Itamaraty contesta declarações de ministro israelense e cobra ação para evitar genocídio em Gaza

O Ministério das Relações Exteriores reagiu nesta terça-feira (26) às críticas do ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, classificando as declarações como “ofensas, inverdades e grosserias inaceitáveis” e cobrando que o próprio Katz assegure que Tel Aviv impeça a prática de genocídio contra os palestinos.
Em publicação nas redes sociais, Katz acusou Lula de antissemitismo e de apoiar o Hamas. A chancelaria brasileira respondeu que, na condição de ministro da Defesa, cabe ao israelense “assegurar que seu país não apenas previna, mas também impeça” crimes contra a população da Faixa de Gaza, onde as operações militares de Israel já resultaram, segundo números citados pelo Itamaraty, em 63 mil mortos, um terço deles mulheres e crianças.
O governo brasileiro acrescentou que Israel enfrenta investigação na Corte Internacional de Justiça por possível violação da Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio. O Itamaraty também condenou o bombardeio ao hospital Nasser, em Khan Younis, sul de Gaza, que na segunda-feira (25) deixou ao menos 20 mortos, incluindo jornalistas e trabalhadores humanitários, além de dezenas de feridos.
“Espera-se do sr. Katz, em vez de habituais mentiras e agressões, que assuma responsabilidade e apure a verdade sobre o ataque de ontem contra o hospital Nasser”, afirmou a nota da diplomacia brasileira. O texto ressalta que Israel mantém “política de fome como arma de guerra” sobre o enclave palestino.
A escalada verbal ocorre num momento de deterioração das relações bilaterais. Em fevereiro de 2024, Israel declarou Lula “persona non grata” após o presidente qualificar as mortes de civis em Gaza como genocídio. O Brasil retirou o embaixador Frederico Meyer de Tel Aviv e não designou substituto, sinalizando descontentamento persistente.
Segundo o jornal The Times of Israel, o governo israelense decidiu “rebaixar” os laços com Brasília depois de o Itamaraty não conceder agrément ao diplomata Gali Dagan, indicado em janeiro para chefiar a missão em Brasília. A ausência de resposta foi interpretada como recusa e a nomeação teria sido retirada por Tel Aviv.
No Planalto, Lula voltou a condenar “a continuidade do genocídio” na Faixa de Gaza durante reunião ministerial nesta terça-feira. O presidente afirmou que crianças palestinas “são assassinadas como se fossem do Hamas” e defendeu outra vez a reforma do Conselho de Segurança da ONU, com inclusão de países do Sul Global como membros permanentes.
As críticas de Katz também miram a saída do Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA). Na mensagem que gerou a reação do Itamaraty, o ministro israelense disse que Lula “revelou sua verdadeira face” ao retirar o país da entidade, colocando-o “ao lado de regimes como o Irã, que nega o Holocausto”. O Brasil era membro observador da IHRA desde 2021 e oficializou sua retirada em julho de 2025, após apoiar a ação contra Israel na Corte Internacional de Justiça.
A guerra Israel-Hamas, detonada pelo ataque surpresa do grupo palestino em 7 de outubro de 2023 — que deixou 1,2 mil mortos e centenas de reféns em território israelense —, prossegue com bombardeios e cerco total a Gaza. A disputa territorial, travada por povos que incluem hebreus e filisteus na antiguidade, sustenta um conflito que, segundo a diplomacia brasileira, exige imediata proteção à população civil.
No comunicado desta terça, o MRE sublinha que as palavras de Katz “não alterarão a postura do Brasil em defesa do direito internacional humanitário” e reitera apoio às iniciativas que busquem cessar-fogo, acesso irrestrito à ajuda e investigação independente de violações. A nota conclui que “o uso de retórica ofensiva não contribui para a segurança de israelenses nem de palestinos”.
A resposta do Itamaraty reforça a posição brasileira de cobrar responsabilização por ataques contra instalações médicas e populações vulneráveis, ponto central das recentes manifestações do governo. Ao mesmo tempo, a permanência do posto de embaixador vago em Tel Aviv e a incerteza sobre o agrément a Dagan evidenciam um impasse diplomático que pode se prolongar enquanto não houver recuo nas hostilidades em Gaza.
Crédito Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Fonte das informações: EBC – Agência Brasil





