrário, esses episódios são parte de uma estrutura interligada, que se nutre tanto de experiências pessoais quanto de influências econômicas e ideológicas. A internet, em particular, emergiu como um catalisador poderoso para a disseminação e a organização dessa misoginia digital.

A Engrenagem da Misoginia: Casos Recentes e a Conexão Digital

Os noticiários e as redes sociais foram tomados por relatos de violência extrema contra mulheres. Um dos casos mais chocantes foi o feminicídio de uma policial militar em São Paulo.

A vítima, identificada como Gisele Alves Santana, foi encontrada morta com um tiro na cabeça em seu próprio apartamento. As investigações subsequentes apontaram para seu companheiro, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, como acusado do crime.

Termos como “macho alfa” e “mulher beta”, frequentemente utilizados por Geraldo Leite Rosa Neto em suas conversas, revelaram uma conexão direta com a linguagem circulante em grupos misóginos online. Essas expressões remetem à ideia de superioridade masculina e submissão feminina, espelhando ideologias propagadas em fóruns digitais.

Outro episódio de grande repercussão foi o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro. Além disso, vídeos no TikTok, onde homens simulavam ataques a mulheres que recusavam pedidos de casamento, evidenciaram a banalização e a normalização de atitudes violentas no ambiente virtual. Tais incidentes sublinham a urgência de compreender a complexidade da engrenagem da misoginia.

Raízes Históricas do Ódio: Do Patriarcado à Potencialização Online

Para entender a engrenagem da misoginia, é crucial analisar sua dimensão histórica. A socióloga e cientista política Bruna Camilo, que pesquisa gênero e misoginia, ressalta que, embora falemos do aumento da violência, ela é secular.

“Existe desde a construção da sociedade. Vemos estruturas patriarcais antigas de submissão das mulheres, e a internet potencializa essa violência”, afirma Bruna Camilo. As plataformas digitais, portanto, não criaram o ódio, mas ofereceram novos e eficientes meios para sua propagação.

O psicólogo social Benedito Medrado Dantas, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), complementa essa perspectiva. Ele observa que as expressões de ódio contra mulheres se intensificaram como uma reação direta às conquistas femininas ao longo das últimas décadas.

“Desde quando as mulheres começaram a ocupar outros lugares na sociedade que não fossem o do cuidado doméstico. Isso, invariavelmente, mexe nas estruturas da sociedade, na intimidade da vida doméstica e familiar”, explica Benedito Medrado Dantas. A misoginia, neste contexto, surge como uma resposta reacionária à desconstrução de papéis de gênero tradicionais.

A “Machosfera”: Como Grupos Online Recrutam Jovens Vulneráveis

Um dos pilares da engrenagem da misoginia é a ascensão da “machosfera”. Este termo abrange uma vasta rede de fóruns na internet, canais de vídeos, grupos de mensagens instantâneas e perfis em redes sociais.

Esses espaços são dedicados à defesa de um padrão conservador de masculinidade e, frequentemente, à oposição ferrenha aos direitos femininos. Pesquisadores têm notado um fenômeno preocupante: meninos cada vez mais jovens estão sendo atraídos para esses grupos.

A ativista feminista e professora Lola Aronovich, que sofre ataques virtuais há anos, relata suas descobertas ao investigar comunidades online, especialmente em plataformas de jogos. Ela ficou chocada ao perceber a faixa etária dos novos recrutas.

“Comecei a pesquisar o Discord [aplicativo] e vi que eram meninos cada vez mais novos, entre 12 e 14 anos. Fiquei muito chocada porque estava acostumada com adolescentes mais velhos, mas, principalmente, adultos”, conta Lola Aronovich. Este recrutamento precoce é um indicativo da eficiência das táticas de cooptação.

O Mecanismo do Recrutamento: Táticas e Pontes para o Discurso de Ódio

O processo de atração para a machosfera é gradual e insidioso, conforme descrito por especialistas. A sondagem começa com a observação da reação dos meninos a termos e ideias misóginos.

“Por exemplo, no meio da conversa, ao falar de mulheres, vão usar expressões como ‘vagabundas’ e ver como esse menino reage. Ao perceberem uma abertura, continuam a cooptação”, detalha Lola Aronovich. Essa abordagem sutil permite que o discurso de ódio se infiltre progressivamente.

A pesquisadora Julie Ricard, da Fundação Getulio Vargas (FGV), que estuda gênero, mapeou estratégias de recrutamento em outra rede popular, o Telegram. Seu estudo identificou 85 comunidades abertas, que ela considera apenas “a ponta do iceberg”.

Nem todos esses grupos se apresentam de forma explicitamente misógina. Muitos se disfarçam como espaços de autoajuda, desenvolvimento econômico ou vida fitness. “Nesses casos, os jovens acessam conteúdos que parecem neutros, mas encontram narrativas de ressentimento contra mulheres”, explica Julie Ricard.

As estratégias se multiplicam em diversos canais da internet. Estudos do NetLab, laboratório de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mapearam mais de 130 mil canais misóginos no YouTube. Eles mostram que temas aparentemente inocentes, como “sedução e relacionamentos”, “questões jurídicas” e “vencer a timidez”, servem como pontes para conteúdos de ódio.

* Pontos Cruciais da Engrenagem da Misoginia:
* Internet como Amplificador: Redes sociais e plataformas digitais potencializam a disseminação do ódio.
* Recrutamento Precoce: Meninos entre 12 e 14 anos são alvos da “machosfera”.
* Táticas Sutis: O ódio é introduzido gradualmente, testando reações a termos pejorativos.
* Plataformas de Disfarce: Grupos misóginos se camuflam em espaços de “autoajuda” ou “desenvolvimento pessoal”.
* Vulnerabilidade Emocional: Frustração e isolamento são explorados para cooptar indivíduos.

Frustração e Vulnerabilidade: A Matéria-Prima da Misoginia Online

A adesão a ideias que estimulam a opressão e a violência contra mulheres não tem uma resposta simples, pois envolve elementos da experiência individual. No entanto, existem padrões coletivos que favorecem a assimilação e são explorados pelos líderes da machosfera.

A engrenagem da misoginia depende de uma matéria-prima emocional específica: a frustração, o isolamento e a insegurança. Esses sentimentos são particularmente acentuados entre adolescentes e homens em situação de vulnerabilidade econômica, conforme detalha o psicólogo Benedito Medrado Dantas.

Para adolescentes, a vulnerabilidade é uma característica inerente à fase de construção de identidade e amadurecimento socioemocional. Essas inseguranças podem ser habilmente exploradas por grupos que promovem uma masculinidade violenta e a submissão feminina. Benedito Medrado Dantas alerta que jovens sem um espaço de diálogo em casa são os mais suscetíveis a essa cooptação.

Sem interações e conflitos saudáveis, a família perde a capacidade de criar filtros críticos sobre as informações e ideologias que os jovens encontram online. A falta de um suporte emocional e de orientação torna-os presas fáceis para narrativas que oferecem respostas simplistas e culpabilizam as mulheres por suas frustrações.

Consequências e Medidas: O Impacto da Misoginia e Respostas Sociais

A disseminação da engrenagem da misoginia tem impactos diretos na segurança e bem-estar das mulheres, como demonstram os casos de violência noticiados. A normalização de discursos de ódio online pode levar à legitimação de atos violentos no mundo real.

A questão da regulação das plataformas digitais surge como um ponto crucial. Notícias relacionadas indicam que, em um universo de 10 serviços digitais, 8 não checam a idade na criação de contas. Essa falha facilita o recrutamento precoce de meninos para a machosfera, expondo-os a conteúdos prejudiciais sem filtros adequados.

Em resposta à crescente violência, o Senado Federal aprovou o uso imediato de tornozeleira eletrônica para agressores de mulheres. Essa medida visa aumentar a proteção das vítimas e coibir novas agressões, mostrando uma resposta legislativa à urgência do problema.

Além disso, a proibição da rolagem infinita para o público infantil nas redes sociais, também aprovada, reflete uma preocupação com o tempo de tela e a exposição a conteúdos inadequados para menores. Contudo, o desafio de combater a engrenagem da misoginia exige uma abordagem multifacetada.

É fundamental que haja maior fiscalização das plataformas digitais e campanhas de conscientização sobre os perigos da misoginia online. A educação para o pensamento crítico e a promoção de valores de respeito e igualdade de gênero desde cedo são ferramentas essenciais para desmantelar essa estrutura de ódio.

Acompanhe mais notícias no Diário em Foco. Para mais informações sobre pesquisas acadêmicas na área, consulte o portal da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que abriga o NetLab, responsável por importantes mapeamentos sobre o tema.


22 de março de 2026|Fonte: Agência Brasil|Redação: Fabio Silva|Fonte da Informação ↗

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