O centenário de Ingmar Bergman, segundo André Bazin e José Lino Grunewald

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Ingmar Bergman foi um dos mais maiores cineastas 

Pedro do Coutto         

A Folha de São Paulo publicou, domingo, um suplemento especial dedicado ao cineasta Ingmar Bergman, que, se vivo fosse, faria 100 anos de vida. Foram páginas que fizeram justiça ao grande diretor de cinema. Na quarta-feira, o Estado de São Paulo, no Caderno 2 de cultura, destacou também a importância do diretor, cuja trajetória foi brilhante, incluindo o plano mágico na tentativa de entender a realidade feminina. A obra é importantíssima, chegou ele até onde a visão masculina consegue decifrar. Aliás, busca incompleta, uma vez que o código feminino é indecifrável para o homem, como citou o poeta Décio Pignatari.

A explicação, a meu ver encontra-se no fato de o homem nascer da mulher, o que causa um processo em que fica revelado o código do homem. O nascimento do ser humano representa a ligação mais profunda que pode existir na espécie humana. Pois um ser abriga dentro de si outro ser durante nove meses.

PERSONAGENS – A obra de Bergman destaca a importância da mulher na existência e as personagens são vitais em sua obra. Bergman narrou sua viagem em companhia de atrizes como Liv Ullmann, com quem foi casado por muitos anos, Bibi Andersson e Ingrid Thulin. Sua narrativa cinematográfica por vezes assume um caráter encontrado na literatura de James Joyce, uma vez que a história se interrompe no presente e a câmera se desloca para imagens que os atores têm na mente.

A obra é complexa e Bergman foi descoberto pelo redator chefe do Cahiers du Cinema, André Bazin, e no Brasil foi traduzido com emoção pelo meu saudoso amigo Jose Lino Grunewald. Bazin e JLG traduziram boa parte do enigma do cineasta, destacando as sombras e luzes, os gritos e sussurros dos filmes do diretor sueco.

No Cahiers du Cinema escreveram sobre o universo bergmaniano os então jornalistas Truffaut, Godard, Louis Malle, Bresson, Chabrol, Albicocco e Roger Vadin, para citar apenas estes. Todos eles se transformaram em diretores de filmes franceses e receberam a consagração merecida.

CARREIRA – Falei em “Gritos e Sussurros”, título de um grande filme de Ingmar. Sua carreira despontou em 53 com o filme “Mônica e o Desejo”. Depois surgiram obras-primas como “Morangos Silvestres” e “Persona”. “Gritos e Sussurros”, citei há pouco. Mas a filmografia abrange ainda o “Sétimo Selo”, sobre a importância de Deus na arte e “A Lanterna Mágica”.

O estilo e o ritmo de suas narrativas constituíram a imagem das personagens femininas num espelho, como se ele, Bergman, estivesse do outro lado das imagens. Focalizando e destacando a grande importância de Bergman, creio que os textos de Bazin e José Lino Grunewald representam um momento alto da crítica cultural. Porque de que adianta desancar ou debochar de uma obra de arte, seja ela qual for. Na minha opinião, a crítica deve ser sempre construtiva e estar voltada muito mais para a qualidade do objeto em foco, do que tentar ressaltar seus defeitos. Pois às vezes um artista do amanhã pode ter sua carreira afetada ou anulada por causa da opinião dos outros. 

CONSTRUIR – Assim, é melhor construir do que destruir. Mais difícil, porém, como as pessoas de mente clara acentuam, é reconhecer os méritos alheios, procurando atingir a face negativa da existência. Nas críticas de Bazin e José Lino encontram-se panoramas positivos e não negativos. Essa dualidade, aliás, separa as pessoas, sobretudo os que escrevem nos jornais e revistas. De um lado um jato de luz. De outro a sombra escura.

Para terminar dou um exemplo concreto: o diretor Carlos Manga, atacado por críticos exigentes, poderia ter decidido deixar chanchadas de lado e não se transformar, como ocorreu em importante diretor de imagem e histórias da Rede Globo. Acrescento: o público em geral divide-se em faixas distintas. Não se pode exigir que todos tenham a compreensão no mesmo nível dos críticos. 

Cada fração humana tem seus hábitos e seus gostos. Singularizar a compreensão parte de um caráter supremacista que agride e não tem razão de ser. Bazin e José Lino construíram a face mais humana possível ma arte e na admiração.

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