Com mais de 80 bloqueios em rodovias por todo o país, a Bolívia alcançou, nesta sexta-feira (5), o 36º dia de intensas manifestações. As mobilizações estão ligadas a uma crise política que resultou na prisão de lideranças, em meio ao suporte declarado do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, ao governo boliviano de Rodrigo Paz. Organizações sociais do país qualificam as detenções como “sequestros” e exigem a libertação dos detidos. As autoridades bolivianas imputam acusações como “terrorismo” e “instigação pública para delinquir”.
Entre os detidos, destacam-se a ex-senadora do partido MAS, Simone Quispe, o secretário executivo da Federação de Conselhos de Bairros de La Paz, Justino Apaza, e a dirigente da Federação Carrasco, Yesenia Varga, que atua na região de Cochabamba. A Procuradoria também havia solicitado a prisão de outros líderes, como Vicente Salazar, da organização Los Ponchos Rojos, e Mario Argollo, presidente da Central Operária da Bolívia (COB), a principal central sindical do país. Argollo declarou que se esconderia devido à crescente perseguição, mas os pedidos de prisão contra Salazar e Argollo foram posteriormente revogados pela justiça boliviana.
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O governo de Rodrigo Paz, alinhado à direita, enfrenta cinco semanas de protestos que clamam pela sua renúncia, com apenas seis meses de mandato após quase duas décadas de governos esquerdistas. As manifestações contam com a participação de uma ampla gama de grupos sociais, incluindo camponeses, indígenas, professores e mineiros. O movimento, que teve início em resposta à baixa qualidade do combustível fornecido pelo governo, escalou para uma luta massiva contra a recente legislação sobre terras, que os agricultores consideram favorecer o agronegócio em detrimento dos pequenos proprietários.
Os bloqueios nas rodovias têm gerado uma grave crise de abastecimento em diversas regiões da Bolívia, resultando em escassez de combustíveis, alimentos e medicamentos. De acordo com a Administradora Boliviana de Rodovias (ABC), atualmente são registrados 81 bloqueios em diferentes departamentos, principalmente em torno de La Paz e nos estados de Cochabamba, Potosí, Oruro, Santa Cruz e Chuquisaca.
Clayton Cunha Filho, professor de ciência política da Universidade Federal do Ceará (UFC), afirma que o cenário boliviano permanece instável e imprevisível. “A população está exausta pela inflação de alimentos e desabastecimento. Os setores sociais garantem que continuarão os protestos até que o presidente renuncie. Além disso, há a ameaça de um possível estado de exceção, que certamente aumentaria a repressão”, comentou.
As prisões recentes, incluindo a de Simone Quispe no dia 4, têm gerado indignação. Segundo relatos da família, a captura ocorreu de forma irregular, com indivíduos encapuzados invadindo sua residência e levando-a à força. A Central Operária da Bolívia (COB) se manifestou contra essas detenções, afirmando que não permitirão o retorno das práticas de perseguição a líderes sociais.
Em um contexto de crescente repressão, o apoio dos EUA ao governo boliviano se torna evidente. O secretário Hegseth declarou em suas redes sociais que “os Estados Unidos estão observando” e enfatizou que a Bolívia não deve sucumbir a um “status quo de domínio narco-terrorista”. O governo e as autoridades dos Estados Unidos buscam caracterizar os protestos como vinculados ao narcotráfico, justificando assim a repressão.
Clayton Cunha expressa preocupação quanto à possibilidade de uma intervenção direta dos EUA na Bolívia para garantir o apoio a Rodrigo Paz. “Embora isso pareça improvável devido a outras questões internacionais, não se pode descartar essa possibilidade”, observou. O especialista acredita que o respaldo americano pode encorajar as Forças Armadas a intensificarem a repressão contra os manifestantes.
No dia 2 de junho, o governo também enfrentou a saída de ministros, incluindo Marcelo Salinas, da Defesa, e de Educação, indicando um clima de fragilidade em meio à pressão popular e à crise crescente. A situação na Bolívia é, sem dúvida, uma das mais desafiadoras da região, refletindo tensões entre diferentes visões políticas e sociais.
Perguntas Frequentes
Quais são os motivos dos protestos na Bolívia?
Os protestos na Bolívia surgiram inicialmente em resposta à má qualidade do combustível, mas se ampliaram devido à aprovação de uma lei sobre terras que os camponeses acreditam favorecer o agronegócio em prejuízo dos pequenos proprietários.
Como o governo dos EUA está envolvido na situação na Bolívia?
O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, manifestou apoio ao governo de Rodrigo Paz e advertiu contra a possibilidade de a Bolívia cair em um “status quo narco-terrorista”.
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