Último sobrevivente de povo indígena no MA morre aos 77

Aurá, único remanescente conhecido de um povo indígena que vivia isolado no Maranhão, morreu no sábado, 20 de setembro de 2025, aos 77 anos, em Zé Doca, vítima de insuficiência cardíaca e respiratória, segundo a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
O falecimento encerra definitivamente a linhagem de um grupo cuja língua derivava do tronco tupi-guarani e que manteve, por décadas, postura de isolamento voluntário. A Funai classificou o episódio como o ponto final de “uma trajetória de resistência”, ressaltando que não há registros de outros integrantes vivos que compartilhassem o idioma e os costumes de Aurá.
De acordo com a fundação, agentes do Distrito Sanitário Especial Indígena do Maranhão (Dsei-MA), braço do Ministério da Saúde, e da Frente de Proteção Etnoambiental Awá — unidade especializada em acompanhar indígenas isolados ou de recente contato — monitoravam o estado de saúde do ancião. A assistência acabou não impedindo a evolução das complicações cardíacas e respiratórias que levaram à morte.
O primeiro registro oficial de Aurá ocorreu em 1987, quando ele foi avistado ao lado do irmão Auré durante incursões de campo. Naquele momento, foi identificada a comunicação dos dois em um idioma não catalogado, mas reconhecido como aparentado ao tupi-guarani. À época, a dupla manteve breves contatos com povos Parakanã, Assurini, Tembé e Awá-Guajá, sem, contudo, aceitar integração.
Apesar das tentativas de mediação cultural promovidas por equipes da Funai, os irmãos rejeitaram qualquer forma de comunicação estruturada com comunidades vizinhas ou com servidores governamentais. A postura reforçou a classificação do grupo como de “isolamento voluntário”, categoria que demanda protocolos específicos de não interferência direta, exceto para garantir segurança e saúde emergencial.
A trajetória solitária de Aurá ganhou novos contornos em 2014, quando Auré morreu. Desde então, o sobrevivente passou a habitar sozinho a aldeia Cocal, dentro da Terra Indígena Alto Turiaçu. Localizada em território do município de Zé Doca, a área é reconhecida pela Funai como de ocupação tradicional e possui restrições de acesso impostas à população não indígena.
Equipes do Dsei-MA visitavam periodicamente a aldeia para procedimentos médicos básicos, enquanto a Frente de Proteção Etnoambiental Awá mantinha vigilância para evitar invasões, garimpo ou outras ameaças externas. Mesmo com a presença dos profissionais, o ancião preservou o distanciamento cultural, comunicando-se apenas por gestos e sinais que dispensavam o uso de línguas conhecidas.
A morte de Aurá mobilizou manifestação oficial da Funai, que lamentou a perda e reiterou “o compromisso com a proteção e valorização dos povos indígenas, especialmente aqueles em situação de isolamento voluntário ou de recente contato”. No texto, a instituição destacou que o caso evidencia a urgência da manutenção de políticas específicas para salvaguardar grupos que optam por não se relacionar com a sociedade envolvente.
Sem descendentes ou parentes identificados, o falecimento configura extinção confirmada do núcleo familiar e cultural que persistiu por, pelo menos, quatro décadas após o primeiro avistamento. Para a Funai, a ausência de outros membros impossibilita qualquer esforço de continuidade linguística, antropológica ou territorial associado diretamente ao povo de origem de Aurá.
O corpo do indígena foi sepultado na própria Terra Indígena Alto Turiaçu, conforme diretriz de preservação cultural e em acordo com o protocolo de respeito a povos isolados. A cerimônia contou com a presença restrita de servidores do Dsei-MA, da Frente de Proteção Awá e de representantes de comunidades vizinhas Tembé e Awá-Guajá, que homenagearam o ancião em silêncio, respeitando seu histórico de isolamento.
Em nota final, a Funai reafirmou que seguirá monitorando a Terra Indígena Alto Turiaçu para prevenir invasões de madeireiros ou outras atividades ilegais, reforçando a importância de manter intacto o território que serviu de refúgio a um dos últimos povos isolados do Maranhão.
Crédito Foto: Divulgação/Funai
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