‘O espírito baiano está fazendo falta’, diz Bial

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Entre a gravação de um programa e outro, o apresentador carioca Pedro Bial, 60 anos, fez uma pausa de dez minutos para conversar com o CORREIO em seu camarim. Na verdade, antes mesmo de tomar a água de coco que o aguardava a postos, com canudo e tudo, Bial já começou o papo no elevador. Afinal, não há tempo a perder diante da rotina de dois ou mais programas por dia. Confira o papo.

Muita gente disse que o programa de hoje, que vai ao ar na sexta-feira (6), foi bem animado. Você concorda?
A gente tem uma equipe muito animada, então da parte da equipe do programa é sempre muita energia. Mas a Bahia tem um jeito, tem uma alegria para todas as idades. O Tchan tem essa coisa da brincadeira, mas que não ofende. Hoje em dia você já tem outro tipo de pagode, com piadas mais chulas. O Tchan tem uma coisa que todo mundo pode brincar, não exclui ninguém. Hoje eu me surpreendi especialmente com a Sheila, que revelou-se de um jeito que não me lembro de ter visto, falando de uma coisa que ninguém fala: da importância do Tchan colocar a dança em primeiro plano. As dançarinas sempre ficavam lá atrás e com o Tchan elas foram pra frente. E que forma física! Perna de um jogador de futebol bonita! (risos) Gostei bastante, foi bacana.

Em entrevista, você disse que “há temas que pautam os convidados e há convidados que pautam o tema”. Qual dos dois casos guiou a escolha pelo time baiano?
Essa oportunidade de mergulhar naquele axé dos anos 90, naquele grande fenômeno nacional. E o Luís, na verdade, foi a cereja do bolo, porque ele é um dos grandes atores brasileiros da atualidade e topar a brincadeira de entrar no bolo, no axé… Falou até pouco sobre a atividade dramática dele, de ator. Foi muito mais uma celebração à Bahia. Todos juntos. Eu tenho uma ligação com a Bahia, porque comecei minha carreira como repórter na TV Aratu, na época que era retransmissora da Globo, lá em 1980. Então, tem um negócio lá… Hoje começou com esse gancho do axé e do É o Tchan, mas foi um pouco a celebração de um espírito baiano, alegre, que está fazendo falta a um Brasil que está um pouco carrancudo, entristecido. A Bahia é justamente a virada da Triste Bahia, do Gregório de Mattos, que citei no início do programa, e ‘alegre Bahia’, tão diferente… A alegria é a prova dos nove.

Foi um pouco a celebração de um espírito baiano, alegre, que está fazendo falta a um Brasil que está um pouco carrancudo, entristecido.

Você se sente muito confortável na função de entrevistador, de onde vem isso: do gosto pela leitura, da experiência no jornalismo, do exercício da escuta?
Procuro me preparar bem. Só fico à vontade se estiver com o dever de casa muito feito. A gente só consegue a informalidade assim. Hoje aconteceu um negócio no programa que não é todo dia que a acontece. A gente tem um roteiro que a gente prevê a ordem que os assuntos vão entrar e as perguntas. Mas o roteiro é algo que você recorre se a conversa não rola. Hoje, não teve momento nenhum que precisei recorrer ao roteiro. A conversa rolava e me dava deixas pra conduzir pra lembrar uma coisa, rodar um VT. Quando isso acontece, é o programa ideal. Pra isso acontecer, eu tenho que estar com o dever de casa feitinho, pra não precisar ficar recorrendo. Tem isso, essa coisa meio cu de ferro que eu tenho, de estudar, mas eu tenho uma curiosidade genuína pelas pessoas, eu realmente não estou perguntando por perguntar. Eu quero saber. E me interesso. Quando um convidado percebe que é genuína a curiosidade do entrevistador, se sente respeitado, se sente acarinhado, aí a coisa rola. A coisa da escuta, que você falou, é o pulo do gato.

Se você souber escutar, aí a conversa se estabelece. Não é ficar esperando pra falar, é esperar pra ouvir.

O que o ato de entrevistar representa para você? E o que você considera uma boa entrevista?
Uma oportunidade de deixar sair o que estava preso. Não é toda hora que isso acontece. Quando você, por sua escuta, por sua eventual intervenção, faz brotar do convidado algo que ele nem sabe que ele queria dizer, que ele podia dizer, que ele está precisando dizer, que é quando o inconsciente toma a frente, ah, isso é o máximo. Olha, isso não acontece toda hora. Às vezes, num programa de televisão, é difícil. Às vezes, pra chegar nisso, você tem que conversar uma hora, duas horas, a pessoa vai cansando, vai baixando as resistências e aí escapa. Mas isso em televisão não dá, porque em uma, duas horas, quem cansa é o espectador. Mas aí tem umas coisas que são meio inexplicáveis e surgem. Quando a pessoa se sente aceita, se sente acolhida.

Acho que hoje todo mundo se sentiu acolhido eu, eles… Estávamos ali celebrando a vida, celebrando a música, celebrando as histórias de sucesso, celebrando a Bahia, o Brasil negro, o Brasil mestiço. Foi muito legal. Você deu sorte, veio em um dia muito bom! (risos)

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