O Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, recebe investimentos significativos em saneamento básico, mas seus 200 mil habitantes ainda enfrentam alagamentos constantes e se preocupam com faturas de água e esgoto que chegam com valores inesperados.
A realidade de alagamentos é um drama persistente para as 16 favelas que compõem a Maré. Moradores como Cláudia da Costa Tavares da Silva, de 63 anos, relatam a marca de mais de um metro de água dentro de suas casas em dias de chuva intensa. A rotina se transforma em uma corrida para proteger bens e familiares, enfrentando a água suja que retorna da rede de esgoto. Este cenário é resultado da descarga irregular de efluentes sanitários na rede pluvial, somado ao acúmulo de lixo que obstrui bueiros e canais, além de um sistema de drenagem inadequado.
O Desafio Crônico do Saneamento
Por décadas, o Complexo da Maré tem sofrido com a infraestrutura deficiente de saneamento. A prática de conectar o esgoto doméstico às galerias de águas pluviais, uma solução hidráulica mais simples, sobrecarrega os canais que deveriam apenas escoar a água da chuva. Essa interconexão inadequada não só causa inundações, mas também deságua milhares de litros de esgoto bruto diretamente nos canais que fluem para a Baía de Guanabara, contribuindo para a poluição crônica da região, um problema ambiental que afeta a cidade há anos.
A legislação brasileira, como a Lei Nacional de Saneamento Básico de 2007, e o mais recente Marco Legal de 2020, estabelecem a necessidade de tratamento adequado do esgoto para a saúde pública e ambiental. No entanto, a implementação plena dessas diretrizes em áreas de ocupação informal, como a Maré, apresenta complexidades significativas. A falta de planejamento urbano histórico e a dificuldade de acesso para obras de grande porte são fatores que perpetuaram a situação.
Investimento e Obras de Melhoria
Em resposta a esse quadro, a concessionária Águas do Rio anunciou, em março, um investimento de R$ 120 milhões destinado a ampliar e modernizar a rede de esgoto na Maré. O plano prevê a instalação de 18 quilômetros de novas tubulações, com o objetivo de conectar mais residências à rede de saneamento e eliminar os esgotos a céu aberto, especialmente em becos e vielas. A iniciativa busca substituir as ligações irregulares que despejam esgoto nas galerias pluviais.
Um dos pontos centrais do projeto é a construção de um duto de 1,5 metro de diâmetro sob a principal via da comunidade. Este duto será responsável por coletar todo o esgoto e transportá-lo até a Estação de Tratamento Alegria, um passo fundamental para o saneamento efetivo da região. A previsão é que as obras tenham duração de dois anos e contem com financiamento público do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), além de recursos de organizações multilaterais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a agência francesa Proparco.
O Impacto das Novas Contas para Moradores
Apesar das promessas de melhoria, a transição para o novo modelo de saneamento trouxe um novo desafio para os moradores: o custo do serviço. Por muitos anos, a Companhia Estadual de Águas e Esgoto (Cedae) prestou serviços de água e esgoto na Maré sob uma política pública de acesso para a população de baixa renda. Contudo, a privatização da Cedae em 2021 alterou esse cenário, e a Águas do Rio, como nova concessionária, passou a cobrar pelo serviço.
A instalação de hidrômetros já começou, e as primeiras faturas, referentes a março, assustaram a comunidade. Vilmar Gomes Crisóstomo, conhecido como Maga, presidente da associação de moradores da comunidade Rubens Vaz, expressou preocupação com os valores. Ele relata que contas que antes custariam cerca de R$ 5, agora chegam a R$ 260, R$ 280, e em alguns casos, até R$ 1.153 para quatro moradores, gerando apreensão sobre a capacidade de pagamento e o risco de inadimplência. A inesperada elevação das faturas representa uma nova carga financeira para famílias que já enfrentam desafios socioeconômicos.
A solução definitiva para o Complexo da Maré, conforme avalia a organização social Redes da Maré, exige uma abordagem integrada. Isso significa que, além dos investimentos da concessionária no esgoto, são cruciais ações coordenadas da prefeitura para aprimorar a drenagem e a gestão de resíduos sólidos. A remoção de lixo das ruas e a manutenção dos bueiros são essenciais para evitar novas enchentes, mesmo com a melhoria da rede de esgoto. A participação e conscientização da comunidade também são vitais para a sustentabilidade das intervenções.
Perguntas Frequentes
Qual o principal problema de saneamento na Maré?
O principal problema é a conexão irregular do esgoto doméstico às galerias pluviais, que causa alagamentos e despejo de efluentes não tratados na Baía de Guanabara, agravado pelo acúmulo de lixo e drenagem defasada.
Qual o valor do investimento da Águas do Rio no Complexo da Maré?
A concessionária Águas do Rio anunciou um investimento de R$ 120 milhões para ampliar e modernizar a rede de esgoto no Complexo da Maré.
Por que os moradores da Maré estão reclamando das contas de água e esgoto?
Após a privatização da Cedae em 2021, a nova concessionária Águas do Rio começou a emitir faturas com valores significativamente mais altos do que os que os moradores estavam acostumados, gerando preocupação com a capacidade de pagamento.