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Telas em excesso moldam o brincar infantil e afetam criatividade

Por Bruno Sampaio | Atualizado em 30/05/2026 às 10:51
Tomaz Silva/Agência Brasil
Leitura: 6 Min
Última Atualização: 30 de maio de 2026, às 10:51

A crescente imersão de crianças em telas digitais preocupa especialistas. O fenômeno, impulsionado pela rotina moderna e insegurança urbana, tem transformado o brincar e reduzido a criatividade, conforme relatos de pais e estudos da USP. Organizações de saúde alertam para impactos no desenvolvimento.

A transformação do brincar na infância moderna

A nostalgia da infância, com suas brincadeiras de rua e a liberdade de explorar, é um sentimento comum para muitos adultos. A auxiliar de limpeza Hozana da Silva recorda com clareza suas atividades favoritas, como pique-bandeira, pique-esconde, jogar bola e queimada. Ela observa, contudo, uma mudança drástica no comportamento infantil atual, onde “não vejo crianças brincando mais. Eu vejo as crianças muito sentadas com a mãe, com o celular na mão”.

Essa percepção reflete uma transformação profunda no ato de brincar ao longo do tempo. O Dia Mundial do Brincar, celebrado em 28 de maio, anualmente reforça a importância da conexão e do desenvolvimento integral na infância. Contudo, a data também evidencia a metamorfose nas formas de diversão, com a presença digital ganhando terreno no mundo real. As brincadeiras tradicionais, que estimulavam a interação física e a imaginação, passaram a coexistir, e muitas vezes competir, com as telas de celulares e tablets.

O ciclo vicioso da perda de criatividade pelas telas

A terapeuta ocupacional da Universidade de São Paulo (USP), Amanda Sposito, que é orientadora do estudo “Tecnologias digitais moldam o novo brincar infantil“, explica os fatores que levam as famílias a delegar o tempo das crianças às telas. Ela destaca a situação de insegurança e perigo nas ruas, que restringe as crianças a ambientes internos. Simultaneamente, as famílias estão menores, e pais e mães trabalham mais, resultando na ausência de pessoas que desenvolvam o brincar ativamente com as crianças, como ocorria em gerações passadas.

Nesse cenário, as telas tornam-se uma solução conveniente para ocupar o tempo de crianças ociosas e entediadas em casa. O estudo liderado por Amanda Sposito, que avaliou as atividades de 14 crianças, constatou que o uso excessivo desses dispositivos cria um ciclo vicioso. A perda progressiva da criatividade para brincar ativamente é um dos principais achados. As crianças, segundo a especialista, “têm muita dificuldade de pensar em brincadeiras possíveis de serem feitas quando elas estão fora da tela”. Isso as torna cada vez mais dependentes de um adulto — seja mãe, tia, professor ou monitor — para propor atividades. Quanto mais imersas em telas, menos criatividade desenvolvem, menos conseguem fazer na vida real, e isso as joga de volta para as telas para preencher o ócio e o tédio.

Recomendações de saúde e o papel da supervisão parental

Os impactos do uso excessivo de telas não se restringem à criatividade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) emitem recomendações claras sobre limites de tempo de exposição para crianças, variando conforme a faixa etária. Essas diretrizes são fundamentadas nos diversos efeitos negativos que o uso desmedido pode provocar tanto no comportamento quanto na saúde física e mental.

Entre os problemas identificados estão a interferência no desenvolvimento cognitivo, que pode afetar a capacidade de concentração e aprendizado. Há também questões emocionais, como aumento da ansiedade e problemas de socialização, além de riscos físicos, como doenças oculares, auditivas e ortopédicas. O cyberbullying, a exposição a conteúdos inadequados e o desenvolvimento de dependência dos equipamentos são outras preocupações sérias. As recomendações enfatizam que os aparelhos não devem ocupar o tempo de atividades básicas e essenciais, como a alimentação e o sono, para evitar que a criança desenvolva uma dependência prejudicial.

A lojista Edilaine Ferreira é um exemplo de mãe que adota práticas de controle parental para gerenciar o tempo de tela da filha. Ela limita o uso do celular a “entre uma hora e meia a duas horas que ela tem tempo de tela depois da escola”. Edilaine também acompanha de perto o conteúdo consumido pela filha, pois já enfrentou situações de aparição de “cenas sexuais” inesperadas. Essa vigilância é crucial para proteger os menores de conteúdos inapropriados e potencialmente prejudiciais.

Tecnologia como aliada: uso responsável e projetos sociais

Para muitos especialistas e pais, o objetivo não é impedir completamente a utilização da tecnologia, mas sim administrá-la de forma responsável e consciente. A tecnologia, quando bem utilizada, pode ser uma poderosa ferramenta de entretenimento e educação. Um exemplo inspirador dessa abordagem é o projeto social Gaming Park, fundado em 2022. A iniciativa atende crianças e adolescentes de oito a 17 anos nas comunidades da Rocinha, no Rio de Janeiro, e em Vitória, no Espírito Santo.

O Gaming Park combina ensino multidisciplinar com a narrativa e aspectos técnicos dos videogames, mostrando como o universo digital pode ser explorado de maneira construtiva. Além de ações solidárias nas comunidades, o projeto oferece orientações profissionais e planos de carreira no crescente mundo dos esportes eletrônicos. A coordenadora técnica do Gaming Park, Dara Coema, ressalta a importância de orientar pais e responsáveis sobre os cuidados com as mídias, mas também destaca o vasto potencial educacional da tecnologia. Ela observa que, no projeto, “os jogos são ponte para a sociabilidade entre jovens e também, para além dos jogos educativos, que já são ferramentas…” ou seja, são um meio para conexão e aprendizado, desmistificando a ideia de que o digital é apenas isolamento.

O uso responsável das telas, portanto, envolve um equilíbrio delicado entre a proteção contra os riscos e o aproveitamento dos benefícios. É fundamental que pais e educadores compreendam as recomendações e busquem maneiras criativas e mediadas de integrar a tecnologia na vida das crianças, garantindo que a criatividade, o desenvolvimento cognitivo e a saúde integral sejam sempre prioridades.

Perguntas Frequentes

O que causa a perda de criatividade em crianças devido às telas?
O uso excessivo de telas leva as crianças a uma dependência de estímulos externos, dificultando a capacidade de pensar em brincadeiras ativas e espontâneas. Isso cria um ciclo vicioso onde a falta de criatividade as impulsiona de volta aos dispositivos, reforçando a dependência.

Quais são os riscos do uso excessivo de telas para a saúde infantil?
O uso desmedido de telas pode impactar o desenvolvimento cognitivo, causar problemas emocionais, e gerar doenças físicas como problemas oculares, auditivos e ortopédicos. Há também riscos de cyberbullying e exposição a conteúdos inapropriados.

Como os pais podem promover o uso responsável da tecnologia?
Os pais podem limitar o tempo de tela conforme a faixa etária e monitorar o conteúdo acessado. Além disso, é crucial priorizar atividades básicas sem telas e incentivar o uso educativo da tecnologia, buscando um equilíbrio com brincadeiras e interações no mundo real.


30 de maio de 2026|Fonte: Agência Brasil|Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil|Redação: Bruno Sampaio|Fonte da Informação ↗

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Editor sênior especializado em apuração ágil e produção orgânica. Respeita os princípios de E-E-A-T do Google Search e constrói conexões semânticas precisas.

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