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Pix brasileiro desafia controle dos EUA e amplia soberania nacional

Por Bruno Sampaio | Atualizado em 21/07/2026 às 12:41
Leitura: 6 Min
Última Atualização: 21 de julho de 2026, às 12:41

O sistema Pix do Brasil emergiu como um dos principais alvos do governo dos Estados Unidos, segundo especialistas, por representar um desafio direto ao controle financeiro de Washington sobre a infraestrutura de pagamentos eletrônicos brasileira e global. Essa avaliação, baseada em análises de profissionais da economia e relações internacionais, aponta para motivações majoritariamente geopolíticas por trás das preocupações americanas.

A inclusão do Pix entre as justificativas para o tarifaço de 25% imposto pelo governo de Donald Trump na época não seria primariamente uma questão de concorrência econômica com empresas americanas como Visa, Mastercard ou WhatsApp Pay. Em vez disso, a medida refletiria uma estratégia mais ampla para manter a influência de Washington sobre sistemas financeiros ao redor do mundo.

Geopolítica por Trás do Alerta dos EUA

O professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Maicon Cláudio da Silva, enfatiza que as ações contra o Pix estão diretamente ligadas à diminuição do poder e controle dos EUA sobre o sistema financeiro brasileiro. Para ele, tais iniciativas demonstram a relutância americana em perder sua hegemonia financeira global. Um exemplo notável é a China, que desenvolveu sistemas de pagamentos próprios, como AliPay e WeChat Pay, justamente para garantir maior autonomia e soberania.

A dependência de sistemas de pagamentos globais, muitas vezes controlados ou influenciados pelos Estados Unidos, confere a Washington uma ferramenta poderosa para exercer pressão política e econômica. A criação e o sucesso de um sistema nacional robusto como o Pix representam um passo significativo para a independência financeira de um país.

Pix: Ferramenta de Soberania e Inclusão Financeira

Lançado pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2020, o Pix rapidamente transformou o cenário de pagamentos no país. Sua natureza de transação instantânea, gratuita para pessoas físicas e disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana, facilitou a vida de milhões de brasileiros. Além de simplificar as transações cotidianas, o sistema teve um papel crucial na bancarização de uma parcela significativa da população que antes operava predominantemente com dinheiro em espécie.

Essa maior inclusão financeira, paradoxalmente, também gerou ganhos econômicos para empresas estrangeiras que atuam no Brasil. Com o aumento do uso de pagamentos digitais, o volume de transações por cartões, por exemplo, também cresceu. Dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) indicam que, na esteira da expansão do Pix, os cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões em 2025, um crescimento de 10,1%.

No entanto, as preocupações americanas vão além das perdas econômicas imediatas. O professor Maicon Cláudio da Silva aponta que, dado o superávit comercial dos EUA com o Brasil, um tarifaço tende a prejudicar mais as empresas americanas. Isso sugere que os interesses econômicos imediatos são secundários a uma estratégia de exercer poder através de sanções e tarifas, pressionando países a se alinharem aos interesses de Washington.

O professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), Ronaldo Carmona, reforça que o Pix se consolidou como um instrumento de poder para o Brasil. Ele amplifica a soberania econômica e financeira da nação ao permitir transações e comércio exterior bilateral em moedas nacionais, reduzindo a dependência do dólar. Essa autonomia diminui a submissão à arbitragem (o processo de compra e venda de moedas para lucrar com diferenças de preço) e à senhoriagem (a receita que um governo obtém pela emissão de moeda), que historicamente favorecem a moeda americana.

O Banco Central do Brasil tem promovido a cooperação técnica para a implementação de sistemas similares ao Pix em outros 47 países. Essa expansão global, citada por Carmona, pode fragilizar ainda mais o controle de Washington sobre as transações financeiras em diversas partes do mundo.

Benefícios do Pix para a Soberania Brasileira:

* Facilita a bancarização e inclusão financeira da população.
* Reduz a dependência de sistemas de pagamentos estrangeiros.
* Permite transações instantâneas e gratuitas, impulsionando a economia local.
* Fortalece a autonomia do país em negociações e comércio exterior bilateral.
* Oferece uma alternativa a sanções financeiras internacionais.

Europa e a Busca por Autonomia Digital

Sistemas de pagamentos nacionais, como o Pix, possuem uma capacidade crucial de limitar a aplicação de sanções econômicas impostas pelos EUA contra instituições ou indivíduos. Diferentemente dos sistemas americanos, que frequentemente acatam as sanções da Casa Branca, plataformas com sede nacional podem operar fora desse escopo.

Ronaldo Carmona exemplifica essa situação com casos notórios. As sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e o prolongado bloqueio econômico a Cuba ilustram como Washington projeta poder sobre países soberanos por meio de bloqueios financeiros. No caso cubano, o avanço do bloqueio levou Visa e Mastercard a cessarem suas operações na ilha, demonstrando como o controle dos meios de pagamento confere aos EUA a capacidade de impor sanções econômicas a qualquer momento.

A busca por soberania financeira não é exclusiva do Brasil. A revista inglesa The Economist publicou um artigo, dias antes do anúncio do tarifaço contra o Brasil, destacando como o Pix e outras iniciativas da União Europeia (UE) ameaçam a “supremacia” financeira dos EUA. A publicação alertou que a ascensão de sistemas “soberanos”, especialmente na Europa – uma fonte significativa dos negócios internacionais da Visa e Mastercard –, poderia corroer as margens operacionais dessas empresas, que chegam a mais de 50%.

Recentemente, a UE anunciou o Euro Digital, um sistema de pagamentos eletrônicos com características semelhantes ao Pix: gratuito, público e com previsão de lançamento de um projeto-piloto em 2027. A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, não hesitou em afirmar que o objetivo é justamente garantir maior autonomia e reduzir a dependência de sistemas e moedas estrangeiras, reforçando a tendência global de países e blocos econômicos buscarem maior controle sobre suas próprias infraestruturas financeiras.

Perguntas Frequentes

Por que o Pix se tornou um alvo dos Estados Unidos?

O Pix é visto pelos Estados Unidos como um desafio ao seu controle financeiro global. Especialistas apontam que a preocupação é mais geopolítica do que econômica, pois o sistema brasileiro promove a soberania e a autonomia financeira do Brasil, reduzindo a dependência de plataformas e da moeda americana.

Como o Pix contribui para a soberania do Brasil?

O Pix fortalece a soberania brasileira ao permitir que o país realize transações internas e, potencialmente, comércio exterior em moedas nacionais, sem a intermediação de sistemas controlados pelos EUA. Isso limita a capacidade de Washington impor sanções e reduz a dependência da arbitragem e senhoriagem do dólar.

O que são sanções econômicas e como o Pix pode ajudar a contorná-las?

Sanções econômicas são medidas restritivas impostas por um país, geralmente os EUA, para pressionar outras nações ou entidades. Sistemas de pagamentos globais, como Visa e Mastercard, costumam cumprir essas sanções. O Pix, sendo um sistema nacional, oferece uma alternativa para que instituições e indivíduos continuem suas operações sem serem diretamente afetados por essas restrições.

O que é o Euro Digital e qual sua relação com o Pix?

O Euro Digital é um projeto da União Europeia para criar um sistema de pagamentos eletrônicos semelhante ao Pix. Ele visa oferecer acesso gratuito e público, com o objetivo de aumentar a soberania financeira da Europa e reduzir sua dependência de sistemas de pagamentos e da moeda dos Estados Unidos, seguindo uma tendência global de busca por autonomia digital.


21 de julho de 2026|Fonte: Agência Brasil|Foto: Agência Brasil|Redação: Bruno Sampaio|Fonte da Informação ↗

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