Teve início nesta sexta-feira (29), no Rio de Janeiro, a sétima edição do Festival 3i, um evento crucial que se estende até domingo (31). A iniciativa celebra os cinco anos da Associação de Jornalismo Digital (Ajor) e reúne especialistas brasileiros e estrangeiros para discutir o futuro da imprensa digital, o avanço da inteligência artificial (IA) e os desafios da cobertura das eleições de 2026.
IA e o Cenário Eleitoral de 2026
O festival ocorre em um momento considerado crucial para a democracia e para o ecossistema de mídia no Brasil, conforme destacado pela diretora executiva da Ajor, Maia Fortes. As eleições majoritárias de 2026 se aproximam em um cenário de transformação tecnológica acelerada. A inteligência artificial generativa, em particular, está reconfigurando a relação dos veículos de comunicação com o público.
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A preocupação com a IA nas eleições já ecoa em esferas governamentais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, enfatizou que o Brasil seria melhor sem mentiras e alertou para o uso da inteligência artificial. Em resposta a essa crescente preocupação, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) criou uma comissão dedicada a combater o uso ilegal da IA em processos eleitorais. Este é um reconhecimento da capacidade da tecnologia de amplificar a desinformação em velocidade e escala sem precedentes, ameaçando a integridade do debate público e a confiança nas instituições.
Além disso, a sustentabilidade financeira segue como um desafio estrutural para o setor. A formação de novos profissionais também é pautada, com encontros debatendo a importância do ensino de jornalismo diante do avanço da IA. A tecnologia exige novas habilidades e um olhar crítico sobre a produção e verificação de conteúdo.
Jornalismo de Impacto: Relevância e Função Social
A busca por relevância e a função social do jornalismo pautaram uma das principais discussões do dia no Festival 3i. Especialistas de diversas partes do mundo compartilharam suas experiências e metodologias para medir e gerar impacto. A queniana Daisy Okoti, editora de impacto do Nation Media Group, explicou como sua organização divide o retorno social em categorias bem definidas.
Para Okoti, o impacto é a evidência de que o jornalismo cumpriu sua promessa. O grupo mede isso em três níveis:
– Nível macro: Quando uma denúncia resulta em ações concretas, como a demissão de um funcionário corrupto, indicando uma mudança sistêmica ou judicial.
– Nível intermediário: Quando há uma resposta institucional a uma reportagem, como a revisão de políticas públicas ou a abertura de investigações oficiais.
– Nível micro: Quando um leitor se manifesta diretamente, afirmando que um artigo específico o ajudou ou transformou sua perspectiva pessoal.
A colombiana Elizabeth Otálvaro, codiretora executiva do Mutante, apresentou uma metodologia inovadora chamada “conversa social”. Esta abordagem se baseia em falar, compreender e agir para mudar a vida cotidiana das comunidades. Ela citou uma investigação sobre o vírus HPV, onde o monitoramento social revelou que as mulheres tinham medo e não falavam do diagnóstico devido à desinformação. O Mutante convidou um grupo para uma roda de conversa sobre o impacto emocional, o que se transformou em uma comunidade ativa no WhatsApp. Essa iniciativa gerou um dos conteúdos mais visitados do veículo, demonstrando seu poder transformador.
A paraguaia Jazmin Acuña, cofundadora do El Surti, compartilhou como repensar as métricas tradicionais permitiu que seu veículo passasse a se enxergar não apenas como um distribuidor de conteúdo, mas como uma entidade capaz de gerar mudanças reais. O El Surti decidiu romper o isolamento da internet para estreitar os laços de confiança com a audiência.
As estratégias de engajamento incluem:
– Colaboração com o público em investigações jornalísticas.
– Organização de fóruns e debates presenciais.
– Cruzamento de arte com jornalismo para criar narrativas mais envolventes.
– Abertura das portas da redação para a comunidade.
Acuña defende que o melhor tipo de impacto ocorre quando as pessoas se conectam e se organizam em relação aos assuntos cobertos, transformando a informação em ação coletiva.
Desafios de Sustentabilidade e o Consumo de Informação
A transformação nos hábitos de consumo de informação é outro ponto central dos debates no Festival 3i. Dados recentes apontam uma fragmentação e diversificação na forma como os brasileiros acessam notícias. Estatísticas mostram que 32% dos veículos online no Brasil são iniciativas individuais ou blogs, indicando uma pulverização da produção de conteúdo. Além disso, 33% dos brasileiros afirmam se informar por meio de influenciadores digitais, o que desafia os modelos tradicionais de jornalismo e a autoridade da imprensa.
A viabilidade econômica dos veículos independentes e tradicionais fecha a agenda de urgências do setor. O festival joga luz sobre a queda no mercado de assinaturas e conteúdos pagos no Brasil. O percentual de leitores pagantes recuou de 20% em 2023 para 17% em 2025, conforme as projeções. Essa diminuição na disposição do público em pagar por notícias representa um desafio significativo para a sustentabilidade financeira, especialmente em um cenário onde a receita publicitária também enfrenta pressões.
Especialistas como o italiano Mattia Peretti, fundador do News Alchemists e especialista em IA aplicada às redações, e a norte-americana Madison Karas, especialista em design de serviços para mídia, trouxeram perspectivas internacionais para esses desafios. A discussão engloba a necessidade de desenvolver novos modelos de negócio, otimizar a experiência do usuário e encontrar formas inovadoras de financiar o jornalismo de qualidade em meio a um ecossistema digital em constante evolução.
O Festival 3i serve como um importante fórum para que essas questões sejam não apenas debatidas, mas para que se busquem soluções colaborativas e estratégias que garantam o futuro do jornalismo em um mundo cada vez mais complexo e digitalizado.
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Perguntas Frequentes
O que é o Festival 3i e qual seu objetivo?
O Festival 3i é um evento anual que, em sua sétima edição, reúne especialistas brasileiros e estrangeiros no Rio de Janeiro. Seu objetivo é debater o futuro da imprensa digital, os avanços da inteligência artificial e os desafios da cobertura eleitoral de 2026, além de celebrar os cinco anos da Associação de Jornalismo Digital (Ajor).
Como a inteligência artificial afeta o jornalismo e as eleições de 2026?
A inteligência artificial generativa está reconfigurando a relação do jornalismo com o público e amplificando a desinformação em velocidade e escala sem precedentes. Isso representa um desafio significativo para as eleições de 2026, levando à criação de comissões para combater o uso ilegal da IA e à necessidade de adaptar o ensino de jornalismo.
Quais são os desafios de sustentabilidade e impacto para a mídia digital?
Os desafios incluem a viabilidade econômica de veículos independentes e tradicionais, a queda no mercado de assinaturas e conteúdos pagos (de 20% para 17% entre 2023 e 2025), e a mudança nos hábitos de consumo de informação, com a ascensão de blogs, iniciativas individuais e influenciadores digitais. O jornalismo de impacto busca relevância social e a função pública da profissão.
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