Movimento sankofa: como Mestre Negoativo transforma palco em rota de resgate da afro-mineiridade

Ao acionar o grave do berimbau no palco lotado do Sesc Caborê, em Paraty, Mestre Negoativo fez mais do que encerrar a 27ª edição do Sonora Brasil; ele ligou, em tempo real, uma “internet ancestral” que conecta quilombos, garimpos e periferias mineiras a um circuito de 70 cidades do país. O ponto cego do noticiário – por que a afro-mineiridade quase nunca aparece quando se fala em cultura de Minas Gerais – tornou-se o centro do espetáculo e revela uma consequência pouco debatida: a retomada dessa memória pode alterar o mapa cultural brasileiro nos próximos anos.
Do silêncio às vozes: por que Minas Gerais negra ficou fora do holofote
Quando se fala em identidade mineira, o imaginário popular ainda recita sinos barrocos, ouro das igrejas e violão seresteiro. Falta a página que Negoativo abriu: a da população negra responsável pela construção econômica – via garimpo forçado – e pela sustentabilidade sociocultural do estado desde o período colonial. O músico denunciou esse apagamento em cada verso que entoou sobre violência histórica e resistência contemporânea. O “porquê oculto” do show, portanto, não é apenas celebrar: é colocar a ausência em debate e evidenciar o custo de ter uma memória mutilada.
Sankofa em ação: o retorno ao que nos pertence
Negoativo chama seu espetáculo de “movimento sankofa”, conceito africano de voltar ao passado para alimentar o presente. Ao percorrer o país com o Sonora Brasil, ele faz da turnê uma metodologia prática de educação patrimonial. Cada cidade visitada – mais de 300 apresentações – recebe um “download” de tradição oral que inclui moçambique, candombe, vissungo, congo e catopês. Assim, o repertório mineiro, antes circunscrito a terreiros e quilombos, ganha circulação nacional sem perder o lastro ancestral.
Berimbau como ponte: do toque na rua ao palco nacional
A trajetória narrada no palco começou num instante quase cinematográfico: uma criança escuta um berimbau na rua, ‘acessa’ a África e descobre a capoeira. Décadas depois, esse mesmo instrumento ocupa posição central no maior projeto itinerante de música de raiz do Sesc. O berimbau deixa de ser apenas símbolo da capoeira para funcionar como “roteador” cultural que transmite arquivos de história não oficial – mineração compulsória, formação de quilombos e revoltas silenciosas – para plateias que, muitas vezes, desconhecem esses capítulos.
Encontro de gerações: hip-hop e tradições se cruzam
Durante o circuito, Negoativo dividiu palco com Douglas Din, representante da linhagem hip-hop mineira. Essa interseção de rap e ritmos tradicionais cria uma narrativa diaspórica de ida e volta: das rimas que denunciam o racismo estrutural às batidas dos tambores que sustentaram revoltas de escravizados. Mesmo ausente na última apresentação por motivos de saúde, Din permaneceu como referência do encontro, evidenciando que a afro-mineiridade não está presa a um único formato sonoro – ela se reinventa sem perder a raiz.
Por dentro do Sonora Brasil: logística de 300 shows como política cultural informal
Promovido pelo Sesc, o Sonora Brasil monta duplas ou trios de artistas de diferentes regiões e os coloca na estrada por dois anos. No biênio 2024-2025, dez formações percorrem cerca de 70 cidades. Sob a ótica de gestão cultural, trata-se de uma cadeia de distribuição que rivaliza com os maiores circuitos privados, mas com curadoria voltada à diversidade regional. Esse fluxo permite que narrativas como a de Negoativo furem a bolha comercial, atinjam escolas, unidades de cultura e comunidades que não entram nos roteiros convencionais de festivais.
O impacto invisível: memória como vetor econômico
Ao reativar referências como vissungo e catopês, o show aciona também economias criativas locais. Quilombos que preservam esses cantos tendem a receber mais visitas de pesquisadores, editais e programas de turismo de base comunitária. Há, portanto, um potencial efeito dominó: mais atenção gera recursos, que geram infraestrutura, que por sua vez fortalecem a própria tradição. Ainda que esse ciclo dependa de políticas públicas, a exposição em rede nacional já funciona como gatilho inicial.
Por que agora? O timing de uma retomada
Negoativo diz preparar-se há anos para “compartilhar a afro-mineiridade”. O timing coincide com dois vetores: a discussão global sobre reparação histórica e a crescente demanda por representatividade nos palcos. A plateia lotada de Paraty mostra que existe público para narrativas que escapam do mainstream. Sob essa lente, o show não é ponto final de festival algum, mas marco de largada para uma reescrita identitária que Minas – e o Brasil – deviam ter iniciado há décadas.
O que acontece agora?
Com mais duas apresentações do Sonora Brasil agendadas no mesmo espaço — ritmos sul-matogrossenses no sábado e a música do Pará no domingo —, o festival reforça a ideia de que a diversidade regional não precisa competir, mas dialogar. Para a afro-mineiridade, a jornada de Negoativo antecipa próximos passos concretos: maior presença dos ritmos de quilombo em escolas de música, interesse de curadores de grandes festivais e, sobretudo, um público que começa a cobrar visibilidade histórica nos programas culturais. Se o berimbau serviu de fio condutor para ligar o passado ao presente, cabe agora aos gestores públicos e privados manter o sinal aberto.
Foto: Divulgação Sesc
Fonte das informações: Redação





