Se chifre fosse flor, cabeça de fulano era jardim

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Houve tempo não muito longínquo no qual o maior xingamento que se podia fazer a um homem era chamá-lo de corno. Tal estigma o fazia motivo de escárnio público, e, não raro, ocasionava reações iradas por parte do ofendido, que, em tresloucado gesto, sacava revólver do coldre e disparava nas fuças do ofensor.

Ilustração: Pedro Saci

Cornos sem índole homicida não resistiam à fama maldita que lhe grudara no corpo feito chiclete em cadeira-de-madeira-de-cinema-d’antanho – e sucumbiam ao ímpeto suicida que os arrebatava e davam tiros fatais na própria têmpera, ou se enforcavam em árvore frondosa.

A execração pública do corno tinha propósitos nitidamente machistas. Condenava-se o homem ‘chifrudo’ – adjetivo perverso que rotulava o marido ultrajado – duplamente: 1. Por ter sido traído por ‘mulher’ – as aspas advêm do fato de haver dissimulado desprezo às criaturas do sexo masculino em pleno domínio da sociedade patriarcal. 2. Por ter se tornado corno público, e não ter impedido – usando recursos violentos se preciso fosse – que a traição sofrida se tornasse tema de prosa de boteco.

Claro, as mulheres também eram traídas – na verdade, extraordinariamente traídas. Na ponta do lápis houve tempo no qual todas as esposas eram traídas (t-o-d-a-s). Mas a cultura machista em pleno apogeu não as relegava ao limbo, não as xingava, não as execrava, longe disso: considerava-se o silêncio em relação à traição masculina uma, digamos, segunda pele da mulher ‘de bem’.

Na minha cabeça de garoto não entendia a gravidade do xingamento e a vulnerabilidade existencial que o dito corno adquiria a partir do momento que tal ‘mácula’ se tornava pública. [Já adulto, pude perceber: era mais ‘cômodo’ trair do que ser traído. Kaput].

Nessa época na qual o corno era o não-homem, o execrável, o abominável, certa ocorrência – que mais tarde revelou-se notícia falsa, espécie de fake-news-avant-la-lettre – eclodiu. Divulgou-se sertão adentro que caminhão com placa do Espírito Santo (ou de Minas Gerais) adentrara o território baiano com a seguinte frase escrita no para-choque traseiro:  ‘Se chifre fosse flor, cabeça de baiano era jardim’.

Tal ‘ignomínia’ afrontou a macheza sertanejana ultrajada. Depois de ter o veículo apedrejado em vários trechos da viagem pela Rio-Bahia, o motorista fora forçado a parar por escolta de homens armados a bordo de jipes e caminhonetes, na altura da tenebrosa serra do Mutum, entre Milagres e Jequié. Ato contínuo, arrastaram-no para os matagais à margem da rodovia, e o esquartejaram sem dó e sem pejo.

[O falso assassinato descrito com requintes de crueldade, divulgado à exaustão, transmitia o seguinte recado: ninguém chamaria sertanejano algum de chifrudo impunemente]. [Episódios machistas desse naipe – para usar máxima popular  da época concernente com o tema aqui tratado – existiram desde os tempos de Dom Corno, o pai de todos os cornos – e, presumo, existirão até o fim dos tempos].

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