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Salvador sedia mais uma edição do Bembé do Mercado, a tradicional festa que representa o maior candomblé de rua do mundo. O evento anual, considerado um patrimônio vivo ancestral, reúne comunidades de terreiros, lideranças religiosas, artistas e pesquisadores para celebrar a cultura e a fé de matriz africana, com uma programação que se estende por vários dias.
A Origem Histórica e o Legado do Bembé
A festa do Bembé do Mercado teve sua primeira edição em 1889, um ano após a assinatura da Lei Áurea, marcando um profundo ato de celebração pela abolição da escravidão no Brasil. Este evento histórico estabeleceu as bases para uma manifestação cultural e religiosa que perdura até hoje, sendo um símbolo de resistência e fé para as populações negras. O babalorixá João de Obá é reconhecido como o fundador do Bembé, e a celebração se inicia tradicionalmente com uma missa em sua homenagem na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho.
A celebração, que começou oficialmente no último domingo, dia 10, com a missa dedicada a João de Obá, intensifica sua programação em Santo Amaro. Conforme Ana Rita Machado, professora da Universidade Estadual da Bahia (Uneb) e Iabé do Bembé, a festa se estende até domingo, dia 17, com rituais, xirês, cerimônias públicas e diversas atividades culturais. Ela explica que a preparação do Bembé envolve uma parte sigilosa e interna do candomblé, realizada de 8 a 15 dias antes, seguida pela fase pública.
Rituais e Significado Espiritual da Celebração
O Bembé do Mercado é uma expressão vibrante da espiritualidade de matriz africana, onde rituais e cerimônias públicas se entrelaçam com a vida da comunidade. Os participantes buscam a “fortuna” em seu sentido mais amplo, que abrange:
– Saúde plena e bem-estar.
– Prosperidade material e espiritual.
– Acesso a uma vida mais respeitosa e digna.
A programação dos rituais é cuidadosamente organizada, culminando em momentos de grande devoção. Na quarta-feira, dia 13, a lavagem do busto de João de Obá ocorreu por volta das 5h, um dos rituais mais aguardados, simbolizando reverência ao fundador. À noite, o xirê de abertura em honra a Xangô foi programado para as 20h. As cerimônias prosseguem nos dias seguintes:
– Quinta-feira: O xirê acontece no mesmo horário, às 20h, no Largo do Mercado.
– Sexta-feira: Às 6h, é realizado o ebó para Oxalá.
– Sábado: O xirê principal e a chegada dos presentes de Oxum e Iemanjá estão previstos para as 20h.
– Domingo: A entrega desses presentes na praia de Itapema ocorre à tarde, ajustada conforme a tábua de maré.
Ana Rita Machado enfatiza que, além de seu aspecto religioso, o Bembé do Mercado é uma festa que “traduz a experiência das populações negras em Salvador em relação às práticas que foram reelaboradas no Brasil, a partir da diáspora”. A celebração reúne mais de 60 comunidades tradicionais, reforçando a união e a identidade cultural.
O Reconhecimento do Bembé do Mercado como Patrimônio Cultural
A importância cultural e histórica do Bembé do Mercado transcende as fronteiras locais, alcançando reconhecimento em níveis nacional e internacional. Este evento, que representa um elo vital com as raízes africanas e a história brasileira, foi sucessivamente valorizado por órgãos de preservação.
O Bembé do Mercado foi oficialmente reconhecido como patrimônio imaterial da Bahia desde 2012. Posteriormente, em 2019, sua relevância foi elevada ao status de patrimônio cultural do Brasil. Essa trajetória de reconhecimento reflete a profunda contribuição da festa para a identidade cultural brasileira e a preservação de tradições ancestrais. Atualmente, a festa está em processo de candidatura para o reconhecimento como patrimônio da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), um passo que consolidaria ainda mais seu valor universal.
Este reconhecimento não apenas celebra a história e a fé do candomblé de rua, mas também destaca a resiliência e a riqueza da cultura afro-brasileira, assegurando que as futuras gerações possam continuar a vivenciar e valorizar essa manifestação única. A candidatura à Unesco sublinha a necessidade de proteger e promover a diversidade cultural do planeta, da qual o Bembé do Mercado é um exemplo brilhante.
Programação Detalhada e a Força da Comunidade
A programação do Bembé do Mercado é um mosaico de fé, arte e tradição. Desde os rituais mais internos e sigilosos até as cerimônias públicas que convidam a todos, cada etapa da festa é pensada para envolver a comunidade e honrar os orixás. A alvorada, que chama as pessoas para o mercado, marca o início da parte pública, seguida pela liturgia de consagração do barracão onde acontece o xirê principal.
A entrega de presentes a Iemanjá e Oxum, orixás femininas de grande importância na religiosidade africana, é um dos pontos altos da celebração. Esses presentes, cuidadosamente preparados, saem do mercado no domingo e são levados para a praia de Itapema, em um cortejo que simboliza a conexão com a natureza e o mar. Este gesto de devoção é um pedido de bênçãos, proteção e prosperidade para a comunidade. A união de mais de 60 comunidades tradicionais no Bembé do Mercado demonstra a força e a coesão da população negra de Salvador na manutenção de suas práticas culturais e religiosas, transmitindo um legado de resistência e esperança.
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Perguntas Frequentes
O que é o Bembé do Mercado?
O Bembé do Mercado é uma tradicional festa de candomblé de rua realizada anualmente em Salvador, Bahia. Considerado o maior evento do tipo no mundo, ele reúne comunidades de terreiros e celebra a cultura, a fé e a história afro-brasileira, com rituais e atividades culturais.
Qual a origem do Bembé do Mercado?
A festa surgiu em 1889, um ano após a abolição da escravidão no Brasil, como um ato de celebração da liberdade. Foi fundada pelo babalorixá João de Obá e desde então se estabeleceu como um patrimônio vivo ancestral.
Por que o Bembé do Mercado é considerado um patrimônio?
O Bembé do Mercado é reconhecido como patrimônio imaterial da Bahia desde 2012 e patrimônio cultural do Brasil desde 2019. Sua importância reside na preservação da memória, da cultura e da religiosidade de matriz africana, além de sua candidatura a patrimônio da humanidade pela Unesco.

