A jornalista e ativista Maria Amélia de Almeida Teles, Amelinha Teles, denunciou que mulheres perdem o direito de ir e vir devido à crescente violência contra mulheres. São Paulo registrou 270 feminicídios em 2025, um recorde histórico. Essa realidade compromete um direito fundamental garantido pela Constituição brasileira. A declaração foi feita durante audiência pública em São Paulo.
Amelinha Teles, militante feminista da União de Mulheres de São Paulo, expressou profunda preocupação com a insegurança. Ela destacou que a situação é particularmente grave no estado de São Paulo, que tem batido recordes alarmantes de feminicídio. A ativista enfatizou que a perda do direito de ir e vir é uma consequência direta dessa onda de violência.
Aumento da violência contra mulheres em São Paulo
O estado de São Paulo atingiu um marco alarmante em 2025, registrando o maior número de vítimas de feminicídio desde que a série histórica começou a ser compilada em 2018. Neste período, foram contabilizados 270 assassinatos de mulheres motivados por violência de gênero. Esse número representa um aumento preocupante de 6,7% em comparação com o ano anterior, 2024, quando 253 casos foram registrados em todo o território paulista. A escalada da violência reflete-se na sensação de insegurança que atinge a população feminina, especialmente na capital paulista e cidades vizinhas.
A jornalista relatou o medo que se instalou entre as mulheres. “Ficamos com medo de sair. Estamos até fazendo grupos para sair, porque, sozinha, está difícil”, acrescentou Amelinha. Essa prática de criar grupos para locomoção é um sintoma claro da diminuição da liberdade e autonomia das mulheres em seu dia a dia. A sociedade civil organizada tem alertado para a urgência de medidas mais eficazes para reverter esse cenário de crescente intimidação e risco.
Amelinha Teles participou, na última sexta-feira (6), da Audiência Pública Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher. O evento foi realizado pela Promotoria de Justiça de Enfrentamento à Violência Doméstica da Capital, ligada ao Ministério Público de São Paulo (MPSP). Na ocasião, a ativista citou dados da pesquisa “Viver nas Cidades: Mulheres”. O levantamento, realizado em dez capitais brasileiras pelo Instituto Cidades Sustentáveis e pela Ipsos-Ipec, revelou números preocupantes. Sete em cada dez mulheres entrevistadas relataram já ter sofrido algum tipo de assédio, seja moral ou sexual, em ambientes urbanos.
Há 20 anos, com a Lei Maria da Penha completando duas décadas de existência, a esperança era de um cenário diferente. “Lembro que, há 20 anos, a gente falava assim: agora a mulher que denunciar, que procurar os serviços, não vai ser morta, porque vai ter proteção, tem medidas concretas para evitar essa morte”, relatou Amelinha. No entanto, ela lamenta que essa expectativa não se concretizou. O cenário atual da violência contra mulheres mostra que a proteção ainda é insuficiente, e muitas vidas continuam sendo ceifadas.
Desafios na proteção e fiscalização
A proteção às mulheres vítimas de violência ainda é um desafio significativo no Brasil. A ativista Amelinha Teles apontou que, mesmo aquelas que possuem medidas protetivas deferidas pela Justiça, estão morrendo. Esta é uma falha grave no sistema de segurança pública e justiça. Os números corroboram essa denúncia, revelando a urgência de aprimorar os mecanismos de proteção existentes.
Um levantamento recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgado na semana passada, reforça essa preocupação. Na cidade de São Paulo, uma em cada cinco vítimas de feminicídio (21,7%) tinha medida protetiva em vigor. De setembro de 2023 a março de 2025, foram registradas 83 vítimas na capital paulista, das quais 18 haviam obtido Medida Protetiva de Urgência (MPU). Essa estatística é alarmante e indica lacunas na fiscalização e efetividade dessas medidas.
Em uma análise mais ampla, considerando o total de 1.127 feminicídios estudados pelo FBSP em 16 unidades da federação, 148 mulheres (13,1%) foram assassinadas apesar de terem uma MPU vigente. “Está faltando fiscalização, acompanhamento”, disse Amelinha Teles. Ela defendeu a necessidade de um serviço qualificado, com pessoal treinado para atender e acompanhar cada caso de perto. A ausência de um suporte contínuo e especializado compromete a segurança das vítimas.
Isolamento do movimento e serviços sucateados
A jornalista também denunciou o isolamento do movimento feminista por parte do poder público no combate à violência de gênero. “Está faltando democracia nesse estado e nessa cidade”, afirmou. A falta de diálogo e de investimento nas organizações da sociedade civil fragiliza a rede de apoio e enfrentamento à violência. Essa lacuna é sentida diretamente pelas mulheres que buscam ajuda, evidenciando a necessidade de uma abordagem mais integrada e participativa.
Amelinha Teles ressaltou que as mulheres estão com medo de procurar os serviços de proteção e assistência. “Elas falam pra gente, porque os serviços estão sucateados, com pouquíssimos funcionários frente à demanda”, explicou. A precarização desses serviços, que deveriam ser um porto seguro, acaba afastando as vítimas em um momento de extrema vulnerabilidade. A ativista, como militante do movimento social, trouxe essas preocupações para a audiência pública, reafirmando a importância de ouvir a sociedade civil organizada para construir soluções eficazes e duradouras.
A Agência Brasil, responsável pela reportagem original, solicitou um posicionamento ao governo de São Paulo sobre as denúncias apresentadas. No entanto, não obteve retorno até o fechamento desta reportagem. A ausência de resposta oficial reforça a percepção de falta de engajamento e prioridade na agenda de combate à violência contra mulheres e proteção dos direitos femininos. A sociedade espera por ações concretas e um compromisso mais efetivo das autoridades.
Perguntas Frequentes
O que Amelinha Teles denunciou sobre a violência contra mulheres?
Amelinha Teles denunciou que mulheres estão perdendo o direito fundamental de ir e vir no Brasil devido à crescente violência de gênero, especialmente em São Paulo, que registrou um recorde de feminicídios.
Quantos feminicídios foram registrados em São Paulo em 2025?
O estado de São Paulo registrou 270 feminicídios em 2025, o maior número desde o início da série histórica em 2018, representando um aumento de 6,7% em relação a 2024.
Medidas protetivas são eficazes na proteção das vítimas?
Segundo levantamento do FBSP, 21,7% das vítimas de feminicídio na cidade de São Paulo e 13,1% das vítimas em 16 UFs tinham medida protetiva, indicando que a proteção é insuficiente e falha na fiscalização e acompanhamento.