Autonomia financeira é prioridade para 37% das mulheres, diz pesquisa
Estudo da Consultoria Maya revela que, apesar do desejo por independência, mulheres enfrentam assédio e discriminação no ambiente de trabalho.
Uma pesquisa recente revela que a autonomia financeira mulheres é a principal prioridade para 37,3% delas, apesar das persistentes desigualdades e discriminação no mercado de trabalho brasileiro. O levantamento “Mulheres e Mercado de Trabalho”, divulgado neste sábado (7), aponta que a capacidade de decidir sobre a própria vida, impulsionada pela independência econômica, está no topo das ambições femininas.
Conduzido pela Consultoria Maya, em parceria com a plataforma de educação corporativa Koru, o estudo ouviu 180 mulheres de diferentes perfis etários e etnorraciais, excluindo indígenas, para compreender suas percepções sobre a vida profissional e pessoal. Os resultados confirmam um cenário de desafios, onde práticas discriminatórias e violentas ainda são comuns nos ambientes corporativos.
A busca por autonomia financeira e os desafios
A pesquisa destaca que ter independência financeira foi apontada como a principal prioridade por 37,3% das entrevistadas. Em segundo lugar, com 31%, aparece a saúde mental e física, seguida pela realização profissional. Curiosamente, ter uma relação amorosa é uma meta para menos de uma em cada dez mulheres consultadas, indicando uma redefinição das aspirações pessoais.
Paola Carvalho, diretora da Consultoria Maya, esclarece o conceito de autonomia financeira para as mulheres. “Estamos falando de ter um salário, de ter rendimento, de ter poder de decisão, não é de poder de compra”, explicou. Ela ressaltou que essa independência permite à mulher tomar decisões cruciais, como sair de um relacionamento abusivo ou proporcionar melhores condições de vida para sua família. “Autonomia financeira é condição para liberdade de escolha”, frisou Carvalho, enfatizando o papel fundamental do dinheiro como ferramenta de empoderamento.
Para muitas mulheres, o caminho para essa autonomia passa diretamente pelo trabalho remunerado. No entanto, o estudo revela que o mercado de trabalho ainda impõe diversas barreiras culturais ao acesso e à ascensão profissional feminina. Apesar de muitas mulheres apresentarem melhor formação e currículo, elas continuam enfrentando obstáculos significativos, incluindo a discriminação e a violência.
Discriminação e violência persistem no ambiente de trabalho
A pesquisa detalha como a discriminação afeta a trajetória profissional das mulheres. Entre as entrevistadas, 2,3% relataram ter sido preteridas em promoções, frequentemente devido à maternidade. Uma das participantes, que preferiu não ser identificada, descreveu a dinâmica: “Primeiro [vêm] os homens, claro, depois, mulheres sem filhos e, por último, mulheres com filhos”. Outra avaliou: “Vejo predileção em promover mulheres que não têm filhos em vez de mães”. Esse tipo de observação ilustra um preconceito enraizado que penaliza a maternidade no ambiente corporativo.
Além da discriminação explícita, a violência psicológica também exerce um impacto profundo na carreira feminina. Mais de sete em cada dez entrevistadas relataram ter sofrido com esse problema. Os casos incluem uma gama de comportamentos hostis: comentários sexistas que desvalorizam as aptidões profissionais pelo simples fato de ser mulher; ofensas sobre a aparência; interrupções frequentes em reuniões, onde suas ideias são minimizadas ou apropriadas por colegas; e questionamentos constantes sobre sua capacidade técnica.
Uma das entrevistadas compartilhou uma experiência marcante: “Meu coordenador me ofereceu um cargo acima do que eu estava e, quando aceitei, por três vezes, ele me chamou para conversar e questionar se eu achava que conseguiria”. O relato adiciona uma camada de assédio moral ao ser questionada sua capacidade mesmo após aceitar o desafio. Outra participante revelou uma situação ainda mais intrusiva: “Em uma das vezes, ele teve a audácia de me pedir para conversar com o meu esposo sobre a minha decisão”, evidenciando a tentativa de minar a autonomia da mulher sobre suas próprias escolhas profissionais.
A violência no local de trabalho tem consequências diretas, levando muitas mulheres a considerar a desistência de suas carreiras. Embora nem todas tenham abandonado o emprego, o problema demonstra que a permanência delas no trabalho “ocorre apesar das adversidades, e não pelas condições plenamente equitativas”, conforme o texto da pesquisa. A resiliência feminina, portanto, é testada diariamente em ambientes que deveriam ser propícios ao desenvolvimento, mas que frequentemente se mostram hostis.
Caminho para a liderança feminina encontra barreiras
A distribuição de cargos nas empresas é um espelho claro do problema. O levantamento indica que a maior parte das mulheres entrevistadas atua em posições operacionais e intermediárias, como coordenadoras e gerentes. Apenas 5,6% delas alcançaram postos na diretoria ou cargos de “C-levels”, que representam os mais altos níveis executivos dentro de uma organização.
“A presença feminina diminui drasticamente à medida que os cargos se tornam mais estratégicos, revelando uma estrutura sexista por trás desse resultado”, avaliou Paola Carvalho. Essa “estrutura sexista” impede que mulheres com qualificação e experiência cheguem aos espaços de decisão, perpetuando a desigualdade e a falta de representatividade em níveis estratégicos.
Para reverter esse cenário, a consultora sugere um comprometimento integral, do estagiário ao CEO, com uma nova visão e atitudes profissionais no dia a dia. “É preciso ter um olhar diferente para essas questões. Isso parte de ações individuais e institucionais”, sugeriu Carvalho, enfatizando a necessidade de uma mudança cultural profunda. Ela concluiu que “em pleno século XXI, ter esses resultados é chocante”, reiterando a urgência de transformações significativas para garantir a equidade de gênero no mercado de trabalho e promover a plena autonomia financeira mulheres.
Perguntas Frequentes
Qual é a principal prioridade das mulheres segundo a pesquisa?
A pesquisa “Mulheres e Mercado de Trabalho” aponta que a autonomia financeira é a principal prioridade para 37,3% das mulheres entrevistadas, destacando o desejo de decidir sobre a própria vida.
Que tipos de violência as mulheres enfrentam no trabalho?
Mais de 70% das entrevistadas relatam violência psicológica, incluindo comentários sexistas, ofensas à aparência, interrupções em reuniões, apropriação de ideias e questionamentos sobre sua capacidade técnica.
Por que a presença feminina diminui em cargos de liderança?
Segundo a Consultoria Maya, a diminuição da presença feminina em cargos estratégicos e de liderança revela uma estrutura sexista no mercado de trabalho, que impõe barreiras à ascensão das mulheres.

