A Justiça Federal determinou, em caráter de urgência, que a União inicie as obras para a instalação do Centro de Interpretação do Cais do Valongo, dedicado à preservação da memória africana. O empreendimento será no Edifício Docas André Rebouças, na zona portuária do Rio de Janeiro.
Os responsáveis pelo prédio histórico agora têm um prazo de 30 dias para assinar o contrato e emitir o empenho orçamentário correspondente. Caso a determinação não seja cumprida, a União estará sujeita a uma multa diária de R$ 10 mil. Essa medida judicial busca garantir a concretização de um projeto fundamental para a história e cultura afro-brasileira.
A sentença foi proposta pelo Ministério Público Federal (MPF). O órgão acionou a Justiça após identificar um risco iminente de descumprimento de obrigações que surgiram de uma ação civil pública ajuizada em 2018. As ações civis públicas são instrumentos legais importantes para a defesa de direitos difusos e coletivos, como a proteção do patrimônio histórico e cultural.
O principal obstáculo para o avanço das intervenções no imóvel decorria de um contingenciamento de recursos financeiros. Esses valores pertencem ao Fundo Nacional de Defesa dos Direitos Difusos (FNDDD). O bloqueio foi imposto pela Secretaria Nacional do Consumidor do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O FNDDD é uma ferramenta crucial para financiar projetos que visam a reparação de danos ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico, entre outros interesses coletivos.
De acordo com o MPF, o bloqueio dessas verbas viola diretamente uma decisão judicial anterior. Esta decisão já havia condenado a União e a Fundação Cultural Palmares a reformarem o edifício histórico e, consequentemente, instalarem o Centro de Interpretação do Cais do Valongo. A paralisação no repasse financeiro ameaçava a validade de todo o processo de contratação pública.
A licitação para as obras já havia sido concluída e homologada no valor de R$ 77,4 milhões. Com o processo finalizado, restava apenas a assinatura do contrato e a emissão da ordem de serviço para que os trabalhos pudessem efetivamente começar. A interrupção financeira, portanto, colocava em risco toda a etapa administrativa já cumprida.
A urgência para o início dos trabalhos é ainda mais acentuada por um laudo recente da Defesa Civil do município do Rio de Janeiro. O documento alerta para graves problemas estruturais no edifício, que incluem fissuras, rachaduras e um afundamento de aproximadamente 30 centímetros no piso térreo. Essas condições comprometem a segurança e a integridade do imóvel, reforçando a necessidade de intervenção imediata.
O Cais do Valongo é reconhecido mundialmente pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Em 2017, o local foi elevado à categoria de Patrimônio Mundial, sendo considerado um sítio de memória fundamental da diáspora africana e do tráfico transatlântico de escravizados. Essa designação sublinha a importância histórica global do cais como testemunho de um dos maiores crimes contra a humanidade.
A decisão da Unesco impôs ao Brasil a obrigação de preservar e interpretar o local. Para o procurador da República Sérgio Suiama, que acompanha o caso desde o início, a instalação do centro é uma dívida do país com o organismo internacional, cujo prazo se esgotou em 2019. Ele expressou forte indignação com a situação.
“É inadmissível que, transcorridos sete anos do título de patrimônio da humanidade, nem um único parafuso tenha sido colocado no edifício, apesar de todas as promessas feitas pelos presidentes do Iphan e da Fundação Cultural Palmares nos últimos quatro anos”, afirmou o procurador, destacando a inação das autoridades competentes.
O Cais do Valongo foi o principal porto de entrada de africanos escravizados nas Américas, recebendo cerca de um milhão de pessoas entre 1811 e 1831. Sua redescoberta, durante as escavações para as obras de revitalização da Zona Portuária do Rio de Janeiro em 2011, revelou um tesouro arqueológico de inestimável valor histórico. A preservação deste local é crucial para a memória nacional e internacional, servindo como um ponto de reflexão sobre as atrocidades da escravidão e a resiliência do povo africano.
O futuro Centro de Interpretação terá um papel vital na educação e conscientização. Ele não apenas contará a história do Cais do Valongo, mas também promoverá a cultura afro-brasileira e combaterá o racismo estrutural, oferecendo um espaço de reflexão, aprendizado e celebração da herança africana no Brasil. A sua construção representa um passo importante para a reparação histórica e o reconhecimento da contribuição africana para a formação do país.
A determinação judicial agora coloca a União sob forte pressão para cumprir suas obrigações. A multa diária e o prazo de 30 dias são mecanismos para assegurar que o projeto, tão adiado, finalmente saia do papel. A sociedade civil, o MPF e a comunidade internacional esperam que a decisão seja acatada e que o Centro de Interpretação do Cais do Valongo se torne uma realidade, honrando a memória dos que ali chegaram.
—
Perguntas Frequentes
O que é o Cais do Valongo e por que ele é importante?
O Cais do Valongo foi o principal porto de entrada de africanos escravizados nas Américas, localizado na zona portuária do Rio de Janeiro. Sua importância reside em ser um testemunho arqueológico da diáspora africana e do tráfico transatlântico de escravizados, crucial para a memória e a história da humanidade. É reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco.
Qual o objetivo do Centro de Interpretação da Memória Africana?
O Centro de Interpretação do Cais do Valongo tem como objetivo principal preservar a memória africana e a história da escravidão no Brasil. Ele servirá como um espaço de educação, reflexão e valorização da cultura afro-brasileira, além de auxiliar no combate ao racismo e na promoção da justiça social.
Por que as obras estavam paralisadas até agora?
As obras estavam paralisadas devido a um contingenciamento de recursos financeiros do Fundo Nacional de Defesa dos Direitos Difusos (FNDDD), imposto pela Secretaria Nacional do Consumidor. Esse bloqueio violou uma decisão judicial anterior que já havia condenado a União e a Fundação Cultural Palmares a realizar a reforma e instalação do centro.
Quem é responsável pela execução das obras e pela sua fiscalização?
A União é a responsável pela execução das obras no Edifício Docas André Rebouças. O Ministério Público Federal (MPF) é o órgão que acionou a Justiça para garantir o cumprimento das obrigações, fiscalizando o processo e as decisões judiciais relacionadas ao projeto.
O que significa ser um Patrimônio Mundial da Unesco?
Ser um Patrimônio Mundial da Unesco significa que um local, seja ele natural ou cultural, possui um valor universal excepcional para a humanidade. Essa designação impõe aos países signatários a responsabilidade de preservar e proteger esses bens para as futuras gerações, além de promover sua interpretação e difusão.

