Os Estados Unidos realizam audiências nesta semana em Washington, investigando supostas práticas comerciais desleais do Brasil. A pauta inclui desde tarifas e comércio digital, como o Pix, até questões como desmatamento e trabalho análogo à escravidão, podendo gerar sobretaxas.
Duas audiências públicas importantes estão em andamento, promovidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, do nome original em inglês). O objetivo é apurar se as políticas e ações brasileiras prejudicam os interesses comerciais norte-americanos. A primeira audiência, que discute a possibilidade de sobretaxar em 25% uma série de produtos exportados pelo Brasil, teve início na segunda-feira (6) e se encerra nesta terça (7).
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Práticas Brasileiras Sob Escrutínio de Washington
Nesta fase inicial, o USTR está analisando “atos, políticas e práticas brasileiras” em seis áreas distintas. Essa abrangência demonstra a complexidade das relações comerciais bilaterais e a profundidade da investigação conduzida pelos norte-americanos. As áreas em questão são:
– Comércio digital e serviços de pagamento eletrônico (Pix): O sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, que revolucionou as transações financeiras no país, é avaliado por suas implicações para o mercado digital e a concorrência.
– Tarifas preferenciais: A revisão de regimes tarifários específicos pode impactar a competitividade de produtos brasileiros no mercado estadunidense.
– Combate à corrupção: Práticas de governança e integridade são cruciais para o ambiente de negócios e frequentemente são monitoradas em acordos comerciais.
– Proteção da propriedade intelectual: A defesa de patentes, marcas e direitos autorais é um pilar para a inovação e o comércio internacional, com os EUA frequentemente levantando preocupações neste setor.
– Acesso ao mercado de etanol: Historicamente, a disputa sobre barreiras comerciais para o etanol tem sido um ponto sensível entre os dois países.
– Desmatamento ilegal: A questão ambiental, especialmente o desmatamento, tem ganhado relevância em discussões comerciais globais, com países buscando alinhar cadeias de produção a padrões de sustentabilidade.
A segunda audiência pública, que começou hoje, é ainda mais ampla, abrangendo 60 nações, incluindo o Brasil. Esta etapa foca em supostas falhas no combate ao trabalho análogo à escravidão e na proibição à exportação de bens produzidos com trabalho forçado. As discussões sobre este tema são esperadas para se estender por três dias, com conclusão prevista para quinta-feira (9).
Entenda a Seção 301 e o Papel do USTR
As audiências em Washington são parte de um processo de consultas formais. Representantes de setores produtivos, governos dos países investigados e empresas estadunidenses supostamente afetadas pelas práticas comerciais em análise participam ativamente. Essas investigações são fundamentadas na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos de 1974.
A Seção 301 é uma ferramenta legal que concede ao governo norte-americano o poder de investigar práticas comerciais de outras nações. Ela permite que os Estados Unidos tomem medidas unilaterais, como a imposição de tarifas ou outras restrições, caso considerem que tais práticas são desleais ou prejudiciais aos seus interesses. Historicamente, essa seção tem sido usada em diversas disputas comerciais globais, conferindo um peso significativo às investigações do USTR.
As investigações atuais, que embasam as audiências, foram instauradas em momentos distintos: a primeira em julho de 2025 e a segunda em março de 2026. Dezenas de entidades e empresas, tanto brasileiras quanto estadunidenses, manifestaram interesse em participar. Entre os inscritos para as audiências que tratam especificamente das práticas brasileiras, destacam-se a Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o Conselho Brasileiro de Exportadores de Café (Cecafé), a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) e a Embraer. O senador Flávio Bolsonaro também se inscreveu e será ouvido ainda hoje.
Implicações do Trabalho Análogo à Escravidão no Comércio
A acusação de que dezenas de países se beneficiam comercialmente de trabalho forçado e degradante em setores econômicos importantes, barateando seus custos de produção, é uma questão grave no cenário comercial global. A Associação Brasileira de Rochas Naturais (Centrorochas) e o Sindicato da Indústria do Ferro de Minas Gerais (Sindifer) se inscreveram para participar das audiências focadas neste tema.
O trabalho análogo à escravidão é uma violação de direitos humanos fundamentais e é condenado por organizações internacionais. Quando produtos fabricados sob essas condições entram no mercado global, criam uma concorrência desleal, pois seus custos de produção são artificialmente baixos. Muitos países desenvolvidos têm implementado legislações rigorosas para proibir a importação de bens produzidos com trabalho forçado, buscando garantir padrões éticos e sociais nas cadeias de suprimentos. A investigação do USTR reflete essa preocupação global e pode levar a restrições significativas para as nações envolvidas.
Impacto Econômico e Resposta Brasileira
A Centrorochas, em nota, antecipou sua estratégia para as audiências. A entidade busca demonstrar que a imposição de sobretaxas na importação de rochas naturais brasileiras teria consequências negativas não apenas para as empresas estadunidenses que dependem dessa matéria-prima, mas para toda a economia dos Estados Unidos. A associação conta com o apoio de importantes organizações norte-americanas, como o Natural Stone Institute (NSI), a principal entidade da cadeia produtiva de rochas naturais no país.
Os Estados Unidos representam o principal mercado internacional para as rochas naturais exportadas pelo Brasil. Somente no ano passado, as vendas brasileiras para o país totalizaram US$ 795 milhões, movimentando aproximadamente 587 mil toneladas de materiais. Esses materiais são usados principalmente na fabricação de bancadas de cozinha e banheiro, revestimentos e outras aplicações residenciais e comerciais de alto padrão.
Para Fábio Cruz, vice-presidente da Centrorochas, a aplicação de novas tarifas comprometeria a competitividade das próprias empresas estadunidenses que utilizam a matéria-prima brasileira. Ele argumenta que “As rochas naturais brasileiras não representam uma ameaça à produção doméstica americana. Pelo contrário, complementam uma cadeia produtiva que gera empregos, investimentos e renda em diversos estados dos Estados Unidos.”
No início do mês passado, o governo brasileiro, por meio do Itamaraty, contestou os argumentos favoráveis à sobretaxa e as conclusões preliminares do USTR. Em um documento enviado ao escritório, o Itamaraty defendeu que as práticas comerciais brasileiras não prejudicam os Estados Unidos ou as empresas norte-americanas. O governo brasileiro solicitou que a gestão estadunidense se abstenha de impor medidas unilaterais em decorrência das investigações em curso.
O Itamaraty afirmou que o USTR “não estabelece o nexo legal exigido entre um ato, política ou prática concreta do Brasil e um ônus ou restrição identificável ao comércio dos EUA”. O documento ressalta que as conclusões preliminares do escritório comercial “saltam da discordância em relação às escolhas soberanas do Brasil para conclusões de que tais escolhas são irrazoáveis e de afirmações generalizadas de desvantagem comercial para a conclusão de que o comércio dos EUA está sendo onerado ou restringido”. Essa argumentação sustenta que tal abordagem é “insuficiente para justificar uma ação nos termos da Seção 301“, pois a legislação estadunidense não autoriza o USTR a impor medidas comerciais “apenas por discordar das escolhas políticas de outro país soberano.”
Perguntas Frequentes
O que são as audiências do USTR sobre o Brasil?
As audiências são reuniões públicas promovidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) para investigar se as práticas comerciais do Brasil são desleais ou prejudicam os interesses comerciais norte-americanos. Elas podem levar à imposição de tarifas ou outras sanções.
Quais práticas comerciais do Brasil estão sendo investigadas?
O USTR está investigando seis áreas principais: comércio digital e Pix, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal. Além disso, há uma segunda audiência que inclui o Brasil na apuração de falhas no combate ao trabalho análogo à escravidão.
O que é a Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA?
A Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos de 1974 é uma legislação que permite ao governo norte-americano investigar e retaliar práticas comerciais de outros países que considere desleais ou prejudiciais aos seus interesses econômicos. Ela pode resultar em medidas unilaterais, como sobretaxas.
Como o governo brasileiro tem respondido às acusações?
O Itamaraty contestou os argumentos dos Estados Unidos, afirmando que as práticas brasileiras não prejudicam as empresas norte-americanas. O governo brasileiro pediu que os EUA evitem medidas unilaterais e argumentou que o USTR não estabeleceu um “nexo legal” suficiente para justificar ações sob a Seção 301, criticando a discordância sobre escolhas soberanas do Brasil.
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