Grupo dos Dez leva Madame Satã a BH e celebra 15 anos de teatro negro
Companhia mineira celebra década e meia de palco com espetáculos que reafirmam a potência do teatro negro como pilar da cultura nacional.
O Grupo dos Dez celebra seus 15 anos de teatro negro com o retorno do aclamado espetáculo Madame Satã em Belo Horizonte, neste domingo (1º de outubro), às 20h, no Sesc Palladium. A apresentação única marca o início de um novo momento para a companhia, que reafirma o teatro negro como pilar fundamental da cultura brasileira. A temporada na capital mineira é parte do projeto “Grupo dos Dez – 15 anos de Teatro Negro”, aprovado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Dirigido por João das Neves e Rodrigo Jerônimo, a montagem de Madame Satã integra uma iniciativa mais ampla, que prevê mais de 60 apresentações em sete estados do país. O projeto inclui obras inéditas, espetáculos consagrados e ações formativas. Essas atividades são voltadas ao diálogo essencial entre arte, memória e território, consolidando o compromisso do grupo com a transformação social.
O Retorno de Madame Satã e os 15 Anos do Grupo dos Dez
A volta aos palcos de Belo Horizonte com o espetáculo Madame Satã carrega um simbolismo profundo. A última vez que a obra foi apresentada na cidade foi em 2018. O retorno agora, cinco anos depois, não só celebra a longevidade do Grupo dos Dez, mas também reafirma a necessidade de expandir fronteiras e descolonizar narrativas. O teatro negro é colocado como um elemento estruturante da produção cultural brasileira, essencial para a diversidade de vozes.
Rodrigo Jerônimo, co-diretor e dramaturgo do espetáculo, além de coordenador do projeto comemorativo, destaca o valor dessa retomada. “Chegar aos 15 anos significa olhar para trás e reconhecer tudo o que conquistamos, mas também reafirmar que nosso trabalho só ganha sentido quando é capaz de criar coletivamente e transformar realidades”, afirma. Sua declaração sublinha a missão do grupo de ir além do palco, promovendo impacto social.
Madame Satã é o terceiro espetáculo da companhia e se aprofunda na biografia de João Francisco dos Santos. A obra estabelece um diálogo contundente com a crítica à homofobia, à transfobia e ao racismo, temas que permanecem urgentes na sociedade contemporânea. A montagem aborda histórias e personagens historicamente marginalizados, que não se enquadram na heteronormatividade vigente, dando voz a quem foi silenciado.
Originalmente montado em 2014 e estreado em 2015, o musical circulou até 2019, passando por diversas capitais brasileiras. Entre os prêmios e reconhecimentos, destacam-se o Prêmio Brasil Musical 2019, na categoria de melhor espetáculo musical da Região Sudeste, e o Prêmio Leda Maria Martins 2017, como melhor espetáculo. Rodrigo Jerônimo ressalta que a obra passa por atualizações contínuas ao longo de sua trajetória, refletindo as transformações sociais.
Da Superação à Celebração: A Trajetória do Grupo
Como muitos coletivos de teatro independente, o Grupo dos Dez enfrentou períodos de suspensão e incertezas após a pandemia de Covid-19. A crise sanitária impôs desafios sem precedentes ao setor cultural, mas a resiliência do grupo permitiu que ele se reerguesse e retornasse com força total. Esse retorno não é apenas uma questão de continuidade, mas de reafirmação de um compromisso artístico e social.
A programação comemorativa não se limita à reapresentação de Madame Satã. Em 13 de março, o Palácio das Artes será palco da estreia do novo espetáculo, “Afroapocalíptico”. Esta nova montagem parte da cosmovisão do congado mineiro para construir uma experiência artística imersiva, sensorial e política, prometendo expandir ainda mais as fronteiras estéticas e temáticas do grupo. A cosmovisão do congado, com suas raízes afro-brasileiras, oferece um rico universo para a exploração de identidade e resistência.
Para a artista e diretora musical Bia Nogueira, a volta aos palcos consolida a vocação central da companhia: fazer da arte um meio de encontro, escuta e pertencimento. “Estar de volta com essa temporada é potencializar vozes que refletem o Brasil em toda a sua diversidade e afirmar que a arte deve ser acessível a todas as pessoas”, enfatiza. A acessibilidade da arte é um pilar para o Grupo dos Dez, que busca democratizar o acesso à cultura e promover a inclusão.
Engajamento Social e Futuro da Companhia
Criado em 2009, o Grupo dos Dez consolidou-se como uma referência nacional ao investigar a interseção entre o teatro negro e o teatro musical brasileiro. Sua inspiração vem das ricas tradições populares, africanas e indígenas, que permeiam toda a sua produção artística. Ao longo de sua trajetória, a companhia lançou luz sobre temas cruciais como a homoafetividade, os desafios enfrentados pela população negra, a luta das mulheres e o enfrentamento às opressões contra pessoas LGBTQIAPN+.
Além da produção de espetáculos impactantes, o grupo mantém iniciativas robustas voltadas ao fortalecimento da cultura afro-indígena. Entre elas, destacam-se o Aquilombô – Fórum Permanente de Artes Negras, o Festival Imune e o Laboratório Editorial Aquilombô. Essas ações são fundamentais para a promoção da empregabilidade negra e LGBTQIAPN+ no teatro, na literatura e na música, criando oportunidades e valorizando talentos marginalizados.
Rodrigo Jerônimo ainda observa a relevância de Madame Satã no cenário atual. “Apesar de discursos de ódio estarem impregnados em nossa sociedade desde os primórdios, é importante mostrar que os crimes permanecem impunes e continuam acontecendo no Brasil, como o assassinato do povo negro, indígena e LGBTs”, afirma. A peça serve como um espelho e um alerta para as injustiças persistentes.
Madame Satã se destaca como o único espetáculo de João das Neves ainda em cartaz, entre mais de 40 trabalhos dirigidos pelo renomado encenador. Essa longevidade atesta a força e a atemporalidade da obra. Ao retomar suas apresentações em Belo Horizonte, o Grupo dos Dez reafirma a importância do teatro negro como um espaço vital de memória, formação, pertencimento e produção de novas narrativas, projetando um futuro de trabalho comprometido com a transformação social por meio da arte.
Perguntas Frequentes
Quando e onde o espetáculo Madame Satã será apresentado em Belo Horizonte?
O espetáculo Madame Satã terá uma apresentação única neste domingo, 1º de outubro, às 20h, no Sesc Palladium, em Belo Horizonte.
O que o Grupo dos Dez celebra com essa retomada em Belo Horizonte?
O Grupo dos Dez celebra seus 15 anos de trajetória, reafirmando o teatro negro como pilar da cultura brasileira e marcando um novo momento da companhia.
Quais temas são abordados no espetáculo Madame Satã?
Madame Satã aborda temas como identidade, crítica à homofobia, transfobia e racismo, utilizando a biografia de João Francisco dos Santos para dar visibilidade a personagens marginalizados.



