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Pacientes com Chagas têm risco de morte 2,4 vezes maior após cirurgia

Por Bruno Sampaio | Atualizado em 28/05/2026 às 13:36
Arquivo/Elza Fiúza/Agência Brasil
Leitura: 6 Min
Última Atualização: 28 de maio de 2026, às 13:36

Pacientes com doença de Chagas submetidos a cirurgias cardíacas enfrentam um risco de morte 2,4 vezes maior no pós-operatório, revela estudo da Faculdade de Medicina da USP. A pesquisa, conduzida no Hospital das Clínicas em São Paulo entre 2011 e 2020, destaca a urgência de cuidados e acompanhamento específicos para esse grupo.

Risco Elevado e a Complexidade da Cirurgia Cardíaca

Um estudo recente, liderado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP, trouxe à tona um dado alarmante para a saúde pública brasileira e latino-americana. Portadores da doença de Chagas que apresentam arritmias graves e necessitam de intervenções cirúrgicas cardíacas, como a ablação por cateter, enfrentam um risco de mortalidade significativamente maior no período pós-operatório. O risco, conforme a pesquisa, é aproximadamente 2,4 vezes superior em comparação com pacientes que sofrem de outras doenças cardíacas.

A taxa de mortalidade geral, após a cirurgia, para esse grupo específico de pacientes chagásicos é de 36%. Essa descoberta, publicada na revista *The Lancet Regional Health – Americas*, baseia-se na revisão de dados de atendimento a 288 pacientes, que totalizaram 378 procedimentos cirúrgicos realizados no Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), ao longo de quase uma década, entre 2011 e 2020.

O aumento do risco de morte não está diretamente ligado à incidência das arritmias em si, que não é maior do que em outras cardiopatias. Os pesquisadores apontam para fatores não cardíacos, primariamente relacionados à complexidade do procedimento cirúrgico. Rodrigo Melo Kulchetscki, um dos autores do estudo e doutorando em cardiologia pela Faculdade de Medicina da USP, enfatiza a necessidade de aprimorar o cuidado em saúde para essa população. Ele ressalta que a maioria desses pacientes é atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o que sublinha a importância de políticas públicas direcionadas.

Entendendo a Doença de Chagas e Seus Impactos

A doença de Chagas é uma condição crônica e negligenciada, causada pela infecção pelo protozoário *Trypanosoma cruzi*. A transmissão ocorre principalmente pelo contato com fluidos ou fezes do inseto conhecido como “barbeiro”, que é o reservatório natural do parasita e se alimenta do sangue de mamíferos, incluindo humanos. Uma vez no organismo, o protozoário pode sobrecarregar e causar lesões severas em órgãos internos, com destaque para o coração e os intestinos.

No coração, essas lesões podem levar a um funcionamento deficiente, resultando em arritmias graves que, em muitos casos, são fatais. A ablação por cateter é um procedimento cirúrgico que busca “queimar” essas lesões, restaurando o ritmo cardíaco normal. Embora seja uma técnica utilizada para diversas doenças cardíacas, o estudo revela que, em pacientes com doença de Chagas, a cirurgia apresenta desafios adicionais.

Em quase 80% dos casos de doença de Chagas, as operações exigem acesso à camada externa do coração, uma abordagem mais complexa e delicada. Em contraste, pacientes com outras cardiopatias, como a cardiopatia isquêmica, precisam desse tipo de intervenção em apenas cerca de 15% dos casos. Essa maior complexidade cirúrgica eleva consideravelmente os riscos de complicações durante o procedimento e de instabilidade clínica no pós-operatório, resultando na alta taxa de mortalidade observada.

Desafios no Diagnóstico e Tratamento da Doença

Os pesquisadores destacam a importância de um acompanhamento rigoroso da insuficiência cardíaca e de outras comorbidades após a alta hospitalar. Isso sugere a necessidade de desenvolver e implementar procedimentos específicos de acompanhamento para esse grupo de pacientes, considerando suas particularidades e a maior vulnerabilidade. A pesquisa aponta para a importância de estratégias que garantam a continuidade do tratamento e a vigilância constante, especialmente para quem reside em áreas remotas.

O estudo, embora robusto em suas principais conclusões, também reconhece suas limitações. Estas estão relacionadas à própria estrutura do hospital e aos desafios inerentes a pesquisas de longo prazo envolvendo populações vulneráveis.

As limitações identificadas incluem:
– Não foi possível realizar um número de acompanhamentos capaz de garantir fidelidade estatística em associações modestas, o que significa que algumas situações específicas para esses pacientes podem não ter sido “enxergadas”.
– Restrições orçamentárias impediram a realização de exames cruciais, como o mapeamento eletroanatômico, em todos os pacientes envolvidos.
– Não houve acompanhamento da rotina de medicamentos dos pacientes ao longo de toda a pesquisa, que durou cerca de oito anos para cada participante.
– O protocolo de acompanhamento pós-cirúrgico variou entre os casos, influenciado por fatores que vão além dos aspectos clínicos.
– “A retenção no período pós-alta foi alta em todos os grupos; no entanto, a duração do acompanhamento variou, o que reduz a precisão em momentos posteriores e pode subestimar a detecção de eventos tardios, principalmente entre pacientes de regiões remotas que enfrentam barreiras socioeconômicas e logísticas para o cuidado a longo prazo”, conforme ponderado pelo próprio estudo.

O Chamado por Melhorias no Acompanhamento e Cuidado

A doença de Chagas continua sendo um problema de saúde pública de proporções significativas. Estima-se que, atualmente, cerca de 7 milhões de pessoas estejam infectadas em todo o mundo, com outras 100 milhões residindo em áreas de risco. Anualmente, são registrados de 30 a 40 mil novos casos, mas menos de 10% dos infectados recebem um diagnóstico, geralmente aqueles que manifestam as formas mais agressivas da doença.

A enfermidade está presente em 21 países da América Latina, sua região de maior endemicidade, e também é encontrada de forma pontual na América do Norte, Europa, Japão e Austrália, muitas vezes devido à migração de pessoas infectadas. Essa ampla distribuição geográfica e a subnotificação dos casos reforçam a urgência de fortalecer os sistemas de saúde, especialmente em países onde a doença é endêmica e o acesso a cuidados especializados é limitado.

As descobertas da Faculdade de Medicina da USP servem como um alerta para a comunidade médica e os gestores de saúde. É imperativo que sejam desenvolvidas e implementadas diretrizes de tratamento e acompanhamento pós-operatório mais eficazes e adaptadas às necessidades dos pacientes com doença de Chagas. Isso inclui a capacitação de profissionais, a destinação de recursos para exames e medicamentos e a criação de redes de apoio que superem as barreiras socioeconômicas e logísticas que muitos pacientes enfrentam para acessar o cuidado contínuo.

Perguntas Frequentes

O que revela o estudo da USP sobre Chagas e cirurgias cardíacas?
O estudo da Faculdade de Medicina da USP revelou que pacientes com doença de Chagas submetidos a cirurgias cardíacas, como a ablação, possuem um risco de morte 2,4 vezes maior no pós-operatório. A pesquisa, realizada no Hospital das Clínicas de São Paulo, aponta para uma mortalidade geral de 36% nesse grupo específico.

Qual é a causa principal do aumento do risco de mortalidade para pacientes com Chagas?
O aumento do risco de mortalidade para pacientes com Chagas após cirurgia cardíaca é atribuído a fatores não cardíacos, relacionados à complexidade da intervenção. Em quase 80% dos casos, a cirurgia exige acesso à camada externa do coração, tornando o procedimento mais difícil e aumentando as chances de complicações e instabilidade clínica.

O que é a doença de Chagas e como ela afeta o coração?
A doença de Chagas é uma condição crônica causada pela infecção pelo protozoário *Trypanosoma cruzi*, transmitido principalmente pelo inseto barbeiro. A infecção sobrecarrega órgãos internos, como o coração, onde pode causar lesões que levam a arritmias graves e disfunção cardíaca, que podem ser fatais se não tratadas.


28 de maio de 2026|Fonte: Agência Brasil|Foto: Arquivo/Elza Fiúza/Agência Brasil|Redação: Bruno Sampaio|Fonte da Informação ↗

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