App de transporte só para mulheres deve chegar a 800 motoristas até dezembro

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A estudante do sexto semestre de Direito Laís Ribeiro, 23, foi vítima de assédio de um motorista do aplicativo de transporte Uber no Carnaval. Depois dessa viagem, Laís só voltou a usar carros cadastrados em aplicativos de passageiros somente a menos de um mês, quando conheceu, por meio das redes sociais, o Partiu Rosa, um aplicativo de transporte de passageiros só para mulheres – mas não só passageiras, no volante é elas que também estão presentes.

Já disponível para celulares android e em espera para liberação na plataforma IOS, o que deve ocorrer nas próximas semanas, o Partiu Rosa está com 240 motoristas cadastradas e a expectativa é que chegue até 800 até o final do ano. O aplicativo já teve mais de 1.000 downloads realizados.

Na Bahia, dos cerca de 25 mil motoristas cadastrados em aplicativos de transportes, como Uber, 99pop, Itmov e Cabify, pouco mais de 3.000 são mulheres, informa o Sindicato dos Motoristas por Aplicativos e Condutores de Cooperativas do Estado da Bahia (Simactter), segundo o qual, de janeiro a abril, 592 motoristas foram expulsos do sistema por alguma irregularidade.

Zenaide Lima, 46 anos, é motorista no app Partiu Rosa
(Foto: Divulgação)

No Brasil, devido à quantidade de empresas de aplicativos, não se tem um número certo sobre motoristas. A Uber, a maior delas, informa que há mais de 500 mil motoristas do sexo masculino cadastrados – não há estimativas sobre o sexo oposto.

A proposta do Partiu Rosa, segundo as idealizadoras, é garantir maior segurança para mulheres, após os sucessivos casos de assédio que vêm ocorrendo não só em Salvador, mas em outras capitais, onde iniciativas do tipo já estão em prática pelo mesmo problema, como Recife, Vitória, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

“O motorista pedia a todo momento o meu contato. Olhava-me tão estranho que fiquei desconfortável com a situação de assédio. Tanto que relatei tudo à empresa de aplicativo de celular, que ficou de apurar os fatos. Mas eu não chequei se foi feito algo com o motorista, e é o que mais me arrependo, pois ele pode ter feito o mesmo com outras mulheres”, disse, se referindo a experiência desagradável que viveu durante o Carnaval.

Depois do trauma, ela conta que na primeira vez que usou o Partiu Rosa sentiu a diferença. “Estar em companhia de outra mulher é bem melhor. Me sinto mais segura agora, e já tenho feito amizades com algumas delas”, contou a estudante Laís Ribeiro. “Muitas amigas minhas estão usando e elogiando também, espero que continuem prestando um bom serviço”.

Sócia-administradora da Partiu Rosa, a empresária Maria Vilma Conceição da Silva, 64, informou que tem atendido também mulheres em companhia de idosos e crianças do sexo masculino. “Não é que pode entrar só mulher no carro, o que não pode são passageiros que ofereçam risco, como os mais jovens e adultos. Os demais só podem entrar em situação de acompanhamento especial”, explicou.

Para ser motorista da Partiu Rosa, o procedimento é semelhante ao dos demais aplicativos de transporte. Tem de estar com a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) em dia, assim como os documentos do veículo. Zenaide Lima, 46, é uma dessas motoristas. “Tenho sido chamada por muitas motoristas com quem já fiz viagem, esse retorno delas tem sido ótimo. Esses dias, peguei uma que estava muito bêbada, até vulnerável. Não só a levei até o local, como também a coloquei dentro do prédio, com ajuda do porteiro. No outro dia, ela fez questão de me procurar para agradecer”, conta.

Mas oferecer serviços de transporte exclusivo para mulheres estaria, de alguma forma, indo de encontro ao Código do Consumidor ou sendo preconceito de gênero? “De forma alguma. É um serviço como ocorre, por exemplo, com o vagão do trem especial só para mulheres. É para evitar certas situações, não tem problema”, disse o professor de Direito do Consumidor da Faculdade Jorge Amado Luís Carlos Lourenço.

“O serviço está já disponível para o público em geral por meio de outros aplicativos, não é algo que vai restringir, fazer com que outras pessoas deixem de usar o serviço. Há outras opções”, completou a professora de Direito do Consumidor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Maria Stella Gregori.

“O que é lamentável é ter de fazer isto num momento em que se divulga cada vez mais o respeito aos direitos das mulheres, o combate ao assédio. Mas é louvável porque pode evitar algo de mais grave”, observou a professora. Importante lembrar que o sistema carcerário baiano atualmente abriga 454 presas, 148 em regime fechado.

Sensação de “apartheid”

Para o presidente do Sindicato dos Motoristas por Aplicativos e Condutores de Cooperativas do Estado da Bahia (Simactter), Átila Santana, o Partiu Rosa gera uma sensação de “apartheid”, expressão africana que significa separação e cerceamento de direitos, seja por parte de uma raça ou grupo social.

“Não acho isso bom, mas esses casos de assédio estão acontecendo muito, não só com relação às passageiras, como também às motoristas. Só acho que a empresa Partiu Rosa deveria ter procurado a gente antes para conversar sobre o problema e ver formas de atuação conjunta”, falou.

Ele disse que as motoristas têm relatado constantemente o assédio masculino durante as viagens. “Elas, enquanto motoristas, ficam muitas vezes mais vulneráveis, pois entram dois a três passageiros nos carros, que a pedem para levar a locais desconhecidos. É um risco muito grande”, comentou.

Na empresa Itmov, as motoristas tem buscado trabalhar em horários estratégicos para não se expor e evitam certos trajetos. Dos mais de 4.000 motoristas cadastrados, cerca de 20% são mulheres, diz o empresário Victor Midlej, diretor executivo e um dos sócios da empresa. “Além disso, damos também às mulheres o direito a escolher o passageiro que ela quer levar”, afirmou.   

Sobre o app para mulheres, a Uber, em nota, declarou que “vê a competição nesse setor como algo positivo, já que isso permite ao usuário e ao motorista parceiro contarem com opções para se locomover pelas cidades e gerar renda”.

“A Uber acredita que as mulheres têm o direito de ir e vir da maneira que quiserem e, além disso, têm o direito de fazer isso em um ambiente seguro”, diz o comunicado, que enfatiza o repúdio a “qualquer tipo de comportamento abusivo contra mulheres”.

“Qualquer denúncia reportada pelo app é analisada com cuidado e tratada com o máximo de seriedade –, e quando comprovada, pode levar à desativação dos envolvidos. A empresa está sempre à disposição para colaborar com as autoridades no curso de investigações ou processos judiciais”, finaliza a nota.

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