Indústria do Brasil articula nos EUA para reverter tarifaço

Uma missão liderada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mobilizou dirigentes de oito federações estaduais e cerca de 130 empresários em Washington para construir, com parceiros dos Estados Unidos, uma frente de pressão capaz de forçar a Casa Branca a negociar a tarifa de 50% aplicada às importações brasileiras. O grupo, que permanece na capital norte-americana até esta quinta-feira (4), busca convencer líderes empresariais locais de que o aumento das taxas prejudica cadeias produtivas dos dois lados e, portanto, precisa ser revisto com urgência.

Integram a comitiva presidentes das federações industriais de Minas Gerais, Paraná, Paraíba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, Goiás e São Paulo. Segundo o presidente da FIEMG, Flávio Roscoe, a articulação com entidades como a U.S. Chamber of Commerce pretende “colocar ambos os governos à mesa” para encontrar uma saída consensual. Nas reuniões, brasileiros e norte-americanos concordaram em elaborar um posicionamento conjunto, passo considerado essencial para ampliar a pressão política sobre o governo do ex-presidente Donald Trump.

O movimento empresarial ocorre em meio a uma escalada de tensões diplomáticas. Washington abriu investigação comercial contra o Brasil e classificou o país como “ameaça incomum e extraordinária” à sua segurança nacional por meio de uma Ordem Executiva. O ato, aplicado a nações consideradas hostis, foi acompanhado da imposição de tarifas que alcançam 50%, uma das alíquotas mais severas da atual guerra comercial travada pelos Estados Unidos.

Além de comprometer exportadores brasileiros de produtos manufaturados e agroindustriais, o tarifaço afeta fornecedores norte-americanos que dependem desses insumos. É nesse ponto que a CNI aposta para conquistar apoio interno nos EUA. Para o presidente da FIEG, André Rocha, o objetivo imediato é “reduzir as taxas ou ampliar a lista de exceções”. A estratégia envolve demonstrar impactos sobre empregos em estados americanos que mantêm fluxos comerciais intensos com o Brasil, especialmente nos setores de alimentos processados, aço e autopeças.

Ricardo Alban, presidente da CNI, defende que as negociações sejam guiadas por critérios “técnicos, comerciais e econômicos”, afastando interferências de ordem geopolítica. Ele ressalta que a missão pretende manter aberta uma porta de diálogo permanente, permitindo que argumentos de competitividade e integração produtiva se sobreponham a disputas políticas que se intensificaram após a investigação, nos EUA, sobre a tentativa de golpe de Estado atribuída ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a aliados, entre eles o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro.

A atuação do parlamentar, hoje residente em solo norte-americano, está sob análise da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República, que apuram possível lobby em favor das sanções impostas a autoridades brasileiras. Para a CNI, porém, a agenda empresarial deve ser dissociada desse contencioso político. Nas conversas com empresários locais, os brasileiros enfatizam que barreiras tarifárias elevam custos, travam investimentos e ameaçam a recuperação econômica pós-pandemia em ambos os países.

Paralelamente à ofensiva diplomática em Washington, o governo brasileiro lançou o Plano Brasil Soberano, conjunto de medidas voltadas a exportadores afetados. Entre as iniciativas, estão linhas de crédito que somam R$ 30 bilhões via Fundo Garantidor de Exportações, além de R$ 4,5 bilhões em aportes a fundos garantidores e R$ 5 bilhões em financiamentos pelo Novo Reintegra. O acesso aos recursos exige manutenção de empregos e prioriza empresas cuja receita dependa de vendas aos Estados Unidos.

A tentativa de reversão do tarifaço é tratada no setor privado como urgente para conter perdas estimadas em bilhões de dólares e preservar cadeias binacionais. Caso obtenha respaldo do empresariado americano, a CNI pretende submeter às autoridades dos dois países um cronograma de trabalho que inclua, entre outros pontos, a revisão da Ordem Executiva, a redução gradual das tarifas e a ampliação de quotas de isenção para itens como bens de capital, insumos químicos e alimentos industrializados.

Enquanto negociações avançam, entidades industriais brasileiras intensificam a coleta de dados sobre cancelamentos de pedidos, demissões em plantas exportadoras e redirecionamento de cargas para mercados alternativos. O levantamento será utilizado como prova de que o tarifaço provoca danos econômicos concretos. Do lado norte-americano, associações setoriais já mapeiam aumentos de custos de produção derivados da sobretaxa, reforçando o argumento de que a medida é contraproducente.

Concluída a etapa de encontros presenciais, os dirigentes retornarão ao Brasil para alinhavar, com o Ministério das Relações Exteriores e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a estratégia a ser apresentada em eventual mesa de negociação bilateral. A avaliação na CNI é de que o alinhamento entre empresariado e governos terá peso decisivo para desmontar o impasse tarifário que se instalou desde as sanções anunciadas pela administração Trump.

Crédito Foto: CNI/Divulgação

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