A disputa histórica entre Portugal e Espanha ganhará um novo e eletrizante capítulo em 6 de julho de 2026, quando as seleções ibéricas se enfrentarão em Dallas, nos Estados Unidos, em uma partida decisiva pelas quartas de final da Copa do Mundo. Curiosamente, este mesmo dia carrega uma profunda conexão com a rivalidade entre as duas nações no Brasil, mais precisamente em Santos, no litoral sul de São Paulo. Foi em 6 de julho de 1919 que ocorreu o primeiro embate do “Clássico das Colônias”, envolvendo a Portuguesa Santista e o Jabaquara.
Essa rivalidade, que se manifesta no futebol brasileiro há mais de um século, remonta a um período de intensa imigração e formação de comunidades lusitanas e hispânicas em solo paulista. O confronto entre os clubes santistas não é apenas um jogo, mas um espelho das identidades culturais e histórias que moldaram a região. Aquele primeiro duelo, há exatos 107 anos, terminou com a vitória do Jabaquara por 1 a 0, então conhecido como Hespanha Foot Ball Club.
LEIA TAMBÉM
Origens Lusas e Ibéricas: A Fundação dos Clubes Santistas
A história do Hespanha Foot Ball Club, precursor do atual Jabaquara, teve início em 15 de novembro de 1914. A agremiação foi fundada por um grupo de jornaleiros espanhóis que residiam em Santos e se reuniam no bairro do Jabaquara. A peculiar grafia “Hespanha” com “H” não era um acaso; ela remetia a “Hispania”, o nome romano para a Península Ibérica, e servia como uma forte afirmação da identidade cultural da Galícia. Essa comunidade autônoma, localizada no noroeste da Espanha, era a terra natal de cerca de 80% dos integrantes da colônia espanhola em Santos, incluindo os fundadores do clube.
O presidente do Jabaquara, José Dominguez Fernandez, conhecido como Pepe, detalhou à Agência Brasil a relevância dessa comunidade. Segundo ele, a missão é manter viva a cultura espanhola, especialmente entre os descendentes e simpatizantes. Em Santos, essa comunidade se estrutura em três pilares principais:
– O Centro Espanhol de Santos, que oferece uma variedade de atividades culturais e esportivas, desde tênis de mesa e dança até cursos de idioma e futebol de botão.
– A Sociedade Beneficente Rosália de Castro, focada em assistência social à comunidade.
– O Jabaquara, como a agremiação esportiva que representa a identidade espanhola.
Inspirados pela criação do Hespanha, um grupo de portugueses em Santos decidiu fundar uma agremiação para representar a comunidade lusitana. Assim, em 20 de novembro de 1917, nasceu a Associação Atlética Portuguesa, carinhosamente apelidada de Briosa. Frederico Barreiros, presidente da Portuguesa Santista, também destacou à Agência Brasil a forte ligação do clube com as instituições portuguesas locais. Ele mencionou a Casa da Madeira, o Centro Cultural Português e o consulado, evidenciando que todos compartilham uma história comum e atuam de forma unida.
Guerra e Identidade: A Mudança de Nome do Hespanha
A trajetória desses clubes se entrelaça com momentos cruciais da história do Brasil e do esporte nacional. Ambos, por exemplo, figuram entre os fundadores da Federação Paulista de Futebol (FPF) em 1941, ao lado de clubes renomados como o Santos Futebol Clube. A Briosa, por sua vez, teve a honra de ver seu meia Argemiro convocado para a seleção brasileira na Copa do Mundo de 1938, enquanto o Jabaquara revelou um dos maiores goleiros de todos os tempos, Gylmar dos Santos Neves, bicampeão mundial em 1958 e 1962.
A mudança do nome de Hespanha Foot Ball Club para Jabaquara está diretamente ligada a um período turbulento da história mundial: a Segunda Guerra Mundial. Durante o governo de Getúlio Vargas, foi promulgado o Decreto 4.166, em 11 de março de 1942. Esta legislação determinava que bens de pessoas físicas e jurídicas ligadas aos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) poderiam ser confiscados pelo governo brasileiro. O objetivo era compensar os prejuízos causados ao Brasil pelo conflito.
Essa medida gerou um movimento de alteração de nomes em diversas instituições que possuíam referências às nações envolvidas na guerra. Clubes como o Palestra Itália de São Paulo, que se tornou Palmeiras, e o de Minas Gerais, que virou Cruzeiro, são exemplos notórios. O Germânia, da capital paulista, transformou-se no atual Esporte Clube Pinheiros. Nesse contexto, o Hespanha adotou o nome do bairro onde foi fundado, Jabaquara, como forma de se desassociar da conotação estrangeira em um período de forte nacionalismo. Atualmente, a sede da agremiação, curiosamente, não se encontra mais no bairro Jabaquara, mas sim na Caneleira, na zona noroeste de Santos.
Um Gesto Contra o Apartheid: O Legado da Portuguesa Santista
A Portuguesa Santista também possui um marco extracampo de grande relevância histórica. Em 1959, o time realizou uma excursão pelo continente africano, chegando à África do Sul em pleno regime do Apartheid. O Apartheid foi um sistema de segregação racial e discriminação institucionalizada que vigorou na África do Sul de 1948 a 1994, impondo leis que separavam brancos de negros em todos os aspectos da vida social e política.
Antes de um amistoso programado contra um combinado da Cidade do Cabo, três atletas da Briosa – Nenê, Bota e Guilherme – foram impedidos de entrar em campo por serem negros. Diante dessa inaceitável discriminação, a Portuguesa Santista tomou uma posição firme e se recusou a jogar, resultando no cancelamento da partida. Essa atitude corajosa recebeu o apoio do então presidente brasileiro, Juscelino Kubitschek, marcando a primeira manifestação oficial do Brasil contra o regime do Apartheid.
A recusa em compactuar com a segregação racial não apenas solidificou a reputação do clube, mas também projetou a posição do Brasil no cenário internacional em defesa dos direitos humanos. Na sequência da viagem pela África, a equipe da Portuguesa Santista obteve um desempenho notável, com 15 jogos e 15 vitórias. Essa impressionante sequência de resultados invictos rendeu à Briosa a cobiçada “fita azul”, um reconhecimento concedido entre as décadas de 1950 e 1970 a clubes brasileiros que retornavam invictos de excursões internacionais.
A tradição centenária e a rica história desses clubes santistas, enraizados nas comunidades portuguesa e espanhola, continuam a ser um legado vibrante. Enquanto as seleções de Portugal e Espanha se preparam para seu próximo confronto na Copa do Mundo, a memória do “Clássico das Colônias” em Santos serve como um testemunho duradouro de como o futebol pode transcender o esporte, conectando histórias, identidades e valores culturais ao longo de gerações. O retrospecto geral entre as seleções ibéricas favorece os espanhóis, com 17 vitórias, 18 empates e 6 triunfos lusitanos, mas no Brasil, a rivalidade é um capítulo à parte, cheio de memórias e paixão.
Perguntas Frequentes
O que é o “Clássico das Colônias”?
O “Clássico das Colônias” é o nome dado ao confronto futebolístico entre a Associação Atlética Portuguesa (Portuguesa Santista) e o Jabaquara Atlético Clube, dois clubes históricos da cidade de Santos, no litoral de São Paulo. A rivalidade reflete as origens de seus fundadores, que representavam as comunidades portuguesa e espanhola, respectivamente, na região.
Por que o Hespanha Foot Ball Club mudou seu nome para Jabaquara?
A mudança de nome do Hespanha Foot Ball Club para Jabaquara Atlético Clube ocorreu em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial. O governo de Getúlio Vargas, por meio do Decreto 4.166, determinou que bens de instituições ligadas aos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) poderiam ser confiscados. Embora a Espanha fosse neutra, a medida gerou um movimento de nacionalização de nomes para evitar associações estrangeiras em um período de forte sentimento nacionalista. Assim, o clube adotou o nome do bairro de sua fundação.
Qual foi o papel da Portuguesa Santista na luta contra o Apartheid?
Em 1959, durante uma excursão à África do Sul, a Portuguesa Santista se recusou a jogar um amistoso na Cidade do Cabo após três de seus atletas negros serem impedidos de ir a campo devido ao regime de segregação racial do Apartheid. Essa atitude foi a primeira manifestação oficial do Brasil contra o Apartheid, recebendo o apoio do então presidente Juscelino Kubitschek e solidificando a posição brasileira contra a discriminação racial.
Quem são os jogadores mais famosos revelados ou que passaram por esses clubes?
A Portuguesa Santista teve em suas fileiras o meia Argemiro, convocado para a seleção brasileira na Copa do Mundo de 1938. Já o Jabaquara se orgulha de ter revelado Gylmar dos Santos Neves, considerado um dos maiores goleiros da história do futebol, bicampeão mundial com a Seleção Brasileira em 1958 e 1962.
Este artigo segue estritamente as diretrizes da nossa política editorial e verificação de fatos primária. Conteúdo auditado por Bruno Sampaio, garantindo expertise temática (Topical Authority).

