Moradores de Perus, em São Paulo, denunciam manipulação na audiência pública de 1º de abril sobre a instalação de um incinerador de lixo, acusando prefeitura e governo estadual de excluir a comunidade local. A população da região expressou forte oposição ao projeto e criticou a organização do evento, que teria impedido a participação efetiva dos moradores contrários à iniciativa.
A audiência, de caráter consultivo, foi convocada para debater os impactos da Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes. No entanto, lideranças comunitárias e ativistas alegam que o processo foi viciado por um recrutamento de pessoas de fora do território, com o objetivo de desmobilizar a comunidade e abafar as críticas. A situação gerou revolta e impediu que centenas de moradores pudessem manifestar suas preocupações diretamente aos gestores públicos.
Acusações de Manipulação e Exclusão
As denúncias apontam que ônibus transportaram pessoas não identificadas como moradores de Perus até o Centro Educacional Unificado (CEU) Perus, no bairro Vila Fanton, local da audiência. Esses passageiros, que formaram uma longa fila e lotaram o espaço antes dos residentes locais, teriam se inscrito rapidamente para discursar, com a intenção de dificultar a fala dos moradores que buscavam questionar e criticar o projeto.
Uma pessoa, cuja identidade foi preservada para evitar retaliações, confirmou à reportagem ter recebido dinheiro para comparecer à audiência, simulando ser moradora de Perus. Ela relatou buscar trabalhos em grupos que formam plateias para programas de TV e afirmou que um homem era responsável por orientá-los sobre as reações a serem manifestadas, como sinais de concordância ou reprovação, em diferentes momentos do debate.
A capacidade máxima do teatro do CEU foi rapidamente atingida, resultando na exclusão de cerca de 500 moradores que não conseguiram entrar e participar. Funcionários das gestões municipal e estadual instalaram televisores no salão de entrada, mas o espaço ainda não foi suficiente para acolher todos os presentes. Muitos, incluindo crianças, ficaram aguardando sob chuva, sem conseguir acompanhar adequadamente o que ocorria. Do lado externo, agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) foram vistos em formação, equipados com escudos e gás de pimenta, e teriam chegado a proibir a fala de vereadores. A assessoria da prefeitura, por sua vez, negou a utilização de equipamentos de menor potencial ofensivo.
Projeto URE Bandeirantes e Preocupações Ambientais
O projeto em questão, oficialmente denominado Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes, é de responsabilidade da empresa Logística Ambiental São Paulo S.A. (Loga), especializada em tratamento de resíduos de saúde. A companhia remete estudos e documentos à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) para aprovação. No entanto, o empreendimento tem gerado grande apreensão na comunidade.
Mario Bortoto, engenheiro químico e uma das lideranças do movimento de resistência, argumenta que o novo incinerador é considerado ultrapassado em diversas partes do mundo. Ele destaca que as preocupações não se limitam apenas às cinzas tóxicas liberadas pelo processo de incineração, mas também à intensa circulação de caminhões na região, que aumentaria o tráfego e a poluição. Bortoto questiona ainda a capacidade da prefeitura de fiscalizar se os parâmetros ambientais estariam sendo cumpridos.
A aprovação do projeto, caso ocorra, é vista por Bortoto como um agravante para os problemas de saúde de uma população já carente de atendimento adequado. Ele enfatiza que a consulta à população, assegurada por lei, não foi conduzida de forma democrática, o que justifica a organização de uma audiência paralela pelos próprios moradores. Além disso, os líderes indígenas Guarani Mbya da Terra Indígena do Jaraguá, que se relaciona historicamente com Perus, também planejam realizar sua própria consulta.
Impactos Sociais e Mobilização Comunitária
A falta de recursos humanos e de infraestrutura adequada na região de Perus é apontada como um fator que agrava a situação. Mario Bortoto associa a carência de assistência de saúde ao preconceito com a periferia, afirmando que profissionais médicos muitas vezes evitam trabalhar em locais mais distantes ou percebidos como menos seguros. “Temos um problema sério de vazio assistencial de saúde nesse território. Além disso, temos problemas de moradia. Muitos prédios sendo levantados sem a infraestrutura necessária para receber os novos moradores. Problemas na educação, falta de equipamentos de cultura. Os mesmos problemas que a periferia de São Paulo tem, a gente tem também”, resume Bortoto.
Thais Santos, química e consultora da WWF Brasil, também é uma figura central nas articulações contra o incinerador. Ela acompanhou, desde a adolescência, os levantes anteriores em Perus, que uniram diversas vertentes, inclusive religiosas, na defesa do território. Em entrevista, Santos destacou que a necessidade de lutar pela comunidade a motivou a seguir seu caminho profissional, qualificando-se com um doutorado em Bioenergia para servir a seus pares.
Ela lamentou a condução da audiência, que deveria ser um espaço democrático, mas se transformou em um palco de “manipulação de informação” e da própria audiência. Thais também observou que o horário do evento coincidiu com o expediente da maioria dos moradores, que pertencem à classe trabalhadora, dificultando ainda mais a participação. Como alternativa ao incinerador, moradores e ativistas ambientais propõem a criação de um Território de Interesse de Cultura e da Paisagem Jaraguá-Perus-Anhanguera para a área, visando valorizar a relação com a natureza e promover o desenvolvimento sustentável por meio de iniciativas como agências de turismo comunitário.
Perguntas Frequentes
O que é a URE Bandeirantes?
A URE Bandeirantes, ou Unidade de Recuperação de Energia Bandeirantes, é um projeto de incinerador de lixo proposto pela empresa Logística Ambiental São Paulo S.A. (Loga) para tratamento de resíduos.
Quem organizou a audiência pública?
A audiência pública foi convocada pela prefeitura de São Paulo e pelo governo estadual para debater os impactos da implantação do incinerador de lixo em Perus.
Quais as principais preocupações dos moradores com o incinerador?
Os moradores de Perus expressam preocupações com a liberação de cinzas tóxicas, o aumento do tráfego de caminhões na região, os impactos negativos na saúde pública e a suposta manipulação do processo democrático da audiência pública.