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Catadoras de mangaba em Aracaju defendem sustento e território cultural

Por Bruno Sampaio | Atualizado em 12/07/2026 às 18:48
Leitura: 8 Min
Última Atualização: 12 de julho de 2026, às 18:48

Catadoras de mangaba em Aracaju resistem à forte pressão imobiliária na região sul da capital sergipana. Elas protegem a cultura do extrativismo, o sustento de famílias e um valioso território cultural contra o avanço da urbanização.

A mangaba, um dos símbolos culturais e ambientais de Sergipe, tornou-se nos últimos anos um estandarte de resistência. As comunidades extrativistas dependem diretamente da proteção de seus territórios para garantir o sustento de dezenas de famílias e preservar um modo de vida intimamente ligado à natureza. Na capital, Aracaju, as últimas mangabeiras remanescentes se concentram na zona de expansão urbana, enfrentando intensa pressão de construtoras.

Essa pressão ameaça principalmente a autonomia econômica e social de mulheres que vivem da coleta, conhecida como “cata”, e do manejo artesanal do fruto. “A gente está rodeado de uma selva de pedra. Eu me sinto guardando um tesouro da humanidade”, desabafa Maria Eliene Santos, presidente da Associação das Catadoras e Catadores de Mangaba Padre Luiz Lemper (ACCMPLL). Sua voz ecoa a luta de muitas.

A ACCMPLL é a principal organização política e comunitária das famílias extrativistas na capital sergipana. A entidade desempenha um papel fundamental na orientação da produção, na preservação dos conhecimentos tradicionais e na interlocução com o poder público. Esse trabalho incansável rendeu à associação o primeiro lugar na categoria Povos e Comunidades Tradicionais do Prêmio Guardiãs da Sociobiodiversidade, concedido pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) no ano passado.

Na ocasião, foram destinados R$ 45 mil à associação. Os recursos foram investidos na realização de oficinas e estudos para fortalecer o beneficiamento da mangaba e o turismo de base comunitária na região. A iniciativa contou com o apoio de instituições de renome como a Universidade Federal de Sergipe (UFS) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que fornecem suporte técnico e científico.

Luta por Reconhecimento e Sustento

O extrativismo da mangaba é um sistema de subsistência e cultura que se baseia na coleta de frutos nativos diretamente da natureza, sem grandes intervenções agrícolas. Para as catadoras de mangaba de Aracaju, isso representa não apenas uma fonte de renda, mas a manutenção de uma identidade ancestral e de um equilíbrio ecológico. A mangaba, cujo nome científico é *Hancornia speciosa*, é uma fruta típica do Cerrado e da Mata Atlântica, rica em vitaminas e com sabor agridoce, muito apreciada na culinária regional. Seu cultivo e coleta sustentáveis são essenciais para a biodiversidade local.

O território das catadoras de mangaba em Aracaju abrange duas áreas protegidas contíguas, embora separadas por uma avenida. São elas: a Reserva Extrativista (Resex) Mangabeiras Missionário Uilson de Sá e uma área da União concedida à comunidade por meio de um Termo de Autorização de Uso Sustentável. Embora sob regimes de gestão distintos, essas áreas formam um único e inseparável território cultural tradicional.

Nesse espaço, famílias, majoritariamente formadas por pessoas negras, mantêm o extrativismo da mangaba há mais de oito décadas. A permanência e o reconhecimento desse modo de vida são pilares para a conservação ambiental e social. A Resex é uma unidade de conservação específica para proteger os meios de vida e a cultura de populações extrativistas. Já o Termo de Autorização de Uso Sustentável é um instrumento legal que permite o uso de terras públicas por comunidades tradicionais de forma sustentável, garantindo seus direitos territoriais.

Território Ameaçado e a Força da Comunidade

A reportagem da Agência Brasil visitou a Resex Uilson de Sá no início de junho durante a 5ª Festa da Colheita, um evento que marcou o lançamento do Plano de Manejo Popular da reserva. Este documento, elaborado coletivamente pelas famílias catadoras de mangaba com o apoio da associação, é uma ferramenta vital para a gestão do território.

Os objetivos do Plano de Manejo Popular incluem:
– Registrar a memória histórica e os saberes ancestrais da comunidade.
– Estimular a conservação da reserva e de sua biodiversidade.
– Realizar uma cartografia ecológica detalhada do território.
– Subsidiar a gestão participativa, garantindo que as decisões reflitam os interesses da comunidade.

“O plano de manejo foi uma maneira que a gente encontrou, junto com a comunidade, de reorganizar todo mundo em torno da continuidade da luta em defesa do território”, explica Leandro Sacramento Santos, conhecido como Pel, da Associação Raízes. Essa entidade presta assessoria a comunidades tradicionais em Sergipe. Ele ressalta a importância de a comunidade ter sua própria voz: “A gente ficou com medo de a prefeitura de Aracaju aparecer com um plano pronto e impor regras que não tinham nada a ver com a comunidade.”

Uma das principais controvérsias com a prefeitura, por exemplo, é a proposta de transformar a Resex em um parque urbano aberto ao público. Segundo as catadoras, essa mudança descaracterizaria completamente a finalidade da unidade de conservação, que foi criada especificamente para proteger o modo de vida e o uso sustentável do território pelas famílias extrativistas. A analista da Embrapa Tabuleiros Costeiros, Raquel Fernandes, enfatiza a importância da iniciativa popular: “Quando o Estado vier construir o plano de manejo, a comunidade já sabe o que quer.”

A Criação da Resex e o Legado de Resistência

O processo que culminou na criação da reserva foi marcado por uma série de violações de direitos. Tais violações quase extinguiram a atividade extrativista em Aracaju. O agravamento dos conflitos teve início a partir dos anos 2010, com o avanço da expansão urbana da capital sergipana. Empreendimentos habitacionais começaram a ocupar parte do território tradicional das catadoras de mangaba, resultando na supressão de importantes áreas de coleta do fruto.

Lideranças comunitárias e apoiadores da associação afirmam que a reserva extrativista foi demarcada pela prefeitura como parte das condicionantes ambientais exigidas para o financiamento, pelo Banco Mundial, do conjunto habitacional implantado no Bairro 17 de Março. Este bairro está localizado exatamente ao lado da reserva, evidenciando a pressão direta da urbanização.

Embora a demarcação tenha representado um avanço no reconhecimento do território, a comunidade relata que a unidade foi instituída após a devastação de centenas de mangabeiras. Além disso, a área demarcada não contemplou toda a extensão do território tradicionalmente utilizado pelas famílias extrativistas. Este contexto de conflito e perda realçou a urgência da organização comunitária e da defesa dos direitos.

Nesse cenário desafiador, a atuação do missionário católico Uilson de Sá ganhou destaque. A partir de 2014, ele organizou as famílias extrativistas em defesa das mangabeiras e do direito de permanência no território. Sua liderança foi crucial para articular a comunidade, dando voz e força à luta pela preservação cultural e ambiental. O trabalho de Uilson de Sá foi além, buscando também contemplar a luta por moradia popular, estabelecendo uma ponte entre a defesa ambiental e as necessidades sociais urgentes. A memória de seu legado é um pilar da resistência local.

O Papel Crucial dos Planos de Manejo e Apoio Institucional

Um plano de manejo para uma Reserva Extrativista é um documento técnico normativo que estabelece o zoneamento, as normas de uso e os programas de gestão da unidade. Ele é essencial para garantir a conservação dos recursos naturais e a sustentabilidade das atividades extrativistas. A elaboração de um Plano de Manejo Popular, como o lançado na Resex Uilson de Sá, é um exemplo de gestão participativa. Ele assegura que o conhecimento tradicional das comunidades seja incorporado e respeitado, evitando imposições externas que desconsiderem a realidade local.

A colaboração entre a ACCMPLL, a UFS e a Embrapa demonstra a importância do apoio institucional para fortalecer as comunidades tradicionais. A UFS contribui com pesquisa e extensão universitária, enquanto a Embrapa Tabuleiros Costeiros oferece expertise em pesquisa agropecuária adaptada à região, incluindo o manejo sustentável de culturas como a mangaba. Esse suporte técnico e científico é vital para o desenvolvimento de práticas mais eficientes e para a valorização dos produtos da sociobiodiversidade.

A luta das catadoras de mangaba em Aracaju é um microcosmo de um desafio global: a conciliação entre o desenvolvimento urbano e a preservação ambiental e cultural. A resistência dessas mulheres, que se veem como guardiãs de um tesouro, é um testemunho da resiliência e da importância de proteger os modos de vida tradicionais que contribuem para a riqueza social e ecológica do Brasil. Seu exemplo inspira outras comunidades a defenderem seus territórios e suas culturas.

Perguntas Frequentes

Qual o principal desafio enfrentado pelas catadoras de mangaba em Aracaju?

O principal desafio é a forte pressão da especulação imobiliária na região sul de Aracaju, que ameaça o território onde as últimas mangabeiras remanescentes se concentram, comprometendo o sustento e o modo de vida das comunidades extrativistas.

O que é a Associação das Catadoras e Catadores de Mangaba Padre Luiz Lemper (ACCMPLL)?

É a principal organização política e comunitária das famílias extrativistas na capital sergipana. A ACCMPLL orienta a produção, preserva conhecimentos tradicionais e dialoga com o Poder Público, tendo sido premiada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

O que é uma Reserva Extrativista (Resex)?

Uma Reserva Extrativista (Resex) é uma unidade de conservação de uso sustentável, criada para proteger os meios de vida e a cultura de populações extrativistas. Ela garante o direito dessas comunidades de usar os recursos naturais de forma sustentável, preservando a biodiversidade e os modos de vida tradicionais.

O Plano de Manejo Popular é um documento elaborado coletivamente que busca registrar a memória histórica, estimular a conservação da reserva, fazer uma cartografia ecológica e subsidiar a gestão participativa do território. Ele assegura que as regras de uso e conservação reflitam os interesses e o conhecimento tradicional da comunidade, protegendo-a contra planos impostos externamente.


12 de julho de 2026|Fonte: Agência Brasil|Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil|Redação: Bruno Sampaio|Fonte da Informação ↗

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