Desmatamento provoca escassez de aves para a confecção de cocares.
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Desmatamento provoca escassez de aves para a confecção de cocares.

Redação 6 min de leitura Ultimas Noticias

Artesãos indígenas de diversas etnias, como Pataxó e Fulni-ô, alertam sobre a escassez de aves para a confecção de cocares. Durante o Acampamento Terra Livre em Brasília, eles denunciaram que o desmatamento e queimadas comprometem a produção cultural. A redução do número de pássaros nos territórios impacta diretamente uma tradição milenar.

Lideranças e artesãos presentes no evento, que se encerrou neste sábado (11) na capital federal, atribuem a diminuição da fauna a ações de desmatamento, queimadas e uso de agrotóxicos. Segundo eles, grileiros e invasores não-indígenas são responsáveis por essas práticas destrutivas. A consequência direta é a dificuldade em manter a produção de cocares, objetos de profundo significado cultural.

Ameaça à tradição e identidade

Tapurumã Pataxó, artesão de 32 anos da Aldeia Barra Velha, em Porto Seguro (BA), expressou sua preocupação com o cenário. Ele, que aprendeu a arte com os avós na infância, lamenta a drástica redução de aves como maritacas e araras. “Os fazendeiros estão acabando não só com o nosso território, mas com o Brasil todo”, declarou o artista.

A luta contra a destruição ambiental é antiga para o povo Pataxó. “Somos o primeiro povo que teve contato com os portugueses. E somos desmatados desde 1500”, afirmou Tapurumã. Ele recorda que, em sua infância, a presença de araras era muito mais comum do que atualmente. A comunidade, segundo ele, tem desenvolvido projetos ambientais para tentar reintroduzir aves no ecossistema local.

Os cocares são confeccionados a partir de penas que caem naturalmente dos animais, sem que estes sejam feridos. No entanto, a diminuição da população de aves torna essa prática insustentável. “Há muitos animais da minha infância que já desapareceram porque tem muita queimada criminosa”, complementou Tapurumã Pataxó.

Penas de zoológico e falta de consciência

Ahnã Pataxó, outra artesã de 45 anos que reside na Aldeia Velha, também em Porto Seguro (BA), revelou uma realidade ainda mais preocupante. A escassez de penas é tão severa que os artesãos estão precisando recorrer a zoológicos para conseguir o material necessário. “É uma tristeza muito grande você ver que os animais que eram livres estão hoje em uma área fechada por causa do desmatamento e da falta de consciência ambiental do ser humano”, lamentou.

No dia a dia, Ahnã Pataxó sente a falta de aves emblemáticas como o gavião real, a arara e até o papagaio. Ela enfatiza a urgência de promover mais ações de conscientização ambiental para reverter esse quadro. A perda desses animais não é apenas ecológica, mas também cultural, pois afeta diretamente a capacidade de perpetuar a arte dos cocares.

Impacto das mudanças climáticas

O artesão Keno Fulni-ô, de 40 anos, que vive em uma aldeia próxima a Águas Belas (PE), também sente o impacto das alterações no meio ambiente. Em sua região, aves como o gavião, o carcará, a garça e o anu são comuns. Contudo, as mudanças climáticas têm alterado o comportamento desses pássaros, segundo ele. Essa alteração dificulta ainda mais a coleta de penas, mesmo em espécies que ainda estão presentes.

Ahnã Pataxó destaca que eventos como o Acampamento Terra Livre são oportunidades importantes para os artesãos trocarem materiais, como penas. Essa troca é essencial, pois cada habitat possui aves típicas, e a resiliência delas aos impactos ambientais varia. A colaboração entre as diferentes etnias se torna um recurso valioso diante da crise.

Cocares: símbolos de resistência e união

Para os povos indígenas, o cocar vai muito além de um adorno. Tapurumã Pataxó explica que ele simboliza a identidade e a proteção do povo. “O cocar tem o sentido de nossa resistência. É o que nos protege e nos dá força pra lutar pelos nossos direitos, pela educação e pela demarcação do nosso território”, ressalta. Dada essa profunda simbologia, o artista Pataxó pede que não-indígenas que adquiram a peça a tratem com respeito, guardando-a em um quadro. “Um não indígena comprar para ficar usando como se fosse um indígena não é legal”, alertou.

Keno Fulni-ô reforça o pedido de respeito à simbologia do cocar. “Esperamos que uma pessoa não coloque um cocar na cabeça e vá beber, por exemplo. Ir para carnaval. Não é o que o nosso povo espera”, afirmou. A apropriação cultural desrespeita a ancestralidade e o propósito sagrado do objeto.

Ahnã Pataxó esclarece que o cocar é também um símbolo de aliança. Em casamentos tradicionais, não se trocam anéis de metal, mas sim cocares. A costura das penas no objeto artístico representa a união do povo. “É como se a gente estivesse unindo todo o nosso povo”, compara.

A união do povo Fulni-ô foi fundamental para o jovem Aalôa, de 21 anos, que vive em uma aldeia em Águas Belas, aprender a arte do cocar aos 14 anos. Seus amigos, presentes no Acampamento Terra Livre, destacaram a habilidade do rapaz. Enquanto costurava um cocar com penas de papagaio, Aalôa expressou o bem-estar que a prática lhe proporciona. “Eu me sinto muito bem em fazer. Acaba com estresse, me relaxa. Somos a voz do nosso povo e uma só família”, concluiu o jovem artesão, reforçando a importância cultural e espiritual da produção de cocares para a comunidade.

Perguntas Frequentes

O que são cocares e qual sua importância para os povos indígenas?

Cocares são adornos de cabeça feitos com penas de aves, que possuem um profundo significado cultural, espiritual e identitário para os povos indígenas. Eles simbolizam resistência, proteção, força, e são usados em rituais, cerimônias e como representação da cultura de cada etnia.

Por que a produção de cocares está sendo afetada?

A produção de cocares está sendo afetada principalmente pela escassez de penas de aves. Essa escassez é consequência do desmatamento, queimadas, uso de agrotóxicos e outras formas de destruição ambiental nos territórios indígenas, que reduzem drasticamente a população de pássaros.

Como não-indígenas devem se comportar em relação aos cocares?

Os povos indígenas pedem que não-indígenas demonstrem respeito pela simbologia do cocar. Sugerem que, ao adquirir um cocar, ele seja guardado em um local de honra, como um quadro, e não utilizado como um acessório de moda ou em contextos que desrespeitem seu significado sagrado, como festas ou carnavais.


12 de abril de 2026|Fonte: Agência Brasil|Foto: Bruno Peres/Agência Brasil|Redação: Redação|Fonte da Informação ↗
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