Fliaraxá celebra Milton Santos e convida a repensar nosso lugar no mundo
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Fliaraxá celebra Milton Santos e convida a repensar nosso lugar no mundo

Redação 8 min de leitura Ultimas Noticias

A 14ª edição do Festival Literário Internacional de Araxá (Fliaraxá) inicia nesta quinta-feira (14) na cidade mineira, localizada na região do Alto Parnaíba. O evento celebra o centenário do geógrafo Milton Santos, um dos maiores nomes da geografia brasileira, com o tema “Meu lugar no mundo”, e conta com a participação do escritor angolano José Eduardo Agualusa.

O Legado de Milton Santos e a Reflexão sobre o Mundo

“Pensar o mundo e o lugar de cada um nesse mundo” é um dos principais legados de Milton Santos, cujo centenário foi comemorado no último dia 3 de maio. O pensamento do geógrafo, reconhecido internacionalmente por sua obra crítica e inovadora, norteará toda a programação do Fliaraxá deste ano.

O tema central do festival, “Meu lugar no mundo”, parte de uma frase emblemática de Santos: “Ninguém pensa o mundo a partir do mundo. Cada um de nós, ao contemplar o universo, o faz a partir de um dado lugar”. Essa perspectiva central impulsiona discussões aprofundadas sobre identidade, pertencimento e os diversos encontros e histórias que moldam as trajetórias pessoais e coletivas. Para Milton Santos, o lugar transcende o espaço físico existente, abrangendo também a ideia de um mundo que pode vir a existir, um convite à construção de novas realidades.

Sua obra é pautada por uma leitura crítica da realidade, convidando a imaginar um processo de globalização que se dá por outros parâmetros, além dos hegemônicos, e a vislumbrar outros mundos possíveis. Essa visão não se limita ao campo da geografia, estendendo-se à literatura e à ficção como ferramentas de transformação e interpretação do real.

A trajetória de vida de Milton Santos, nascido no interior da Bahia, na região da Chapada Diamantina, e com passagens por Salvador, Ilhéus, França, Estados Unidos, Japão e Tanzânia, moldou sua percepção sobre a relatividade do “centro”. Ao retornar ao Brasil, viveu no Rio de Janeiro e em São Paulo, acumulando experiências que o levaram a refletir que o centro do mundo não precisa ser Nova York, Paris ou Tóquio, nem o centro do Brasil, Rio, São Paulo ou Brasília. Sua análise encoraja a compreensão de que a capacidade de olhar o mundo a partir de múltiplos lugares — físicos, culturais e metafóricos — é inerente a todos, democratizando a observação e a interpretação do universo.

A Visão de Nina Santos: Literatura e Novos Imaginários

Nina Santos, neta do geógrafo, destaca que uma das grandes contribuições da obra de seu avô é a possibilidade de “criar novos imaginários e novas perspectivas de mundo”. Essa abertura para o novo e para o inusitado conecta-se diretamente com o universo da literatura e da ficção, que permitem explorar realidades alternativas e expandir a compreensão humana.

Ela cita uma frase famosa de Milton Santos: “o mundo é composto não apenas pelo que existe, mas também pelo que pode existir”. Este convite à transformação e à imaginação de outras possibilidades dialoga intensamente com a literatura, que oferece um campo fértil para a experimentação de ideias e a construção de narrativas que desafiam o *status quo*.

Para Nina, não se trata apenas de ficção, mas da “nossa capacidade de interpretar, reinterpretar e construir novos mundos enquanto cidadãs, enquanto cidadãos”. A literatura, nesse sentido, é uma ferramenta essencial para a construção de novas realidades sociais e políticas, e para o exercício da cidadania crítica.

A influência de Milton Santos ressoa em diversas homenagens, como a lembrança de seu centenário pelo presidente Lula e uma mostra no Itaú Cultural, em São Paulo, que celebrou suas teorias sobre desigualdades e o papel do geógrafo negro na análise da realidade brasileira. Esses eventos reforçam a relevância contínua de seu pensamento para compreender os desafios contemporâneos.

José Eduardo Agualusa e o Lançamento de ‘Tudo sobre Deus’

O escritor angolano José Eduardo Agualusa é um dos homenageados do Fliaraxá deste ano. Autor de obras consagradas como “O vendedor de passados” e “A teoria geral do esquecimento”, Agualusa lança no festival seu mais recente livro, “Tudo sobre Deus”.

O livro é descrito pelo autor como uma resposta a inquietações pessoais, explorando temas profundos como a morte e a existência. Agualusa revela que a obra, que narra a história de um geólogo poeta que reflete sobre a vida ao descobrir que está morrendo, o ajudou a superar um período de doença vivenciado no ano anterior.

“Este é um livro muito diferente dos meus romances anteriores”, afirmou Agualusa. A narrativa se desenrola a partir do diário desse personagem, que se isola em uma capela isolada no deserto da Namíbia, no sul de Angola. O desafio de criar a poesia do personagem tornou “Tudo sobre Deus” o seu livro mais poético, conferindo-lhe uma dimensão artística e filosófica particular.

A Importância dos Festivais Literários no Brasil

Agualusa, que já participou de outras edições do Fliaraxá, expressa sua alegria em ser convidado para festivais literários no Brasil, destacando a oportunidade de encontro com os leitores. Ele acredita que o país tem evoluído significativamente na formação de leitores, e os festivais são cruciais para esse avanço cultural.

O encontro com o público é fundamental para o processo criativo do escritor. “Porque os leitores nos ensinam também a ler os nossos livros”, explica Agualusa. Ele defende que os livros possuem múltiplas camadas de significado, e a interação com os leitores ajuda a desvendá-las, tornando a escrita um aprendizado contínuo e dialógico.

Agualusa enfatiza que “os livros só começam a existir a partir do momento em que são lidos”, e que cada leitor interpreta a obra de uma forma única, enriquecendo-a com suas próprias experiências e perspectivas. A possibilidade de conversar com quem lê é, portanto, um valioso aprendizado para qualquer autor, enriquecendo o diálogo entre criador e público e fortalecendo a comunidade literária.

Os festivais literários, como o Fliaraxá, atuam como pontes essenciais entre autores e leitores, promovendo não apenas o lançamento de novas obras, mas também a troca de ideias e o fomento da cultura da leitura em diversas regiões do Brasil, descentralizando o acesso à literatura e à cultura.

Temas em Destaque no Fliaraxá

A 14ª edição do Fliaraxá aborda uma rica tapeçaria de temas, impulsionada pelo legado de Milton Santos. Os debates e encontros do festival se concentram em pontos cruciais para a compreensão do mundo contemporâneo:

Identidade e pertencimento: Explorando como o lugar molda a percepção individual e coletiva, e a busca por um sentido de “lar” em um mundo em constante mudança.
Globalização e múltiplos mundos: Discussões sobre uma globalização que se dá por outros parâmetros, além dos hegemônicos, e a possibilidade de construir modelos mais inclusivos e justos.
A literatura como ferramenta de transformação: O papel da ficção e da escrita na construção de novas realidades e imaginários, e como ela pode inspirar a mudança social e individual.
Reflexões sobre a vida e a morte: Abordagens filosóficas e existenciais trazidas pelas obras de autores como José Eduardo Agualusa, que convidam à introspecção e à compreensão dos ciclos da existência.
A valorização da perspectiva local: Entender que o “centro” pode ser qualquer lugar, e que todas as visões são válidas e enriquecedoras, promovendo a diversidade cultural e o respeito às singularidades regionais.

Perguntas Frequentes

Qual é o tema principal do 14º Fliaraxá?
O tema da 14ª edição do Fliaraxá é “Meu lugar no mundo”, inspirado na obra do geógrafo Milton Santos. Ele convida à reflexão sobre identidade, pertencimento e a capacidade de imaginar outros mundos possíveis a partir de diferentes perspectivas, conectando a geografia à experiência humana.

Quem é Milton Santos e qual seu legado para o festival?
Milton Santos foi um geógrafo brasileiro de renome internacional, cujo centenário foi celebrado em maio. Seu legado de pensar o mundo a partir de um dado lugar e sua visão crítica da globalização são a base conceitual para os debates do Fliaraxá, conectando geografia e literatura para explorar a complexidade do mundo contemporâneo.

Qual escritor angolano é destaque no Fliaraxá deste ano?
O escritor angolano José Eduardo Agualusa é um dos homenageados do Fliaraxá. Ele lança no festival seu novo livro, “Tudo sobre Deus”, que aborda questões existenciais e a importância da poesia em sua obra mais recente, proporcionando um diálogo profundo sobre vida e morte.


15 de maio de 2026|Fonte: Agência Brasil|Foto: Acervo Milton Santos/Divulgação|Redação: Redação|Fonte da Informação ↗

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