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Dengo e axé: palavras africanas moldam o português do Brasil

Por Bruno Sampaio | Atualizado em 25/05/2026 às 07:36
Marcello Casal jr/Agência Brasil
Leitura: 6 Min
Última Atualização: 25 de maio de 2026, às 07:36

Palavras de origem africana, dos troncos banto e iorubá, moldam o português e o dia a dia dos brasileiros. Essa herança linguística, presente em comidas e sentimentos, é celebrada no Dia da África, em 25 de maio.

A Herança Linguística Africana no Cotidiano Brasileiro

A presença da África no Brasil vai muito além da história e se manifesta de forma viva e constante no vocabulário que usamos diariamente. Inúmeras palavras que permeiam nossa comunicação são diretamente derivadas de línguas africanas, especialmente as dos troncos linguísticos banto e iorubá. Elas nomeiam desde pratos típicos até sentimentos complexos, passando por instrumentos musicais e partes do corpo, revelando uma fusão cultural profunda.

O Dia da África, comemorado em 25 de maio, é uma data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU). A celebração faz referência à criação da Organização da Unidade Africana (OUA), em 1963, e serve para lembrar a importância do continente e sua vasta contribuição para a cultura global. No contexto brasileiro, essa data ressalta a ligação indissociável entre o país e o continente africano, especialmente evidente na nossa língua e em diversas manifestações culturais.

O babalaô Ivanir dos Santos, pedagogo, pesquisador brasileiro e doutor em História Comparada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca a riqueza dessas palavras e seus significados. Seu trabalho é amplamente reconhecido pela defesa dos direitos humanos e pelo combate ao racismo e à intolerância religiosa. As palavras que ele aponta ilustram a diversidade dessa influência e sua inserção natural no português brasileiro.

Entre as palavras de origem africana que usamos cotidianamente, podemos citar:
Aluá: Bebida fermentada.
Axé: Energia, força vital ou saudação.
Bagunça: Desordem, confusão.
Berimbau: Instrumento musical de corda.
Bunda: Nádegas.
Caçula: Filho mais novo.
Cafuné: Carinho na cabeça, acariciar.
Dengo: Manha, carência.
Fubá: Farinha de milho.
Moleque: Menino.
Quitanda: Pequeno comércio de hortaliças ou mercado.
Samba: Gênero musical e dança.
Xodó: Pessoa muito querida, apego.

De Quimbundo a Iorubá: A Jornada das Palavras

O filólogo e linguista brasileiro Ricardo Stavola Cavaliere, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), ressaltou em entrevista à Agência Brasil que o português do Brasil possui um vasto vocabulário de origem africana. Essa influência abrange diversas áreas da atividade social, desde a culinária até a fauna e a música. Na gastronomia, termos como vatapá, dendê, moqueca e farofa são exemplos claros. No universo musical, palavras como berimbau e cuíca se destacam. Já na fauna, encontramos chimpanzé e camundongo, demonstrando a amplitude dessa incorporação linguística.

Cavaliere, eleito para a cadeira número 8 da ABL em abril de 2023, explica que, na maioria das vezes, essas palavras mantêm o significado original da língua de onde vieram. Contudo, há casos de alteração semântica, como o da palavra samba. Originalmente, designava um tipo de dança e, no português, passou a nomear um gênero musical completo, ilustrando a dinâmica da evolução linguística. Todas essas palavras, ao ingressar no léxico português, passaram por um ajuste fonético para se adaptar aos sons e ritmos da nossa língua, um processo natural de assimilação.

No contexto das relações familiares e afetivas, a influência africana é igualmente marcante. O professor Cavaliere cita dengo para expressar carinho e afeto, e caçula para o filho mais novo. A inclusão desses termos no âmbito doméstico é um reflexo da intensa presença de mulheres escravizadas nas atividades do lar, especialmente a partir do Primeiro Império. A palavra cafuné, por exemplo, vinda do quimbundo, que significa coçar ou acariciar a cabeça, ilustra perfeitamente essa relação íntima e o legado dessas mulheres nas famílias brasileiras do século 19, que transmitiram seus costumes e vocabulário.

Inicialmente, as línguas que mais contribuíram para o vocabulário brasileiro foram o quimbundo, o umbundo e, em menor grau, o quicongo. Essas línguas chegaram ao Brasil com o intenso fluxo do tráfico escravagista a partir da segunda metade do século 16, trazidas por milhões de africanos escravizados. A expressividade do quimbundo era tanta que motivou o padre jesuíta Pedro Dias a escrever uma gramática dessa língua, publicada em 1697, com o objetivo de facilitar o aprendizado para os padres em missão no Brasil e a comunicação com a população africana e seus descendentes. A partir do século 18, com a intensificação do tráfico de pessoas escravizadas de etnia iorubá ou nagô, houve um aumento significativo de palavras desse tronco linguístico. Tais termos são particularmente frequentes na chamada “língua de santo”, presente nos cultos do candomblé, com exemplos como orixá, babalorixá e Ogum, que se tornaram parte do léxico religioso e cultural do país.

Reconhecimento e Valorização da Cultura Africana

A contribuição africana para o português do Brasil também é um foco de estudo para pesquisadores contemporâneos. O angolano Geovany Fernandes-Cattuco, conhecido como Gio Cattuco nas redes sociais, é um criador de conteúdo digital que se destaca pela valorização da cultura angolana e africana. Parte central de seu trabalho é a pesquisa sobre a origem de palavras angolanas adotadas no vocabulário brasileiro, conectando as duas nações através da língua.

Gio Cattuco exemplifica essa conexão com a palavra dengo, que em português significa doçura, carinho ou atenção. Ela tem sua origem no termo *ndengu*, da língua kikongo (ou quicongo). Da mesma língua, vem a palavra muvuca, derivada de *mvuca*, que significa aglomeração, um termo amplamente usado para descrever multidões ou confusão. A língua kimbundu (ou quimbundu) também gerou diversas palavras incorporadas ao vocabulário brasileiro, demonstrando a riqueza de suas contribuições. Alguns exemplos são: cambada (de *dikamba*, amigo ou companheiro), capanga (de *kubanga*, lutar), babá (do verbo *kubaba*, acalentar ou embalar uma criança), beleléu (de *mbalale*, sepultura) e caçamba (de *kisambu*, cesto grande).

A África Viva na Fala e na Cultura do Brasil

O professor de ciências humanas e mestre em ciências da educação Augusto Ribeiro reforça que a herança africana não está restrita ao vocabulário, mas permeia toda a cultura brasileira e o modo de falar do nosso povo. Ele enfatiza que os brasileiros, muitas vezes sem perceber, “falam africano todos os dias”, evidenciando a naturalidade com que essa influência foi incorporada. Para Ribeiro, cada uma dessas palavras é mais do que um termo; é um “pedacinho da história”, uma forma de resistência que conseguiu atravessar o tempo e se manter viva em nossa fala cotidiana. A palavra banguela, por exemplo, que significa sem dente, também tem sua origem na língua kimbundu, demonstrando a diversidade de campos semânticos atingidos. Essa profunda conexão linguística é uma prova irrefutável da riqueza e da complexidade da formação cultural do Brasil, um país que respira a África em cada palavra pronunciada. A valorização e o reconhecimento dessa herança são essenciais para compreendermos nossa própria identidade e a riqueza de nossa diversidade cultural.

**Perguntas Frequentes


25 de maio de 2026|Fonte: Agência Brasil|Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil|Redação: Bruno Sampaio|Fonte da Informação ↗

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Editor sênior especializado em apuração ágil e produção orgânica. Respeita os princípios de E-E-A-T do Google Search e constrói conexões semânticas precisas.

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