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EUA designam CV e PCC como terroristas; Brasil teme sanções

Por Bruno Sampaio | Atualizado em 29/05/2026 às 04:36
Evan Vucci
Leitura: 5 Min
Última Atualização: 29 de maio de 2026, às 04:36

O governo dos Estados Unidos anunciou nesta quinta-feira (28) a designação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO). A medida, válida a partir de 5 de junho, baseia-se em lei americana e ordem executiva, gerando preocupação no Brasil sobre possíveis sanções. Essa classificação sinaliza uma reorientação da política externa estadunidense na América Latina.

O Anúncio e a Base Legal da Designação

A decisão de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO) foi divulgada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos. O comunicado oficial, emitido nesta quinta-feira (28), estabelece que as medidas entrarão em vigor a partir do dia 5 de junho. A designação é fundamentada na seção 219 da Lei de Imigração e Nacionalidade (Immigration and Nationality Act) e em uma ordem executiva assinada pelo então presidente Donald Trump.

Conforme o comunicado, as designações como FTO serão oficializadas após a publicação no Federal Register, o diário oficial do governo norte-americano. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, enfatizou a gravidade da situação. Ele ressaltou que o CV e o PCC são duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil, com milhares de membros.

Rubio destacou a capacidade das facções de orquestrar ataques brutais contra policiais brasileiros, autoridades públicas e civis. Ele alertou que a influência e as redes ilícitas dessas organizações se estendem muito além das fronteiras do Brasil, alcançando toda a região e até mesmo o território dos Estados Unidos.

Os Riscos à Soberania e à Cooperação

O governo brasileiro vinha, nos últimos meses, tentando evitar essa designação por parte dos Estados Unidos. A principal preocupação era que tal classificação pudesse abrir caminho para uma ação militar dos EUA em território brasileiro. Além disso, havia o temor da aplicação de sanções severas em setores econômicos e financeiros do Brasil.

Na avaliação de especialistas, esta designação representa um potencial risco significativo à soberania brasileira. A medida pode, inclusive, prejudicar os esforços de cooperação investigativa entre os dois países. Isso ocorreria porque a classificação como FTO alteraria o nível de sigilo das informações compartilhadas entre os órgãos de segurança.

Os especialistas apontam que a mudança centralizaria a troca de informações na CIA (Central de Inteligência dos EUA) ou em órgãos militares. Essa modificação no fluxo de dados poderia atrapalhar investigações conjuntas em curso entre Brasil e EUA. Consequentemente, inviabilizaria futuras cooperações no combate ao crime organizado.

Os principais riscos à cooperação e soberania incluem:

– Potencial para ações militares unilaterais dos EUA em território brasileiro, sob a justificativa de combate ao terrorismo.
– Aplicação de sanções econômicas e financeiras severas contra o Brasil, afetando diversos setores.
– Alteração do nível de sigilo das informações compartilhadas, centralizando-as na CIA ou em órgãos militares.
– Dificuldade em manter investigações conjuntas em andamento, devido à mudança nos protocolos de compartilhamento.
– Inviabilização de futuras parcerias e projetos de cooperação entre as forças de segurança dos dois países.

A Doutrina do “Narcoterrorismo” e Suas Implicações

Neste novo mandato, o governo de Donald Trump tem reorientado a política externa de Washington em relação à América Latina. A administração estadunidense tem direcionado sua máquina de guerra para a região sob a justificativa de combater o que chama de “narcoterrorismo”. Esse conceito tem sido a base para diversas ações militares no continente.

Ao longo dos últimos meses, forças militares dos EUA bombardearam diretamente diversas embarcações no Caribe. Essas ações ocorreram fora da jurisdição norte-americana, sempre sob a alegação de combate ao terrorismo e ao narcotráfico. A própria invasão do território venezuelano, no início do ano, também foi justificada com base no combate ao narcoterrorismo.

A invasão venezuelana resultou na deposição e captura do então presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. O alcance de ações semelhantes em território brasileiro, com base nesta nova designação do CV e PCC, apesar de incerto, torna-se um risco real. A doutrina do narcoterrorismo expande o escopo de atuação militar americana para além das fronteiras tradicionais.

Reações e o Cenário Político-Diplomático

No início deste mês, em visita aos Estados Unidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva discutiu com Donald Trump, na Casa Branca, a adoção de frentes de trabalho. O objetivo era asfixiar financeiramente as organizações criminosas transnacionais que atuam no Brasil e nos EUA. Na ocasião, segundo Lula, eles não trataram especificamente sobre facções criminosas que atuam no Brasil, como CV e PCC.

O anúncio do secretário de Estado Marco Rubio também coincide com um encontro entre ele e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência da República. A reunião ocorreu nesta quarta-feira (28), em Washington. Um dia antes, o senador havia se reunido com Trump na Casa Branca, em companhia do irmão, o autoexilado ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. Ambos são filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A coincidência dos encontros e do anúncio gera especulações sobre os bastidores da política externa. A classificação de CV e PCC como terroristas é um passo significativo que redefine o relacionamento entre os dois países no combate ao crime organizado. As implicações futuras dependerão da resposta diplomática e das ações de cada governo.

Perguntas Frequentes

O que significa a designação de FTO para CV e PCC?
A designação de Organização Terrorista Estrangeira (FTO) pelo governo dos EUA para o CV e o PCC implica em sanções severas. Isso inclui o congelamento de bens, proibição de viagens para membros e a criminalização de qualquer tipo de apoio a essas facções, mesmo financeiro.

Por que o governo brasileiro se preocupa com essa classificação?
O governo brasileiro teme que a classificação de CV e PCC como FTOs possa abrir precedentes para ações militares unilaterais dos EUA em território nacional. Além disso, há preocupações com a imposição de sanções econômicas e financeiras, e a centralização de informações investigativas na CIA, prejudicando a soberania e a cooperação.

Qual é a relação entre “narcoterrorismo” e as ações dos EUA na América Latina?
“Narcoterrorismo” é o conceito utilizado pela administração Trump para justificar ações militares na América Latina sob o pretexto de combater o tráfico de drogas e o terrorismo. Essa doutrina já foi aplicada em bombardeios no Caribe e na invasão da Venezuela, e agora representa um risco de ações semelhantes no Brasil, com a designação das facções.


29 de maio de 2026|Fonte: Agência Brasil|Foto: Evan Vucci|Redação: Bruno Sampaio|Fonte da Informação ↗

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