Professores, pais de alunos, sindicatos e parlamentares organizaram um ato em São Paulo neste sábado (18) para condenar a utilização de uma escola infantil municipal em uma produção audiovisual. A obra, da produtora Brasil Paralelo, é acusada de difamar a educação pública e o educador Paulo Freire, patrono da Educação Brasileira.
Mobilização na Praça Roosevelt
A manifestação, realizada em formato de aula pública, ocorreu na Praça Roosevelt, em frente à Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Patrícia Galvão (Pagu). Foi nesse local que a produtora gravou imagens para o filme “Pedagogia do Abandono”, ainda inédito. Os participantes expressaram preocupação com o uso de um espaço público para veicular conteúdo que consideram prejudicial à imagem do ensino e de uma figura central para a pedagogia nacional.
A escolha da Emei Patrícia Galvão como cenário gerou revolta entre a comunidade escolar. A diretora da instituição, Sandra Regina Bouças, utilizou suas redes sociais para questionar a gravação. Ela revelou ter sido surpreendida na véspera das filmagens ao descobrir que a Brasil Paralelo seria a responsável pela produção. Segundo Bouças, a produtora é conhecida por seu “caráter marcadamente ideológico”, com vídeos que “descaracterizam e objetificam o ensino público pejorativamente”. A autorização para as gravações partiu da prefeitura de São Paulo.
O Controverso Filme e a Produtora
O cerne da controvérsia reside na natureza do filme “Pedagogia do Abandono” e na reputação da Brasil Paralelo. Os manifestantes alegam que a obra tem como objetivo descreditar a educação pública e a figura de Paulo Freire. Paulo Freire, reconhecido mundialmente e Patrono da Educação Brasileira desde 2012, é conhecido por sua pedagogia crítica e libertadora, focada na autonomia e no diálogo. Suas ideias, como a “Pedagogia do Oprimido”, defendem uma educação que promova a reflexão e a transformação social, tornando-o uma referência no campo educacional.
A Brasil Paralelo é uma produtora de conteúdo identificada com a extrema-direita e já esteve envolvida em outras polêmicas. Um exemplo notável é o filme “A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha”, que levou dois colaboradores da produtora a serem tornados réus. A Justiça do Ceará aceitou denúncia do Ministério Público do estado por suspeita de participação em uma campanha de ódio contra Maria da Penha, símbolo da luta contra a violência doméstica no Brasil. Esse histórico contribui para a desconfiança em torno da nova produção e seus propósitos.
A Voz da Comunidade Escolar e Especialistas
A diretora da Emei Patrícia Galvão, Sandra Regina Bouças, não concedeu entrevistas à imprensa no local, mas reforçou a mensagem de que “Paulo Freire está presente” nas escolas, pensamentos e estudos, não apenas na Emei Pagu, mas em todo o Brasil. Em sua carta, Bouças expressou a percepção de que o projeto visa a “destruir a educação pública” e a imagem de Freire, questionando se haveria uma tentativa de promover a terceirização ou privatização da Educação Infantil como solução para uma educação de qualidade.
Denise Carreira, professora da Faculdade de Educação da USP (FEUSP) e educadora popular, também se manifestou. Ela alertou que a produção busca enfraquecer políticas públicas de cunho social, racial e a agenda de gênero. Carreira enfatizou a necessidade de defender a escola democrática, que promova uma educação transformadora baseada no pensamento de Paulo Freire. Eduarda Lins, mãe de uma aluna da Emei, elogiou o corpo docente da escola e criticou a produtora e a prefeitura. Lins expressou sua dor ao descobrir que um espaço público estava sendo cedido a uma empresa privada com “fins, no mínimo, obscuros”, e que está sob investigação do Ministério Público.
Autorização da Prefeitura e o Outro Lado
A Spcine, empresa de fomento ao audiovisual da prefeitura de São Paulo, informou que recebeu o pedido de gravação e, após análise técnica da SP Film Commission, responsável por processar e encaminhar tais solicitações, autorizou as filmagens. O órgão esclareceu que o procedimento é padrão e idêntico ao adotado para as 253 solicitações recebidas pelo município em 2026 até o momento. Somente no ano anterior, mais de mil gravações foram autorizadas na cidade.
A Spcine ressaltou, ainda, que a checagem de aspectos legais, como o uso de imagem e a participação de menores, é de responsabilidade exclusiva dos produtores. A Agência Brasil, fonte original desta reportagem, procurou a produtora Brasil Paralelo para obter um posicionamento sobre o ocorrido, mas não recebeu resposta até o fechamento da matéria.
O Debate em Torno da Educação
O incidente na Emei Patrícia Galvão reflete um debate ideológico mais amplo sobre a educação no Brasil. A figura de Paulo Freire, embora consagrada, frequentemente se torna alvo de críticas e revisionismos por grupos conservadores. Essa disputa se manifesta em diversas frentes, desde discussões sobre o Plano Nacional de Educação, que prevê investimentos significativos, até declarações sobre modelos de ensino, como a posição do presidente Lula contra escolas cívico-militares.
A valorização da educação pública, a inclusão social e o legado de educadores como Freire continuam sendo temas centrais na agenda política e social do país. A controvérsia em São Paulo ressalta a importância de um olhar atento sobre o conteúdo produzido e veiculado, especialmente quando envolve espaços e símbolos públicos da educação.
Perguntas Frequentes
1. Quem é Paulo Freire e qual sua importância para a educação brasileira?
Paulo Freire foi um educador e filósofo brasileiro, nascido em 1921, reconhecido mundialmente por sua pedagogia crítica e libertadora. Ele é Patrono da Educação Brasileira e autor de obras influentes como “Pedagogia do Oprimido”. Sua metodologia enfatiza o diálogo, a conscientização e a autonomia dos estudantes, visando à transformação social.
2. O que é a Brasil Paralelo e por que sua participação gerou controvérsia?
A Brasil Paralelo é uma produtora de conteúdo audiovisual identificada com a extrema-direita. Sua participação na gravação de um filme sobre Paulo Freire e a educação pública gerou controvérsia porque a comunidade escolar e especialistas acusam a produtora de ter uma agenda ideológica que visa difamar esses temas, além de já ter sido envolvida em polêmicas legais em produções anteriores.
3. Qual o papel da Spcine na autorização de filmagens em espaços públicos de São Paulo?
A Spcine é o órgão da prefeitura de São Paulo responsável por fomentar o audiovisual. Através da SP Film Commission, ela recebe, analisa tecnicamente e autoriza pedidos de filmagem em espaços públicos, seguindo um procedimento padrão. No entanto, a responsabilidade pela checagem de aspectos legais do conteúdo e uso de imagens recai sobre os produtores.