Apagão burocrático no IML: por que famílias precisam ir ao Detran para reconhecer corpos

O corredor do Instituto Médico-Legal (IML) do Rio ficou pequeno demais para a avalanche de corpos saída da Operação Contenção. O excesso foi tão grande que, neste 29 de outubro, familiares tiveram de se dirigir ao prédio ao lado — o Departamento de Trânsito (Detran-RJ) — para preencher fichas e tentar encontrar parentes entre sacos numerados. Esse desvio logístico não é mero detalhe: ele sinaliza um gargalo burocrático capaz de atrasar a contagem oficial dos mortos e, na prática, apagar vítimas das estatísticas públicas.
Quando o balcão do Detran vira guichê de luto: o indício de um sistema à beira do colapso
Em situações normais, todo reconhecimento ocorre dentro da estrutura do IML, onde há câmaras frias, sala de necropsia e setor de antropologia. O fato de o cadastro ter sido deslocado para o Detran indica que o fluxo habitual travou. Segundo servidores ouvidos pela reportagem, em condição de anonimato para evitar retaliações, o IML central possui espaço para cerca de 200 corpos em câmaras refrigeradas. Só a operação de terça-feira entregou oficialmente 64, número que saltou para pelo menos 134 após o resgate de outros 70 cadáveres na madrugada seguinte. Não há informação oficial sobre reforço de pessoal ou ampliação temporária da capacidade de refrigeração.
Quando a identificação inicial é feita fora do IML, surge um risco duplo: a perda de conexão entre ficha civil e laudo necroscópico, e o atraso na liberação para sepultamento. Com filas formadas em duas repartições diferentes, documentos podem ser preenchidos com dados incompletos, dificultando o cruzamento posterior com a perícia balística ou o Sistema de Informação sobre Mortalidade.
Subcontagem à vista? Por que o número final de vítimas pode demorar — ou nunca aparecer
O balanço de letalidade policial divulgado diariamente pela segurança pública depende de laudos concluídos e lançados no sistema interno. Enquanto um corpo não está formalmente identificado, ele não entra na estatística de “auto de resistência” nem de homicídio simples. Em operações de grande escala, essa defasagem costuma maquiar o número final por semanas.
- Corpos sem identificação imediata entram como “desconhecidos”.
- Se a família não retorna para complementar dados, o registro pode ficar suspenso.
- Quando o laudo é liberado com campos incompletos, sistemas de dados rejeitam o upload.
O uso improvisado do Detran aumenta a chance de esses entraves acontecerem. Um perito ouvido nesta quarta-feira relatou, sob reserva, que fichas manuscritas estão sendo digitalizadas por equipes pequenas, o que prolonga a atualização das planilhas oficiais. Resultado: a contagem visível ao público — 64 mortos — permanece congelada, mesmo com o IML recebendo corpos adicionais.
O impacto psicológico de uma espera sem prazo: relatos de Cabo Frio a Arraial do Cabo
A distância geográfica agrava o drama. A Agência Brasil registrou casos de familiares vindos da Região dos Lagos após ligações interrompidas durante tiroteios. Carol Malícia, de 24 anos, chegou de Arraial do Cabo para tentar localizar o pai de sua filha, Vitor, de 1 ano e 3 meses. Vitor enviou mensagens na terça-feira dizendo estar encurralado sob disparos. Horas depois, foi encontrado com ferimentos na perna e no pé. Ainda assim, Carol precisa esperar a chamada do Detran, não do IML, para confirmar a identidade.
“Eles largaram o corpo lá, pelado. Nem animal se trata assim”, relatou outro parente, que percorreu 150 quilômetros de Cabo Frio ao centro do Rio.
Além do sofrimento evidente, há custo financeiro: transporte, hospedagem e alimentação para famílias de baixa renda que não sabem se serão atendidas no mesmo dia. O adiamento da liberação dos corpos impede ritos funerários essenciais para a elaboração do luto, apontam psicólogos do setor de saúde pública.
Por que o cadastro não ocorre na delegacia de origem? Entenda a engrenagem institucional
Um delegado ouvido reservadamente explica que, em megaoperações, a Polícia Civil prioriza a coleta de provas na cena do confronto. Documentos pessoais encontrados com os mortos seguem dentro de envelopes lacrados para a Polícia Técnica. O IML, por sua vez, se concentra em exames de necropsia e balística. Tudo isso exige integração de sistemas — e é justamente essa integração que falhou, segundo técnicos que atuam no processamento de dados. Sem um “puxadão” eletrônico que una as três bases (Delegacia, Polícia Técnica e IML), a solução emergencial foi abrir balcões extras no espaço físico mais próximo, o Detran.
O órgão de trânsito dispõe de computadores, senhas e uma rede interna que já conversa com o banco de dados de identificação civil. Assim, aproveita-se a infraestrutura para cruzar digitais coletadas em necropsia com RGs. O procedimento, todavia, não era previsto em protocolo e só se tornou necessário porque o volume de cadáveres ultrapassou o limite aceitável.
Fila dupla, dor dobrada: como o gargalo pode afetar investigações de execução
Testemunhos obtidos pela reportagem descrevem corpos com tiros na testa e até decapitações. Esses sinais de possível execução requerem perícia detalhada, fotografias de alta resolução e catalogação meticulosa das lesões. Quanto mais tempo o corpo permanece à espera de identificação, mais o tecido se degrada, podendo prejudicar conclusões sobre distância dos disparos ou tipo de arma. Especialistas forenses alertam que isso também compromete futuras ações judiciais e pedidos de indenização por parte das famílias.
Na prática, o atraso pode gerar três consequências imediatas:
- Dificuldade de comprovar autoria e nexo causal.
- Prescrição de prazos processuais sem denúncia formal.
- Desconfiança coletiva nos números divulgados pelo governo.
Responsabilidade compartilhada: quem poderia ter evitado o colapso?
Fontes ligadas à segurança relatam que protocolos de grandes operações recomendam avisar o IML com antecedência para redistribuir corpos entre unidades de Campo Grande, São Gonçalo ou Nova Iguaçu. Questionada, a Secretaria responsável não apresentou cronograma de redistribuição até o fechamento deste texto. Sem planejamento prévio, a sobrecarga concentrada no centro do Rio provocou a improvisação no Detran.
Entidades de direitos humanos, como a Defensoria Pública, já haviam advertido em relatórios anteriores sobre o aumento da letalidade policial no estado. O órgão solicitou plano emergencial para identificação de vítimas, mas não houve resposta pública. O cenário descrito hoje confirma essas advertências: cadeias de custódia fragilizadas, famílias desalojadas e estatísticas atrasadas.
O que acontece agora? Próximos passos e riscos de um novo apagão
Sem reforço de peritos e sem ampliação das câmaras frias, o IML corre o risco de repetir o colapso caso haja nova operação de grande porte nas próximas semanas. A sobrecarga pode se traduzir em mais esperas, laudos inconclusos e, sobretudo, em um déficit permanente de confiança nos números oficiais. Para as famílias, cada dia de fila significa reviver o trauma; para o estado, significa manter invisível parte da violência que deveria monitorar. A forma como autoridades lidarem com esse gargalo nos próximos dias dirá se o episódio foi um ponto fora da curva ou o prenúncio de um sistema forense que já estourou sua capacidade de resposta.
Crédito da Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Fonte das informações: Agência Brasil





