Secretários municipais de oito capitais brasileiras firmaram, nesta terça-feira (12), no Rio de Janeiro, um compromisso político crucial para fortalecer a prevenção das violências urbanas contra crianças e adolescentes. A assinatura da Carta do Rio por Cidades que Protegem Crianças e Adolescentes, ao final do Encontro de Secretários Municipais da Agenda Cidade Unicef, consolida a parceria estratégica entre os municípios e o Fundo das Nações Unidas para a Infância.
O Compromisso da Carta do Rio e a Agenda Unicef
A Carta do Rio representa um marco significativo na luta pela proteção da infância e adolescência em grandes centros urbanos. O documento foi assinado por representantes de Belém, Fortaleza, Manaus, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Luís e São Paulo, cidades que, juntas, abrigam mais de 7 milhões de crianças e adolescentes. Muitas dessas crianças vivem em regiões marcadas por profundas desigualdades sociais e exposição constante a cenários de violência.
A iniciativa faz parte da Agenda Cidade Unicef, um programa que visa apoiar os governos municipais na criação de um ambiente mais seguro e acolhedor para a população infantojuvenil. O encontro que culminou na assinatura reuniu cerca de 100 gestores das áreas de educação, saúde, assistência social e direitos humanos, evidenciando a natureza intersetorial e abrangente do compromisso firmado. A cooperação entre diversas secretarias é vista como fundamental para endereçar a complexidade das violências urbanas.
O compromisso firmado pelos municípios se estrutura em uma série de pontos essenciais para a proteção e o desenvolvimento de crianças e adolescentes. A Carta do Rio delineia diretrizes claras que visam aprimorar a atuação governamental e social.
Principais compromissos da Carta do Rio:
1. Fortalecimento da articulação intersetorial: Integração de políticas públicas em diversas áreas para uma resposta coordenada e eficaz contra a violência.
2. Priorização orçamentária: Alocação de recursos financeiros adequados para programas e ações voltadas especificamente para crianças e adolescentes.
3. Enfrentamento das desigualdades: Combate às disparidades raciais, territoriais e de gênero que impactam diretamente a vulnerabilidade de jovens.
4. Implementação de mecanismos que evitem a revitimização: Adoção de práticas e protocolos que protejam crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência, conforme previsto na Lei da Escuta Protegida.
A Urgência da Proteção: Dados e Desafios Urbanos
O Unicef destaca a urgência deste compromisso, evidenciada por um cenário alarmante. Entre 2021 e 2023, as oito capitais signatárias registraram mais de 2.200 mortes violentas de crianças e adolescentes. Além disso, milhares de casos de violência sexual foram notificados no mesmo período, sublinhando a gravidade do problema e a necessidade de ações coordenadas e efetivas. A violência urbana não é um fenômeno isolado, mas um conjunto de fatores que afetam diretamente a vida e o futuro de milhões de jovens.
A representante adjunta do Unicef no Brasil, Layla Saad, enfatizou que a assinatura da carta é uma decisão política estratégica diante da magnitude do problema. Para Saad, a violência urbana não é inevitável e pode ser transformada por meio de ações que desnormalizem a violência, promovam serviços públicos de qualidade e gerem oportunidades de vida. Proteger a infância, segundo o Unicef, vai além de um imperativo moral, sendo uma escolha estratégica que se concretiza em documentos como a Carta do Rio.
Essas capitais, com suas vastas populações infantojuvenis, enfrentam desafios complexos, incluindo a interrupção de serviços essenciais e o impacto do racismo estrutural. Tais fatores aprofundam ciclos de exclusão e comprometem a proteção integral de crianças e adolescentes, especialmente em contextos urbanos marcados pela violência armada. A Carta do Rio busca endereçar essas questões de forma holística.
Estratégias e o Papel da Primeira Infância
Um dos eixos centrais discutidos durante o encontro foi o fortalecimento de políticas voltadas à primeira infância, período que abrange do nascimento aos seis anos de idade. Esta etapa é reconhecida como decisiva para a prevenção de violências e para a construção de trajetórias de desenvolvimento mais saudáveis ao longo da vida. Crianças pequenas são particularmente vulneráveis aos impactos de contextos urbanos desiguais, onde a falta de acesso a serviços básicos e o racismo estrutural podem ter consequências duradouras.
As discussões também ressaltaram o papel fundamental da educação, da saúde e da assistência social na construção de respostas coordenadas às violências que atingem crianças e adolescentes. Em ambientes urbanos com alta exposição à violência armada, a interrupção desses serviços essenciais compromete severamente a proteção integral e aprofunda os ciclos de exclusão social. A articulação entre essas áreas é crucial para garantir que as crianças tenham acesso a um ambiente seguro e propício ao seu desenvolvimento.
O secretário municipal de Educação do Rio de Janeiro, Hugo Nepomuceno, compartilhou avanços resultantes da parceria com o Unicef na cidade. Ele destacou melhorias na saúde, especialmente na atenção primária, com indicadores significativamente melhores em comparação a 2021. Nepomuceno mencionou que sete unidades na Pavuna já foram certificadas como “Unidades Amigas da Primeira Infância”, e há planos para expandir essa experiência para outras comunidades, fortalecendo a atenção primária e servindo de inspiração para outras cidades.
Implementação da Lei da Escuta Protegida
Durante os debates, os gestores municipais também discutiram caminhos para fortalecer a implementação da Lei nº 13.431/2017, conhecida como Lei da Escuta Protegida. Esta legislação estabelece o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência, assegurando que o depoimento seja colhido de forma especializada, evitando a revitimização.
O foco da discussão foi aprimorar a articulação intersetorial entre as diferentes esferas de atendimento e qualificar os fluxos de acolhimento. A intenção é garantir que crianças e adolescentes que passam por situações de violência recebam um atendimento adequado, humanizado e integrado. A Carta do Rio reafirma o compromisso das capitais em estruturar mecanismos institucionais que assegurem essa proteção integral, priorizando o bem-estar e a dignidade das vítimas. A prevenção da revitimização é um pilar essencial para que as crianças possam superar traumas e ter um desenvolvimento saudável.
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Perguntas Frequentes
O que é a Carta do Rio por Cidades que Protegem Crianças e Adolescentes?
A Carta do Rio é um documento que consolida o compromisso político entre oito capitais brasileiras e o Unicef para fortalecer a prevenção das violências urbanas contra crianças e adolescentes. Ela estabelece diretrizes para aprimorar políticas públicas e garantir a proteção infantojuvenil.
Quais cidades assinaram o documento da Carta do Rio?
Oito capitais brasileiras assinaram a Carta do Rio: Belém, Fortaleza, Manaus, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Luís e São Paulo. Essas cidades se comprometem a implementar ações coordenadas para a proteção de crianças e adolescentes.
Qual a importância da Lei da Escuta Protegida no combate à violência?
A Lei da Escuta Protegida é fundamental porque estabelece um sistema especializado para a oitiva de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência, evitando que elas sejam revitimizadas. Ela garante um atendimento humanizado e integrado, protegendo a dignidade e o bem-estar da criança.