Ato na Paulista denuncia 20 anos de impunidade nos Crimes de Maio
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Ato na Paulista denuncia 20 anos de impunidade nos Crimes de Maio

Redação 7 min de leitura Ultimas Noticias

No último sábado (16), um ato vibrante na Avenida Paulista, São Paulo, reuniu o Movimento Mães de Maio e o Cordão da Mentira. A manifestação denunciou os 20 anos dos Crimes de Maio, que resultaram em centenas de mortes sob suspeita de execução policial, e uniu vozes à causa palestina.

Em um cenário de efervescência social, a Avenida Paulista foi palco de uma significativa manifestação neste sábado (16). O evento marcou os 20 anos dos Crimes de Maio, uma série de ataques realizados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) em 2006. A repressão que se seguiu resultou em uma grande retaliação policial, culminando em mais de 500 mortes em todo o estado de São Paulo.

Grande parte dessas mortes ocorreu com fortes indícios de execução, praticadas por policiais. Este é o cerne da denúncia levantada pelo Movimento Mães de Maio e pelo Cordão da Mentira, que buscam responsabilização e memória para as vítimas. O ato, com muito batuque e música, transformou a Paulista em um espaço de luto e resistência.

A memória viva dos Crimes de Maio e a busca por justiça

Os Crimes de Maio representam um dos maiores massacres urbanos da história do Brasil, conforme destacado por especialistas. Em apenas duas semanas, mais de 500 jovens foram assassinados, um número que ainda hoje choca e exige respostas. O relatório “Análise dos Impactos dos Ataques do PCC em São Paulo em maio de 2006”, do Laboratório de Análises da Violência da Universidade Federal do Rio de Janeiro, trouxe dados alarmantes.

Segundo o documento, pelo menos 564 pessoas foram mortas durante as ondas de ataques. Dessas, 505 eram civis e 59 eram agentes públicos, com a maioria das vítimas civis sendo negros, jovens e pobres. O relatório aponta ainda a suspeita de participação de policiais em pelo menos 122 dessas execuções, corroborando as denúncias de violência de Estado.

A impunidade que cerca esses crimes há duas décadas é um dos principais motores do ato. A luta das Mães de Maio, que perderam seus filhos naqueles eventos, é um grito contínuo por justiça. Elas se tornaram um símbolo da resistência contra a violência policial e a omissão do Estado, exigindo que a memória dos mortos não seja esquecida.

Cordão da Mentira: denúncia histórica e a força das Mães de Maio

O Cordão da Mentira surgiu em 2012 como uma expressão cultural e política de “escracho” e denúncia. Sua criação visava questionar as violações de direitos promovidas pela ditadura civil-militar brasileira e as continuidades dessa violência no presente. Tradicionalmente, o cordão carnavalesco desfila em 1º de abril, o Dia da Mentira, data que marca o golpe de 64.

Este ano, porém, o Cordão da Mentira fez uma saída especial para lembrar os 20 anos dos Crimes de Maio, que permanecem sem responsabilizações efetivas. “Nosso cortejo é denúncia, é memória viva, é grito coletivo contra o esquecimento e a injustiça”, diz um comunicado do grupo. A iniciativa ressalta que “lembrar é enfrentar e ocupar as ruas e romper com a mentira”.

Desde sua fundação, o Movimento Mães de Maio sempre esteve presente, atuando como “madrinhas” do cordão. Thiago Mendonça, diretor de cinema e um dos coordenadores do Cordão da Mentira, enfatiza a importância dessa parceria. Ele descreve as Mães de Maio como um dos movimentos de direitos humanos mais cruciais do país, sempre à frente do cortejo.

Débora Maria da Silva, fundadora do Movimento Mães de Maio e mãe de Edson Rogério Silva, vítima fatal dos Crimes de Maio, esteve presente. Ela sublinhou a vitalidade do Cordão para a continuidade da luta. “O Cordão da Mentira é a alma do Movimento Mães de Maio. É através dele que a gente consegue ter combustível para seguir a luta o ano inteiro”, afirmou. Débora destacou que o Cordão “escracha” o que o movimento vem denunciando, servindo para a conscientização de que a ditadura não acabou.

A união de lutas: Crimes de Maio e a causa palestina na Paulista

Neste ano, o ato na Avenida Paulista ganhou uma dimensão ainda maior ao unificar a denúncia dos Crimes de Maio com o protesto contra a Catástrofe Palestina, conhecida como Nakba. A Nakba completou 78 anos e refere-se ao deslocamento forçado de palestinos durante a criação do Estado de Israel em 1948. Diversos palestinos se juntaram à manifestação, carregando bandeiras e faixas em solidariedade.

A decisão de unificar as causas foi estratégica, conforme explicou Thiago Mendonça. “Resolvemos unificar o ato pensando que a estrutura toda de repressão de Israel se reflete também na nessa máquina de moer gente que é a polícia brasileira”, disse Mendonça. Essa conexão busca evidenciar a universalidade da violência de Estado e da repressão contra populações marginalizadas.

Débora Maria da Silva reforçou essa perspectiva. “Também estamos aqui pela causa palestina porque a bala que cai lá também cai aqui. A bala que mata lá também mata aqui, na nossa periferia”, ressaltou. A fala da ativista estabelece um paralelo doloroso entre a realidade vivida nas periferias brasileiras e o conflito no Oriente Médio, sublinhando a solidariedade entre os povos oprimidos.

O legado de impunidade e a importância do ato coletivo

A persistência da impunidade nos Crimes de Maio é um tema recorrente e doloroso na história recente do Brasil. Apesar das denúncias e dos indícios de execuções, a responsabilização dos envolvidos ainda é uma dívida do Estado. A realização de atos como o da Avenida Paulista é fundamental para manter viva a memória e pressionar por justiça e transparência.

O coordenador Thiago Mendonça destacou o simbolismo do evento. “Esse é um dos maiores massacres urbanos da história do país. Além disso, esse ano temos mais de 60 mães de vítimas de violência do Brasil inteiro compondo o Cordão”, enfatizou. A presença de mães de todo o país reforça a dimensão nacional da luta contra a violência estatal e a busca por um futuro sem impunidade.

O ato teve início no Parque Trianon, em frente ao Museu de Arte de São Paulo (MASP), um local emblemático na capital paulista. A escolha do local e a forma de manifestação, através de um cortejo carnavalesco de denúncia, sublinham a importância da cultura e da arte como ferramentas de resistência e transformação social. A luta por um país mais justo, que discuta abertamente a violência e a impunidade, permanece central para esses movimentos.

A análise do Laboratório de Análises da Violência da Universidade Federal do Rio de Janeiro sobre os Crimes de Maio revelou dados cruciais:
– Pelo menos 564 pessoas foram mortas durante os ataques.
505 das vítimas eram civis, enquanto 59 eram agentes públicos.
– Grande parte dos civis mortos era composta por indivíduos negros, jovens e pobres.
– Há suspeita da participação de policiais em pelo menos 122 das execuções.

Perguntas Frequentes

O que foram os Crimes de Maio?
Os Crimes de Maio referem-se a uma série de ataques ocorridos em São Paulo em 2006, iniciados pelo PCC e seguidos por uma intensa retaliação policial. Esses eventos resultaram em mais de 500 mortes, grande parte delas civis, com fortes indícios de execução por parte de agentes do Estado.

Qual o papel do Cordão da Mentira e das Mães de Maio neste ato?
O Cordão da Mentira é um bloco carnavalesco de denúncia contra a violência de Estado, surgido em 2012. O Movimento Mães de Maio, fundado por mães de vítimas dos Crimes de Maio, são as “madrinhas” do Cordão, liderando a manifestação para cobrar justiça e manter viva a memória dos mortos.

Por que a causa palestina foi incorporada à manifestação?
A causa palestina, que lembra a Nakba (deslocamento forçado de palestinos), foi incorporada ao ato para traçar um paralelo entre as estruturas de repressão. Os organizadores veem uma conexão entre a violência de Estado em Israel e a atuação da polícia brasileira, unificando as lutas contra a opressão.


17 de maio de 2026|Fonte: Agência Brasil|Foto: Elaine Cruz/Agência Brasil|Redação: Redação|Fonte da Informação ↗

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