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UFRJ concede diploma a Stuart Angel e repara dano da ditadura

Por Bruno Sampaio | Atualizado em 08/07/2026 às 06:06
Leitura: 6 Min
Última Atualização: 08 de julho de 2026, às 06:06

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) realizou na terça-feira (7) uma cerimônia emocionante para conceder o diploma de bacharelado em ciências econômicas a Stuart Edgard Angel Jones. O reconhecimento póstumo ocorre 55 anos após a interrupção de sua trajetória acadêmica e de vida, brutalmente ceifada pela ditadura militar brasileira.

Stuart Angel, estudante da UFRJ e membro do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), foi sequestrado, preso, torturado, assassinado e dado como desaparecido político em 1971, aos 25 anos. A solenidade, no Salão Dourado da universidade, na Avenida Pasteur, Praia Vermelha, zona sul do Rio, representa um marco na luta pela memória e reparação histórica.

A Luta por Reconhecimento e Memória

A jornada para a diplomação póstuma foi longa e árdua, impulsionada pela incansável jornalista Hildegard Angel, irmã de Stuart. Ela contou com o apoio fundamental de Lucas Duda, economista formado pela UFRJ e ex-diretor do Centro Acadêmico Stuart Angel (CASA), do Instituto de Economia da instituição. O pedido formal foi entregue ao reitor Roberto Medronho, culminando na celebração atual.

Lucas Duda relembrou que o movimento teve início quando Hildegard e Samuel Reis, amigo de Stuart, procuraram o Centro Acadêmico para organizar uma homenagem pelos 54 anos da morte do ativista. A homenagem, ocorrida em 14 de maio do ano passado, reuniu amigos, alunos e familiares, e foi nesse contexto que Lucas prometeu dedicar-se à causa da diplomação. Ele expressou o desejo de estender o reconhecimento a outros companheiros de Stuart e a Sônia Moraes, esposa de Stuart, também vítima de tortura e morte durante a ditadura.

Para Lucas, a entrega do diploma é uma forma de reparação histórica do Estado. “É um tipo de reparação histórica do Estado que tirou a vida do Stuart e agora entrega uma profissão para ele, entre aspas”, afirmou à Agência Brasil. Ele ressaltou o compromisso de manter vivo o legado de Stuart para as futuras gerações, incentivando principalmente os calouros a compreenderem a importância de sua história no contexto nacional.

O Legado de Stuart Angel e a Reparação Histórica

A ditadura militar no Brasil, que perdurou de 1964 a 1985, foi um período sombrio marcado pela supressão das liberdades civis, perseguição política, censura e violações sistemáticas dos direitos humanos. Milhares de brasileiros foram presos, torturados, exilados ou mortos, muitos dos quais tiveram seus corpos desaparecidos, como foi o caso de Stuart Angel. A atuação de grupos como o MR-8, ao qual Stuart pertencia, representava a resistência armada e ideológica contra o regime autoritário.

A diplomação póstuma de Stuart Angel transcende o mero reconhecimento acadêmico, configurando-se como um ato simbólico de justiça e reabilitação. A reparação histórica é um conceito fundamental em processos de transição democrática. Ela busca reconhecer e corrigir os danos causados por regimes autoritários, não apenas através de compensações materiais, mas principalmente pela restauração da dignidade das vítimas e a reescrita da memória oficial. Esse processo inclui:

* Reconhecimento público dos crimes cometidos pelo Estado.
* Retificação de documentos oficiais, como atestados de óbito.
* Honrar a memória das vítimas e de suas lutas.
* Educar as novas gerações sobre os eventos históricos para prevenir a repetição de atrocidades.

A jornalista Hildegard Angel classificou a diplomação como uma “pitada de vitória” para todos que resistiram ao regime. “São várias pitadas de vitórias e essa é uma pitada bem substancial ao longo desse ativismo para manter viva a memória brasileira dos nossos heróis da resistência”, disse, enfatizando a importância de lembrar aqueles que deram suas vidas pela liberdade de expressão, pensamento e ação. Ela destacou a motivação profunda que levava jovens como Stuart a se arriscarem, sem se deixar anular pelo medo.

Ainda emocionada, Hildegard recordou as perdas familiares: além de Stuart, sua mãe, a estilista Zuzu Angel, foi assassinada após denunciar incansavelmente a morte e o desaparecimento do filho, e sua cunhada, Sônia, também foi vítima da ditadura. “Um país sem heróis não existe. Precisa da motivação dos seus heróis mortos, precisa ter essas referências para ser grande no sentido de nação”, afirmou, sublinhando o papel de Stuart como símbolo de um período de martírio e resistência. Para ela, a diplomação também honra a luta de Zuzu Angel, que por anos buscou o corpo do filho, ainda não encontrado.

A Importância da Memória para as Novas Gerações

A UFRJ, como uma das maiores universidades federais do país, sempre foi um palco de efervescência intelectual e política. Durante a ditadura militar, as universidades brasileiras foram centros cruciais de resistência e mobilização estudantil, sofrendo repressão e intervenções. A cerimônia de diplomação de Stuart Angel reforça o compromisso da instituição com a democracia e a liberdade de pensamento, valores que foram brutalmente atacados no passado.

O reitor da UFRJ, Roberto Medronho, destacou o caráter de reparação da diplomação. Ele ressaltou que o ato serve como um lembrete para os atuais 70 mil alunos de graduação e pós-graduação, que representam a futura elite intelectual do país. “É uma forma de lembrar que vivemos este tempo terrível, que não pode mais retornar”, explicou Medronho à Agência Brasil, enfatizando a responsabilidade dos jovens em não permitir o retorno a um período tão obscuro da sociedade.

A retificação do atestado de óbito de Stuart Angel em 2019 pelo Estado brasileiro, reconhecendo oficialmente a causa violenta de sua morte e o contexto de perseguição política, é um passo fundamental nesse processo de reparação. A entrega do diploma, portanto, não é apenas um reconhecimento acadêmico tardio, mas uma declaração pública de que a memória dos que lutaram pela democracia será preservada e que suas vidas e sacrifícios não foram em vão. Este ato simboliza a perene busca por justiça e a inadiável necessidade de manter viva a história, para que as gerações presentes e futuras compreendam o valor da liberdade e se engajem na defesa dos direitos humanos.

Perguntas Frequentes

Quem foi Stuart Angel?

Stuart Angel era um estudante de Economia da UFRJ e membro do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), que se opôs à ditadura militar brasileira. Ele foi sequestrado, torturado e morto em 1971, aos 25 anos, tornando-se um dos desaparecidos políticos do regime.

Por que ele recebeu um diploma póstumo 55 anos depois?

O diploma póstumo é um ato de reparação histórica por parte da UFRJ e do Estado brasileiro, reconhecendo a interrupção forçada de sua vida e trajetória acadêmica devido à perseguição política durante a ditadura militar. A iniciativa foi liderada por sua irmã, Hildegard Angel, e pelo ex-diretor do Centro Acadêmico Stuart Angel, Lucas Duda.

Qual o significado da diplomação para a UFRJ e a sociedade?

Para a UFRJ, a diplomação reafirma seu compromisso com a democracia, a memória e os direitos humanos, lembrando aos seus estudantes os perigos do autoritarismo. Para a sociedade, representa um marco na luta pela justiça e pela preservação da memória dos que resistiram à ditadura, servindo como alerta contra a repetição de tempos sombrios.

Quem era Zuzu Angel e qual sua relação com Stuart?

Zuzu Angel foi uma renomada estilista brasileira e mãe de Stuart Angel. Após o desaparecimento e morte do filho, ela se tornou uma ativista incansável, denunciando os crimes da ditadura militar em busca de informações sobre o paradeiro de Stuart. Zuzu também foi assassinada pelo regime em 1976.


8 de julho de 2026|Fonte: Agência Brasil|Foto: Agência Brasil|Redação: Bruno Sampaio|Fonte da Informação ↗

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