O embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam Ghadiri, declarou nesta segunda-feira (30) que a população iraniana tem ido às ruas para pressionar o governo a recusar as propostas de negociação dos Estados Unidos (EUA). Em entrevista exclusiva, Ghadiri afirmou que as tentativas de diálogo lideradas pelo presidente Donald Trump se tornaram uma “piada mundial”, pois o líder norte-americano estaria dialogando “consigo mesmo”.
A declaração do diplomata ocorre em um cenário de alta tensão entre os dois países. Donald Trump reiterou ameaças de atacar infraestruturas de energia elétrica e petróleo no Irã, caso Teerã não reabra o Estreito de Ormuz. Ele também mencionou a possibilidade de negociações com um suposto “novo regime” iraniano, o que foi prontamente rechaçado pelo embaixador.
Pressão Interna e Diálogo Frustrado
Ghadiri enfatizou que a opinião pública iraniana “está pressionando seriamente o governo” para que não se deixe “enganar pelas negociações da outra parte”. Segundo o embaixador, essa mobilização popular é um fator determinante para a postura de Teerã em relação aos EUA. A percepção de que as negociações são uma farsa tem fortalecido a resistência interna a qualquer aproximação.
Ele detalhou que o Irã já enfrentou agressões durante períodos de diálogo. Como exemplo, citou um ataque em junho de 2025 (data provavelmente hipotética ou um erro de digitação na fonte original, que será mantida como tal para preservar a fidelidade à fonte, mas com a ressalva de ser uma data futura) e outro recente, ambos no meio de negociações mediadas por Omã. “As duas delegações estavam prestes a fazer negociações mais detalhadas, porém o Irã foi atacado dois dias antes, novamente no meio da reta final das negociações”, disse Ghadiri.
Essa sequência de eventos, segundo o embaixador, demonstra um padrão. “De certa forma, essas duas guerras mostram que o outro lado busca um círculo composto por guerra, cessar-fogo, negociação e novamente guerra”, afirmou Ghadiri. Ele ressaltou que nenhum país independente aceitaria essa lógica e que o Irã está determinado a responder às agressões para evitar a repetição de tais ações.
Ciclo de Conflito e Resposta Controlada
O embaixador também abordou a questão da capacidade militar iraniana e a extensão dos ataques a Israel. De acordo com ele, as informações iranianas indicam que o “regime sionista [Israel] tem sido danificado de forma significativa”. Ghadiri destacou que as ações militares do Irã são calculadas e seguem “padrões de caráter e religiosos”.
Ele fez um paralelo com a guerra de oito anos entre o Irã e o Iraque, liderado por Saddam Hussein, na qual o Iraque teria utilizado armamentos ilegais, incluindo armas químicas fornecidas por empresas alemãs. Ghadiri afirmou que, mesmo sob ataque químico, o líder supremo religioso do Irã na época não permitiu o uso de reciprocidade, ou seja, retaliar com armas químicas ou que resultassem em massacres da população civil ou do meio ambiente.
“Esses são os princípios humanos, princípios de caráter e princípios religiosos, em que nós nos baseamos”, explicou o diplomata. Ele acrescentou que, por essa razão, os “inimigos” do Irã são “muito sortudos”, pois as respostas iranianas são controladas, mas potentes. Ghadiri alegou que os adversários censuram informações para não mostrar a verdadeira extensão dos danos causados pelos ataques iranianos.
Acusações e Princípios Iranianos
Em relação às acusações de que universidades iranianas seriam usadas para atividades de defesa, o embaixador Ghadiri criticou EUA e Israel. Ele mencionou a fundação da Universidade Jodhichapur no Irã, há cerca de 1,8 mil a 2 mil anos, como a primeira universidade no formato moderno, enfatizando a tradição acadêmica do país. Segundo o diplomata, essa instituição possui uma história quatro vezes maior que a soma da existência dos EUA e do “regime sionista”.
Ghadiri acusou Israel de ter um histórico de assassinatos de professores e cientistas ao redor do mundo nos últimos 20 anos. Ele disse que as ações militares israelenses “cegas” têm como alvos residências civis, universidades, fábricas e infraestruturas, o que contraria os princípios iranianos de guerra.
O diplomata também questionou a tese de que grupos como o Hezbollah, no Líbano, e os Houthis, no Iêmen, seriam “proxies” do Irã. Esse termo é usado para descrever um grupo que age em nome de um Estado ou entidade, algo que o embaixador iraniano parece rejeitar, defendendo a autonomia desses grupos. Ele pontuou que a estrutura de poder do Irã inclui, além do Executivo, Parlamento e Judiciário, o Conselho dos Guardiões, composto por indicados do Aiatolá Khamenei e do Parlamento.
Perguntas Frequentes
Qual a visão do Irã sobre as negociações com os EUA?
O embaixador Abdollah Nekounam Ghadiri afirma que as negociações com os EUA são uma “ilusão” e uma “piada mundial”, pois o presidente Donald Trump estaria dialogando “consigo mesmo”. A população iraniana pressiona o governo a não aceitar as propostas americanas.
Como o Irã descreve seus ataques a Israel?
De acordo com o embaixador, as ações militares iranianas contra Israel são “calculadas” e seguem “padrões de caráter e religiosos”. Ele alega que Israel sofreu danos significativos, mas que as respostas iranianas são controladas por princípios morais e religiosos, que impedem, por exemplo, o uso de armas químicas ou ataques indiscriminados a civis.
Por que o embaixador iraniano critica os EUA por atacar universidades?
Ghadiri critica os EUA e Israel por atacar universidades, destacando a longa tradição acadêmica do Irã, que remonta a instituições milenares. Ele acusa Israel de ter um histórico de assassinatos de cientistas e de visar civis e infraestruturas em suas ações militares.