Unifesp identifica cela do DOI-Codi onde Herzog foi forjado morto
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Unifesp identifica cela do DOI-Codi onde Herzog foi forjado morto

Redação 5 min de leitura Ultimas Noticias

Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificaram a cela específica no antigo Departamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) de São Paulo onde o suicídio do jornalista Vladimir Herzog foi forjado pela ditadura militar em 1975, revelando um marco histórico e jurídico. A descoberta, fruto de uma pesquisa aprofundada, estabelece o local exato de um dos crimes mais emblemáticos do regime militar no Brasil. A equipe utilizou uma metodologia que combinou evidências documentais, periciais e arquitetônicas, confirmando uma fraude de estado que permaneceu envolta em incertezas por décadas.

Vladimir Herzog foi torturado e assassinado em 25 de outubro de 1975, nas instalações do DOI-Codi paulista, um dos principais órgãos de repressão da ditadura militar, subordinado ao Exército e ativo entre 1969 e 1983. A versão oficial, na época, alegava suicídio, mas foi amplamente contestada por evidências de tortura e pela incongruência da cena fotografada. A identificação dessa cela agora reforça a verdade histórica sobre os métodos da repressão e a sistemática violação dos direitos humanos.

A Reconstrução da Verdade

A doutora em história e pós-doutoranda na Unifesp, Deborah Neves, líder da pesquisa, sublinha a relevância histórica e jurídica da localização. Segundo ela, “localizar materialmente o espaço onde a ditadura encenou o falso suicídio de Vladimir Herzog permite demonstrar, com base em evidências científicas, a materialidade de fraudes cometidas por agentes do Estado”. A preservação das características estruturais do prédio, que atualmente abriga a 36ª Delegacia de Polícia na Rua Tutóia, 921, foi crucial para o sucesso da investigação.

O estudo apontou que Herzog foi pendurado em uma cela no primeiro andar, localizada no prédio dos fundos do conjunto. Essa cela foi confirmada como o cenário da fotografia divulgada na época, que mostrava o corpo de Vlado pendurado pelo pescoço por uma espécie de cinto, com os pés arrastando no chão e os joelhos dobrados, em uma posição incompatível com o suicídio. Elementos construtivos, como o ponto de fixação de um ferrolho visível nas imagens de 1975, foram identificados na alvenaria atual da cela. A comparação do padrão gráfico dos tacos no piso da cela em fotos históricas com o que ainda existe no local também revelou uma correspondência precisa.

Provas e Contradições

A pesquisa analisou laudos periciais e depoimentos, incluindo os do fotógrafo Silvaldo Leung Vieira, responsável por registrar a cena forjada. Uma das dificuldades na confirmação do local residia nas descrições dos peritos, que, no caso Herzog, não coincidiam com os elementos visíveis na fotografia. O laudo, por exemplo, mencionava uma janela do modelo vitrô, enquanto a imagem mostrava apenas blocos de vidro.

Um elemento decisivo para a pesquisa surgiu no livro “A Casa da Vovó: uma biografia do DOI-Codi”, de Marcelo Godoy. A obra detalha a morte do tenente da Polícia Militar José Ferreira de Almeida, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que também foi preso, torturado e teve o suicídio forjado no DOI-Codi, dois meses antes de Herzog, em agosto de 1975. Deborah Neves notou a semelhança impressionante entre as posições em que Almeida e Herzog foram fotografados.

A descoberta de que uma perícia havia sido realizada no prédio no caso de Almeida levou a pesquisadora a buscar o laudo correspondente. “Quando eu achei o laudo do José Ferreira de Almeida, as coisas foram se encaixando. A descrição [da cela] era muito fiel, dizia ter bloco de vidro nas janelas”, relatou Neves. Essa descrição detalhada do laudo de Almeida corrigiu as inconsistências e permitiu a correta identificação dos elementos da cela de Herzog.

A Cela Especial Número 1

Os laudos periciais de José Ferreira de Almeida e Vladimir Herzog, ambos, apontam que os corpos foram encontrados na “cela especial número 1”. Essa informação foi crucial para a identificação final do local onde o corpo de Herzog foi pendurado. “Almeida e o Herzog foram [encontrados] na mesma cela. E é só por meio dessa informação, que está presente no laudo [do tenente] – que é uma pessoa cuja a morte não teve a repercussão que teve o Herzog – que a gente conseguiu chegar à conclusão sobre a cela do Herzog”, explicou a pesquisadora.

A pesquisa representa um avanço significativo na compreensão e na documentação dos crimes da ditadura militar no Brasil. A identificação da “cela especial número 1” não apenas resolve um mistério de décadas, mas também oferece um testemunho material e inegável das fraudes e atrocidades cometidas pelo Estado. A preservação do local, garantida pelo tombamento, e o contínuo trabalho de universidades públicas através de pesquisas históricas, arqueológicas e arquitetônicas, são essenciais para que a memória seja mantida e a verdade prevaleça, mesmo após mais de 50 anos dos eventos trágicos.

Perguntas Frequentes

O que foi identificado pela pesquisa da Unifesp?
A pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificou a cela específica no antigo DOI-Codi de São Paulo onde o suicídio do jornalista Vladimir Herzog foi forjado em 1975 pela ditadura militar.

Qual a importância dessa identificação?
A identificação tem relevância histórica e jurídica, pois demonstra, com base em evidências científicas, a materialidade das fraudes e crimes cometidos por agentes do Estado durante a ditadura militar, reforçando a verdade sobre a morte de Herzog.

Como a pesquisa conseguiu identificar a cela?
A equipe utilizou uma metodologia multidisciplinar que combinou análises de evidências documentais, laudos periciais, características arquitetônicas do local e a comparação com o caso similar de José Ferreira de Almeida, que também teve seu suicídio forjado na mesma “cela especial número 1”.


1 de abril de 2026|Fonte: Agência Brasil|Foto: Unifesp/Divulgação|Redação: Fabio Silva|Fonte da Informação ↗

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